domingo, dezembro 03, 2006

TRAGUS, o borreguinho grego


Todo o edifico da cultura ocidental foi construída em cima do borreguinho grego.
Borrego que em grego se diz TRAGUS, é a palavra que serviu de base para inventar a palavra TRAGÉDIA.

Conta a lenda, que foi sobre uma pele de um borrego que Téspis dançou embriagado de vinho dionisíaco e felicidade. Isto depois de ter inventado o teatro.
E bem vistas as coisas até tinha razão o velho Tepis de Atica para se embebedar e ficar contente… Se houve invenção que teve de facto impacto na humanidade, essa invenção foi a tragédia.

Quase três mil anos depois de ser inventado, o teatro grego continua a ser o abecedário com que se escreveu e escreve todo o pensamento dito ocidental.
O pensamento clássico grego, produto e produtor da tragédia serviu para cimentar a cultura grega, e depois todas as culturas ocidentais: a cultura latina, católica romana, medieval, renascentista, iluminista, liberal, libertaria, capitalista e marxista.

O processo narrativo da tragédia grega, o processo do borrego, serve de base para todo uma epistemologia racional onde os efeitos provocam causas e estas por sua vez se transformam em novos efeitos.

Ismos vários, ciência, poesia, tecnologia, romances e estrelas pop, tudo isto enquanto conceito, pois foi parido, cuspido e cagado pelo borreguinho grego.

O antigo teatro grego, tinha uma forma bastante fechada.
Tres elentos: o actor, o coro e o publico.
O actor dizia o ditirambo, uma espécie de discurso laudatória e lamechas que usando uma linguagem figurativa lambia o cu a um dos deuses…
O coro, era o conjunto de vozes que interpretava o ditirambo que o actor debitava e o “traduzia” em linguagem comum de modo a que o publico percebesse a historia.
O público, assistia e se gostasse batia palmas, se não gostasse espancava o actor e os elementos do coro.

O actor falava do sofrimento de um deus, o coro ia explicando a historia, o publico chegava à verdade. A verdade primordial dos deuses, o mito era assim difundida pelo teatro e através desta via chegava às pessoas.
Foi esta a razão que levou o Tepis a inventar o teatro: para propagandear verdades.

Na organização narrativa da tragédia grega, a verdade é o MITO. O prémio por termos chegado à verdade é borrego, TRAGUS.
A tragédia, tal como Nietzsche a explicou é o culminar do processo de sofrimento.
O sofrimento, PATHO (palavra que mais tarde serviu para inventarem a patologia) não é mais de uma antecâmara da verdade.
Há o sofrimento, a verdade e a sua interpretação criada sobre a forma de mito.

O mito enquanto conceito também é em si um actor, pois representa o real enquanto amálgama de varáveis organizadas num só texto.
O prémio final, o TRAGUS.
Outra vez o borrego…

Foi a partir desta organização cronologia: sofrimento, verdade, prémio que toda uma linhagem civilizacional construiu o seu edifício.
Um processo afinal bastante simples: sofrer, conhecer e comer o borreguinho.
Toda a criação ocidental gira à volta deste ciclo trifásico.

Nos romances de cavalaria medieval, o cavaleiro andante, passa as passinhas do Algarve para ter acesso ao caminho que conduzirá ao Graal ou à quente virgindade da donzela enclausurada que é assim uma espécie de borrego.

Na novela renascentista e com o advento das personagens complexas e metafóricas, os novos elementos introduzidos não mudaram a organização molecular da narrativa. Continua a haver um percurso de sofrimento e vicissitudes, um culminar do enredo com o conhecimento da verdade e um prémio no final.

O conhecimento dos enciclopedistas do século XVIII trouxeram o processo causa efeito para a produção científica e aspiraram a uma verdade universal confirmada.

A revolução francesa não é só por si uma tragédia grega?
Veja-se. O sofrimento do povo como PATHOS, a tomada da Bastilha como o MITO (um episódio simbólico que explica o real) e a cabeça da Antonieta guilhotinada como o TRAGUS (borrego que premeia os actores…)

O próprio cinema foi criado em cima deste modelo do borreguinho.
O rapaz doa fita, leva porrada dos bandidos e dos índios maus, conhece um índio bom que o ajuda a chegar ao esconderijo e salva a rapariguinha mesmo antes dos mauzões a comerem à vez… PATHOS, MITO, TRAGUS.

Até a pobre escrava Isaura, que só deixa de levar porrada do malvado Loencio (PATHOS) quando percebe que na realidade é uma nobre (MITO) e que vai herdar toda a fazenda de escravos (TRAGUS).

Este modelo, sofrimento/verdade/prémio, serviu tambem para construir o corpo teologico do cristianismo. O sofrimento de Cristo, (PATHOS), a palavra sagrada (MITO) e a salvação da alma do católico como o borrego (TRAGUS).

Até os modelos marxistas, vão beber à tragédia grega:
PATHOS é sociedade capitalista marcada pelo sofrimento causado pela exploração do homem pelo homem.
MITO é o processo revolucionário enquanto verdade universal que explica o real. TRAGUS é a sociedade sem classes que é por si o prémio que todos vamos alcançar.

Mas afinal de contas o que é que valoriza a tragédia grega?
Pois carissimos leitores, a tragédia valoriza o conhecimento.
A verdade como modelo de acesso ao borrego.
Criamos uma sociedade milenar baseada nesta lógica do conhecimento enquanto chave…

O MITO, a verdade é o que nos liberta do sofrimento PATHOS.

Às vezes pergunto a mim mesmo, (acontece-me com frequência nas tardes de domingo) como seria o mundo se em vez de valorizarmos o conhecimento valorizássemos as emoções.

Como seraim as coisas, se em vez de tentarmos perceber, tentássemos sentir.

Se em vez de pensarmos em ontem e amanha nos limitássemos a pensar em hoje….

Porra, que revolução…

Estou convicto que se o presente imperasse, o prémio deixaria de ser o borreguinho já rançoso da tragédia grega...

quarta-feira, novembro 08, 2006

Barcelona e eu


Quando em 1992 estive em Barcelona fui completamente tomado pela cidade.
No inicio dos anos 90, Lisboa era um buraco (e ainda é!!) onde tudo quanto era modelo neo liberal americano tinha de ser importado, aplicado e adorado com reverencia.
Eram os anos do cavaquistão duro e cinzento. O santana lopes andava pela cultura de estado e aos estudantes que lutavam pelo ensino público os media chamavam geração rasca...
Os modelos capitalistas estavam intocáveis no seu pedestal.
Tudo quando fugisse a uma organização social organizado nas leis do mercado era considerado ridiculamente obsoleto.
Nesse ano de 92 andava eu a meio de uma licenciatura em ciências sociais. Acreditem que às vezes era desesperante lutar contra todo um universo de modelos e estereótipos em relação aos quais eu sabia convictamente que me era imprescindível lutar….
Chegar em finais de 92 a Barcelona e perceber que ali havia gente que ousava viver e fazer coisas de maneira diferente das maneiras impostas pelo costume... foi uma sensação incrível de liberdade.
Mais: ali as coisas aconteciam naturalmente sem grandes celeumas. As organizações juvenis politizadas e interventivas, os protestos consequentes, a cultura como coisa de rua feita para todos, as liberdades de hábitos e consumos, tudo isto foram para mim revelações.
Percebi que não estávamos só.
Percebi e reconheci-me numa esquerda possível, moderna, interventiva e progressista. Percebi que, ao contrário do que diziam certos pseudo esclarecidos, não estávamos todos a empurrar para a frente um carro que acabaria por de cair no precipício que tragou muro de Berlim.
Passaram por mim 14 anos.
Estudo e trabalho. A dependência, a independência. Um filho, um casamento, um divorcio. Uma união de facto. Africa, América e Ásia. Um ajuntamento. A magia branca e negra. O desamor. A morte passou por mim e levou-me família e amigos. A vida trouxe novos amores. Uma filha.
Definitivamente já não sou o mesmo.
Catorze anos depois, Barcelona foi uma desilusão.
A cidade deixou de pertencer à gente. Deixou de pertencer agente. Deixou de nos pertencer.
Encontrei Barcelona plastificada.
Onde antes andavam putas e velhos comunistas, estudantes borbulhentos em excursão de finalistas fazem declarações de amor a professoras solitárias.
Os turistas e os erasmos tomaram conta da cidade.
A propaganda política saiu das paredes.
Tabernas fechadas transformadas em espaços design.
Jovenzitos bem parecidos empenhados em parecer artistas. Artistas empenhados em fazer fortuna. Ricos empenhados até aos cabelos.
Bancos e lojas finas. Quiosques de recuerdos a venderem o touro andaluz a mil km de distância.
Em 92 vi pela primeira vez uma verdadeira fusão de culturas. Desta vez não encontrei a cidade. Está mais moderna, disseram-me. E globalizada. Globalizada com tudo de mau que o conceito arrasta.
Barcelona, é hoje propriedade de uma minoria catalã, onde trabalham os magrebinos e sul-americanos para servir os europeus que a visitam à procura daquilo que é suposto ser uma alma cultural hispânica.
O mediterrâneo que inundava as praças da cidade com o cheiro a mar foi afastado para lá de uma imensa marina construída como uma montra para a cidade. Que interesse tem ver barcos de luxo se um estivador já não consegue arranjar trabalho no porto?!?!
Os velhos republicanos sempre dispostos a contar como aqui se lutou e morreu pela liberdade devem já ter baicado todos.
As casas ocupadas têm subsídios camarários e são centros culturais.
O turismo e a cultura são o negócio.
Barcelona que eu vi em 92 está viva. Eu sei que ainda está viva. Mas está escondida. Na clandestinidade. Espera por melhores dias.
Daqui a uns tempos, quando os erasmos todos voltarem para as suas terras cinzentas e para carreiras de sucesso em gabinetes de classe,
Quando os touritos mais os bibelots e os livros sobre arquitectura comprados pelos turistas ganharem suficiente pó,
Quando no Equador, na Guatemala, nas Honduras ou na Bolívia, já não for preciso fazer as malas para ir procurar comida noutro lado,
Quando os muros que alguns políticos quiseram construir à volta da Europa ruírem por falta de fundações,
Então aí pode ser que Barcelona possa voltar a ser Barcelona.
Então volta tudo a ser possível.
Outra vez à luz difusa do entardecer vou ver o fantasma do Picasso deambulando à procura dos amigos fuzilados em 36.
Vou sentar-me numa mesa quadrada de mármore, pedir lume ao octogenário anarquista e atirar-lhe assim de caras:
--- Foi a vossa indisciplina que fez perder a guerra e abriu a porta ao franco.
Depois vou ficar a embebedar-me com osborn o resto da noite, enquanto aprendo histórias de trincheiras e de solidariedade. Sem regras.

Pedido de desculpas ao Sr. Santos de Taipa


Tive notícia através de um familiar que vive em Macau, que o Sr. Santos em Taipa, leu este meu blog.
Leu e não gostou.
Não gostou com toda a razão.
Quando escrevi aqui sobre o seu restaurante, disse que o Sr. Santos fazia filhos a uma filipina. É mentira.
O Sr. Santos é casado com uma portuguesa e não com uma senhora de nacionalidade filipina.
Como esclarecimento, devo dizer que as historias deste bloge são feitas daquela mistura perigosa que incliu realidade e a intrepretação que dela eu faço.
Às vezes a minha intrepretação ultrapassa aquilo que para os outro é a realidade.
O Sr. Santos existe e vive em Taipa, nos arredores de Macau. O Sr.Santos tem um restaurante português onde se come muito bem. Fui levado como convidado a este espaço e tenho as melhores recordações dessa noite.
A senhora filipina que vi no restaurante será eventualmente uma empregada do Sr. Santos.
Confundi-me e disse o que não é.
Confundi a empregada com a patroa. O vinho alentejano às vezes potencia este tipo de confusões. Quando no blog quis publicitar o sitio que deveras gostei quer pela companhia quer pela comida e atendimento, fiz asneira.
A mentira que disse, disse-a tambem de uma forma que pode ser entendida como deselegante e intrepretada como roçando o machismo e o racismo.
Eu sei que os filhos se fazem a dois.
Eu sei que as senhoras filipinas, são tão dignas como as senhoras portuguesas, chinesas, alemãs ou quenianas.
Com mais de um ano de grosseria e inverdade publicada peço as minhas sérias e sinceras desculpas.
Lamento.
Lamento por si senhor Santos, pela sua esposa, pela sua empregada e por todos os seus clientes e meus leitores.
Flatulências a partir de 28/01/2006