A lua cheia do Bolinha
A verdade é que houve um tempo em que era suficientemente parvo e ingénuo para procurar Deus. Em vez de ir à catequese tomava ácidos. Era o acto procurar Deus com bengalas químicas. Felizmente que das vezes que caí nunca me magoei seriamente... e guardo recordações engraçadas dessa altura. Falo-vos da pré-história dos ácidos.
Este vosso Riky Martin e mais alguns eleitos jurávamo-nos e seguíamos para o “vente da mãe natureza”, longe de estímulos que classificávamos como negativos e íamos curtir a nossa esquizofrenia tentando aumentar a consciência cósmica.
Fugia para a serra da Arrábida que era já quase a minha casa de fim de semana. Ia para Porto-Covo e para a Ilha do Pessegueiro. Para a Serra de Sintra. Algumas vezes quando o orçamento era mais curto procurávamos o “ventre da mãe natureza” na praia do Barreiro ou na Mata da Machada. Ficávamos a desvairar sobre as cores do por do sol sobre o rio com os barcos da CP a passarem-nos ao largo. Era bonito.
Ainda hoje e herança desses tempos, gosto ficar deitado no chão olhar para o céu estrelado e deixar-me cair no vazio. E gosto de fechar os olhos no campo e ficar a ouvir o canto dos pássaros e imaginar cores a acompanhar os sons. Talvez também seja herança de viagens de ácidos, mas há duas luas por ano que eu não gosto de perder: Alua cheia de Janeiro e a lua cheia de Agosto. A primeira branca e a segunda amarela. À mais dez anos sem ácidos continuo a planificar a noites de lua cheia de Agosto e Janeiro. Com ou sem companhia. Com ou sem copos. No campo, na praia, na montanha ou no deserto. Gosto de ficar assim uma hora ou duas a olhar para a lua e a pensar na vida que é a mesma coisa que dizer sem pensar em nada...
Uma dessas noites magicas de luar inesquecível foi a Lua cheia de Agosto de 1993. Portinho da Arrábida de quarta para quinta. De um grupo de uns seis, dois tomamos acido. Eu e outro místico. Tivemos o químico guardado à espera da lua cheia durante mais de três semanas. Preparativos organizados com a precisão de uma cerimonia religiosa. Lavamos no saco a nossa Bíblia que era o livrinho do Dr.Timothy Larry sobre a experiência psicadélica, versão inglesa fotocopiada da biblioteca publica de Amesterdão. Levamos fruta chocolates, sumos e não tocamos nem em álcool nem em charros.
Chegamos ao Portinho ao final da tarde. Algumas famílias resistentes recolhiam os chapéus de sol. Subimos ao monte branco e deixamo-nos ficar a tocar guitarra e a bater em tambores. Tomamos a cena ao por do sol e foi um delírio. As cores do céu sobre o mar comoveram tanto o outro tipo que ia comigo que o fez chorar de alegria. Eu encarnei uma gaivota. Enquanto o pássaro se afastava na direcção do cabo espichel cheguei a sentir o vento a bater-me nas penas. Recordo a forma como o som da areia a ser pisada fazia sair luz da linha do horizonte. Depois a noite de luar magnifico que fazia uma estrada sobre o mar na direcção da Anixa. Na praia alem de nos um ou outro pescador que respeitavam a distancia de segurança e privacidade. Noite quente com uma brisa morna a lembrar-nos que Africa é já ali. Tudo perfeito. Se não éramos deuses pelo menos sentíamo-nos como tal. Tudo nos foi revelado nessa noite. Infelizmente, depois do acido descer todo voltou a ser oculto outra vez. A luz branca da lua era Deus que comunicava connosco através da onditas calmas da baia do Portinho. Ao nascer do dia um tronco a boiar transformou-se no crocodilo primordial que traz o mundo às costas. O sol ao levantar-se por trás da serra era Deus feito luz a encandear-nos e assumir todo a potencia da verdade que cega.
Entretanto das outras pessoas que estavam connosco, uns estavam mais ou menos bêbados e outros mais ou menos ressacados. O sono deu-lhes com força por volta das sete da manhã e decidiram montar uma tenda canadiana para dormirem na sombra hiper-aquecida.
Nem eu nem o Feijone pretendíamos dormir. Estávamos na fase do baptismo purificador no mar Mãe Universal de vida, quero dizer com isto que fomos dar um mergulho. Por isso não ligamos à tenda.
Nós não ligamos mas houve alguém que ligou. Nem dez minutos passaram desde que a tenda foi montada até aparecerem dois guardas florestais e um cabo-do-mar.
-- Vamos a acordar e a levantar a tenda. Estão num parque natural e é proibido acampar.
Entre os mais sóbrio vozes razoáveis tentaram argumentar
-- Mas nos não estamos a acampar, chegamos à pouco e só queremos descansar umas horas.
O Cabo do Mar, cortou autoritário:
-- Chegaram ontem à noite que nós vimos muito bem.
Eu e o Feijone, assistíamos à discussão à distancia suficiente para ouvi-los, mas suficientemente longe para não lhe dar importância. Nisto, num repente o meu amigo abandona-me no êxtase místico e decide-se por interromper a discussão dos mortais. Para isso, avança directamente sobre o cabo-do-mar, dá-lhe um valente caldo e grita:
-- Bolinha pá, assim vestido de almirante não te reconhecia!!! Tas bom?
Silencio de todos os presentes excepto do cabo do mar que começa logo por esclarecer que não é o Bolinha.
-- Não és o bolinha o quê, pá!!! Este gajo sempre foi um granda gozão!!! É um fixolas. Tas a fingir para quê Bolinha????
Felizmente que nesta altura os mais sóbrios já estavam a desmontar a tenda e por isso o guardas florestais (convencidíssimos que o cabo do mar é o Bolinha) decidiram-se ir embora. O Almirante, ainda negou mais duas vezes que não era o Bolinha, que há pessoas muito parecidas... ninguém acreditou nele e por isso aproveitou a boleia dos guardas florestais.
Afastado o perigo, todos perguntamos ao Feijone:
-- mas olha lá, tu conhecias o gajo?
-- eu não!!!! mas assim que olhei para achei-o parecido com um gajo lá da minha rua que é o Bolinha....
O resto do dia foi fantástico e claro que o cabo-do-mar não voltou a incomodar, de qualquer modo partir desse dia, toda a gente o conhece pelo Bolinha.
