Prisiricolga

“Em Luanda aprendi o oficio de puta mas em Lisboa aprendi de prisiricolga!!!”
Quem fala assim é uma das minhas companheiras dos café da manhã aqui na rua de São Paulo.
Numa das esquinas do largo há uma leitaria velha e suja quem vende bolos de padaria e é onde as putas tomam o pequeno almoço. Quando venho trabalhar demasiado cedo para comer no barco, costumo parar por ali onde as pessoas que trabalham de noite se cruzam com as pessoas que trabalham de dia. Taxistas em fim de turno, putas, policias extraviados, pintas decadentes, emigrantes clandestinos desempregados e eu. Cervejas convivem com meias de leite pacificamente sobre as meses de mármore.
Com o tempo já vou conhecendo as pessoas pelo nome.
A senhora que aprendeu a ser puta em Luanda chama-se Simara e é do tipo pequena e arredondada. Tal como eu deve andar nos trintas e tais. Tem os olhos azuis plásticos constantemente a lacrimejar das lentes de contacto e na cabeça usa uma cabeleira com cabelo preto desfrisado. Sei que tem lentes e cabeleira porque às vezes quando a leitaria fica mais vazia, a Simara vai tirar as lentes e a cabeleira... quando isso acontece as botas e a eterna mini-saia destoam do seu rosto vulgar de mulher cansada.
Hoje de manhã a Simara tinha as lentes, a cabeleira, a mini saia e a boa disposição alcoolizada de quem anda a facturar em cima do subsidio de natal.
Na leitaria vazia estávamos poucos. O velho surdo que é o dono, mais a Simara e uma sua colega mais nova e com o rotulo AGARRADA escrito na testa. Eu já tinha subido ao escritório mas como ainda não eram oito e meia desci para tomar o pequeno almoço e olhar as gordas do publico.
Foi depois de responder aos meus bons dias que a Simara se saiu com a frase:
-- Em Luanda aprendi o oficio de puta mas em Lisboa aprendi de prisiricolga.
-- psicóloga !!! Corrigiu a agarrada na sua voz sonolenta.
-- Isso prisiricolga.
Interessado no tema sentei-me na mesinha do canto, abri o Publico e fiz render as folhas do jornal para ouvir o discurso até ao fim. A Simara prosseguiu:
--Em Luanda uma rapariga para ser puta tem de ser boa de cropo e noa de cama. Aqui em Lisboa para se ser puta tem de saber ouvir com atenção os problemas dos portugueses e concordar com eles. E não tem haver com os homens brancos e os homens pretos. Aí é o mesmo igual aqui que lá. A diferença esta no que os homens procuram nas rapariga. Nisso em Lisboa é diferente de Luanda.
Em Luanda os homem que vai nas menina é os imigrante que tão a sentir sozinho. Lá como aqui tem de todas as cores. Lá tem muitos malaios e zairenses, e tem também europeus. Lá tambem tem muito emigrante, esses todos vai nas meninas por que precisa mesmo.
Não tem mulher, então, como é que faz? Então vai nas menina.
Mas muitos dos homens que vai nas meninas em Luanda não é os emigrante. Em Luanda os homem vai nas menina, vai para levar os amigo.
È.
È assim mesmo. Vão em grupos de três e quatro e um deles paga para os outro fudé. É assim mesmo, leva os amigo nas menina depois fica à espera e pergunta para os amigo: “Então gostaste desta pá? “ se os amigo diz que não gostou fica bravo e às vezes dá até para exigir o dinheiro de volta. Quase nunca tem maka porque quando os homem vai com os amigo nas menina ficam todos contente.
Aqui em Portugal os homem não faz isso. Quando os homem querem agradar os outro levam a jantar em casa. Ou tomam bebedeira juntos. Mas não oferecem menina. Em Angola todo o mundo vive a jantar na casa de todo o mundo e todos tomam bebedeira sempre com amigos, inimigos, conhecido e desconhecido. Então amigo que é amigo leva amigo nas putas porque não tem outra maneira de mostrar amizade entre homem. Lá é assim mesmo.
Aqui os homem que vem nas menina são diferente. Vem sempre sozinho. Parece que não vem para fudé. Tem imigrante angolano que vem comigo para falar das coisas que tem em Angola e das coisa que já tem em Portugal e já comprou e que vai comprar. São dos que fode e depois fica a conversar alto para impressionar as menina. A mim não faz efeito essa magia!!! Desses eu não gosto memos porque normalmente nunca querem pagar logo logo. Depois perguntam se gostei. O que é que tu vais responder a isso? Vou responder a verdade? Eu gosto é de dinheiro?? Não pode. Então se respondo que sim, mesmo por delicadeza vão-me logo a querer o dinheiro de volta. Tchiiii pá!!! Com parente e compatriota assim, aka que fica difícil!!!
Depois também há os homem portugueses esse são os piores pá!!!
Aqui o seu olhar cruzou comigo e fez-se um silencio momentâneo na leitaria.
-- Não são todos, corrigiu a Simara com um sorriso rasgado atirado para mim de cima do balcão de mármore. Não são todos. São só os meus cliente. Esses sim, são todos mesmo tarados de doente. Então eles pagam para subirem comigo e ficam a falar o tempo todo. Todos diz não são racista não são racista. Todos diz que gosta de Angola e que se calhar tem filhas na minha idade. Alguns querem saber o nome da minha mãe e então tenho de inventar para eles.
Mas que tipo de homem é que vai nas puta para ficar a falar nas filha ??? como é que pode?? Tem um amigo cliente já kota que vem me ver todos os mes e que paga sempre com gorjeta grande e que primeiro me bate e depois fica a chorar e a pedir desculpa... Tchiiii...Eu até fica com pena.
Depois todos os que são kota vem contar historia de tropa. Sobem comigo para a pensão e quase que fodem a correr só para ficar a falar da tropa que fizeram em Angola. Das comissão, dos camarada, dos barco. Da guerra mesmo não falam e todos diz que não são racista e todos diz que não disparou tiros nem matou ninguém.
Mas sei mesmo que é mentira pá!!! Eu quando era canuca em Malange aprendi na escola dos pioneiros tudo sobre a guerra de libertação. Agora vêm os portugueses e dizem que não mataram.
A Simara parou de falar e chegou-se à porta para olhar o céu a ver se chove. Depois proseguiu:
-- Já tinham-me avisado que os portugueses gostavam das angolanas, mas não tinham-me dito que gostavam da gente para ficar a dar conversa fiada!!! Por isso eu digo, aqui em Lisboa eu não sou puta. Sou prisiricolga.
-- psicóloga !!! voltou a corrigir a droga dita que era claramente uma clone da Edite estrela edição ligth.
-- Pois sou prisiricolga como tu diz.
A manha foi interrompida com a entrada de um homem na casa dos sessenta. Português típico, mais para o baixo, bigode na cara e SG gigante nervoso a tremer-lhe nas unhas.
Pediu um cerveja ao velhote da leitaria e de um golo deixou a garrafa a meio. Tirou as medidas à Simara que lhe sorriu. O homem segredou qualquer coisa ao ouvido da rapariga e saíram os dois porta fora.
Não posso garantir mas acho que debaixo da gabardina e à transparência da camisa grossa de flanela se conseguia ler no que restava do bicípite direito as palavras tatuadas, “amor de mãe Angola 1966”. Paguei a meia de leite e sai para a rua pensando com os meus botões: ali vai outro que fez a guerra sem matar ninguém.

