democracia
Quando se fala em democracia sou sempre o primeiro a apontar o dedo ao sistema. Normalmente dou o exemplo da bimba analfabeta que vota onde o padre na missa manda botar a cruz.
Costumo dizer que não é justo nem legitimo que o voto de um eleitor esclarecido e politizado valha o mesmo que o voto de um eleitor iludido e manipulado. Pelo gosto do politicamente incorrecto, muitas vezes as pessoas mais chegadas me ouviram dizer que não me revia nos valores das democracias parlamentares dos países europeus e que as eleições não queriam dizer nada.
Nasci antes do 25 de Abril mas as minhas memórias são todas vividas em democracia. Claro que crescer no Barreiro dos anos setenta marcou profundamente a minha personalidade. Sou comunista desde a adolescência, militante desde os dezasseis anos. Politicamente activo desde muito novo, o meu voto sempre foi um voto militante. Votar para mim, mais do que o exercer de um direito, mais do que cumprir um dever de cidadania, era cumprir uma tarefa partidária.
Até às últimas eleições presidenciais, votei sempre com total convicção nas coligações ou nas personalidades propostas pelo meu partido. Votei como quem cumpre qualquer outra orientação do partido, não votei por convicção nos ideais democráticos.
Para mim, ir votar no dia das eleições era só mais um contributo para o partido. Votar estava ao mesmo nível do que distribuir propaganda na escola secundária, redigir um texto de protesto contra os aumentos salariais ou descascar batatas na festa do avante. Votar foi sempre para mim um acto de militância, nunca de cidadania. Votar foi sempre um acto de disciplina partidária, nunca um acto simbólico.
È verdade que ao longo destes anos de militância tive fases mais ou menos activas politicamente, mas nunca deixei de me sentir profunda e convictamente comunista. Nunca deixei de cumprir aquilo que para mim era a tarefa de militância que consistia em ir votar.
Até estas presidências foi assim
Agora vai ser diferente
Nas eleições de domingo, o partido atribui-me uma tarefa extra. Alem de ir votar, fui convocado para ser delegado da candidatura do meu camarada Jerónimo de Sousa à Presidência da Republica.
No sábado tive no centro de trabalho a aprender sobre o funcionamento executivo das mesas eleitorais. Composição, deveres e funções dos intervenientes. Aprendi e estudei sobre os Deveres dos Delegados. Li o livrinho e a documentação que me deram e preparei-me para estar presente na mesa de votos.
Fui convicto para representar o melhor possível o Partido Comunista Português. Para mim esta é uma responsabilidade de peso!!! A minha função era estar presente durante o acto eleitoral e durante a contagem dos votos.
Na mesa para a qual fui convocado o PCP já tínha um elemento nomeado. O objectivo estratégico de termos um outro elemento nomeado como delegado passa pela necessidade de estarmos presentes dois comunistas para que fosse possível aos militantes mobilizadas para o escrutínio poderem sair para almoçar ou tomar um café garantindo que nas mesas de voto estaria sempre presente um militante comunista.
Estava nevoeiro na madrugada de domingo. Saí da cama e fui para a rua à procura da mesa de voto onde devia apresentar-me.
A assembleia foi presidida por um homem nos seus cinquentas e tais que representava a candidatura do Manuel Alegre. Estava presente um secretário da Candidatura do Mário Soares também nos cinquenta. Da minha idade era o secretário representante da candidatura do Cavaco Silva. O outro comunista era um sexagenário alentejano com uma militância forjada nas lutas sindicais que exercia as funções de vice-presidente. O ambiente era de uma formalidade calorosa e de um civismo educado e polido. Todos nos conhecíamos de vista.
Quando cheguei cumprimentei os presentes. Reconheci o meu camarada e preparei-me para apanhar uma grande seca. O senhor presidente deu-me uma lista com mil números que eu devia ir riscando à medida que as pessoas fossem votando.
Não apanhei seca.
Mudei a minha opinião sobre as eleições e sobre a democracia.
Durante as quase 12 horas que estive naquela sala vi passar cerca de 700 eleitores.
Setecentas pessoas que me mostraram que a democracia é uma coisa muito especial e muito bonita. Homens e mulheres de todas as idades e de todas as condições sociais apareceram convocados à chamada do seu país. Ontem talvez tenha aprendido o significado da palavra pátria que nunca soube bem o que queira dizer.
À frente da secretária onde estive sentado a riscar números no papel passou a minha gente. Homens e mulheres de todo as cores vieram aquele sala onde as crianças aprendem a ler. Os homens e as mulheres escolheram de livre vontade quem vai ser o chefe máximo do país nos próximos cinco anos.
Depois da missa das 8 começaram a chegar as primeiras beatas. Catequistas e meninos do coro. Algumas pessoas vestiram-se a rigor para vir votar. Muitos casais de idosos e de meia-idade vinham votar juntos porque fizeram o recenseamento eleitoral ao mesmo tempo. Os mais novos vinham sozinhos e informais. Alguns velhos engravatados faziam questão de apertar a mão a todos os elementos da mesa. Mulheres viúvas. Velhos de muletas. Apareceram os desportistas de domingo com o seu de fato de treino. Míopes que levavam o boletim de voto para debaixo da luz. Empregados de mesa nos cafés que aproveitavam a hora de almoço para virem votar. Pais de família traziam os filhos mais pequenos ao colo. Depois de almoço alguns alcoolizados. Solitários. Alguns vinham votar vestidos de vermelho gritante, de laranja provocante ou de rosa panasca. Mulheres espampanantes e produzidas também apareceram. Os tímidos que quase pediam desculpa para votar. Vieram os desorganizados que se esqueciam do cartão de eleitor ou do bilhete de identidade. Apareceram os convictos que desejavam boa sorte. Vieram os indecisos que se enganavam e pediam novo boletim. Votaram homens calados. Mulheres do povo. Todos vieram. Todos tiveram direito a um boletim de voto cuidadosamente contabilizado. Todos formam para atrás do biombo por a cruz. Todos deram o seu voto dobrado em quatro ao presidente da mesa. A urna caixão de ferro na vertical foi sendo cheia com os votos de todos.
Todos em liberdade.
Ao longo do dia foi a peregrinação colectiva dos que levavam os votos. O clímax foi depois.
Dezanove horas. Portas fechadas.
Os homens presentes – neste caso foram só homens, juntaram as mesas e o presidente abriu a urna. Caem os setecentos papéis num montinho. O presidente da mesa chama-me para ajudar a contar.
À volta da mesa fazemos um círculo ritual. Começamos a desdobrar os boletins de votos e magia acontece. O milagre da democracia são os montinhos dos diferentes votos a crescerem e a diferenciarem-se uns dos outros no tamanho.
Alguns candidatos são mais votados. Outros têm menos votos. Estão ali os papelinhos com as cruzes para nos mostrar. Não há que enganar.
Continuo a ser convictamente comunista. Continuo a achar que as eleições por si não chegam para fazer a democracia. Continuo a achar que a eleição do Cavaco Silva para presidenta da república é de lamentar.
Apesar de tudo isto, para mim estas presidenciais de Janeiro foram uma grande aprendizagem.
Aprendi a comparar as eleições assim como uma espécie de um parto. Ao longo das horas que durou o escrutínio a urna foi-se enchendo como o ventre de uma mulher que quando chegou o momento pariu. Os votos não são números nem percentagens são decisões do povo.
Até ontem não acreditava no sistema democrático, continuo a ter sérias dúvidas sobre a sua justiça. Mas que fique claro que umas eleições democráticas e livres são um acto que pode orgulhar todos aqueles que participam nelas, disso não tenho duvidas nenhumas!!!
Viva a liberdade e viva a democracia.
(mesmo que seja pare eleger o cavaco)
Costumo dizer que não é justo nem legitimo que o voto de um eleitor esclarecido e politizado valha o mesmo que o voto de um eleitor iludido e manipulado. Pelo gosto do politicamente incorrecto, muitas vezes as pessoas mais chegadas me ouviram dizer que não me revia nos valores das democracias parlamentares dos países europeus e que as eleições não queriam dizer nada.
Nasci antes do 25 de Abril mas as minhas memórias são todas vividas em democracia. Claro que crescer no Barreiro dos anos setenta marcou profundamente a minha personalidade. Sou comunista desde a adolescência, militante desde os dezasseis anos. Politicamente activo desde muito novo, o meu voto sempre foi um voto militante. Votar para mim, mais do que o exercer de um direito, mais do que cumprir um dever de cidadania, era cumprir uma tarefa partidária.
Até às últimas eleições presidenciais, votei sempre com total convicção nas coligações ou nas personalidades propostas pelo meu partido. Votei como quem cumpre qualquer outra orientação do partido, não votei por convicção nos ideais democráticos.
Para mim, ir votar no dia das eleições era só mais um contributo para o partido. Votar estava ao mesmo nível do que distribuir propaganda na escola secundária, redigir um texto de protesto contra os aumentos salariais ou descascar batatas na festa do avante. Votar foi sempre para mim um acto de militância, nunca de cidadania. Votar foi sempre um acto de disciplina partidária, nunca um acto simbólico.
È verdade que ao longo destes anos de militância tive fases mais ou menos activas politicamente, mas nunca deixei de me sentir profunda e convictamente comunista. Nunca deixei de cumprir aquilo que para mim era a tarefa de militância que consistia em ir votar.
Até estas presidências foi assim
Agora vai ser diferente
Nas eleições de domingo, o partido atribui-me uma tarefa extra. Alem de ir votar, fui convocado para ser delegado da candidatura do meu camarada Jerónimo de Sousa à Presidência da Republica.
No sábado tive no centro de trabalho a aprender sobre o funcionamento executivo das mesas eleitorais. Composição, deveres e funções dos intervenientes. Aprendi e estudei sobre os Deveres dos Delegados. Li o livrinho e a documentação que me deram e preparei-me para estar presente na mesa de votos.
Fui convicto para representar o melhor possível o Partido Comunista Português. Para mim esta é uma responsabilidade de peso!!! A minha função era estar presente durante o acto eleitoral e durante a contagem dos votos.
Na mesa para a qual fui convocado o PCP já tínha um elemento nomeado. O objectivo estratégico de termos um outro elemento nomeado como delegado passa pela necessidade de estarmos presentes dois comunistas para que fosse possível aos militantes mobilizadas para o escrutínio poderem sair para almoçar ou tomar um café garantindo que nas mesas de voto estaria sempre presente um militante comunista.
Estava nevoeiro na madrugada de domingo. Saí da cama e fui para a rua à procura da mesa de voto onde devia apresentar-me.
A assembleia foi presidida por um homem nos seus cinquentas e tais que representava a candidatura do Manuel Alegre. Estava presente um secretário da Candidatura do Mário Soares também nos cinquenta. Da minha idade era o secretário representante da candidatura do Cavaco Silva. O outro comunista era um sexagenário alentejano com uma militância forjada nas lutas sindicais que exercia as funções de vice-presidente. O ambiente era de uma formalidade calorosa e de um civismo educado e polido. Todos nos conhecíamos de vista.
Quando cheguei cumprimentei os presentes. Reconheci o meu camarada e preparei-me para apanhar uma grande seca. O senhor presidente deu-me uma lista com mil números que eu devia ir riscando à medida que as pessoas fossem votando.
Não apanhei seca.
Mudei a minha opinião sobre as eleições e sobre a democracia.
Durante as quase 12 horas que estive naquela sala vi passar cerca de 700 eleitores.
Setecentas pessoas que me mostraram que a democracia é uma coisa muito especial e muito bonita. Homens e mulheres de todas as idades e de todas as condições sociais apareceram convocados à chamada do seu país. Ontem talvez tenha aprendido o significado da palavra pátria que nunca soube bem o que queira dizer.
À frente da secretária onde estive sentado a riscar números no papel passou a minha gente. Homens e mulheres de todo as cores vieram aquele sala onde as crianças aprendem a ler. Os homens e as mulheres escolheram de livre vontade quem vai ser o chefe máximo do país nos próximos cinco anos.
Depois da missa das 8 começaram a chegar as primeiras beatas. Catequistas e meninos do coro. Algumas pessoas vestiram-se a rigor para vir votar. Muitos casais de idosos e de meia-idade vinham votar juntos porque fizeram o recenseamento eleitoral ao mesmo tempo. Os mais novos vinham sozinhos e informais. Alguns velhos engravatados faziam questão de apertar a mão a todos os elementos da mesa. Mulheres viúvas. Velhos de muletas. Apareceram os desportistas de domingo com o seu de fato de treino. Míopes que levavam o boletim de voto para debaixo da luz. Empregados de mesa nos cafés que aproveitavam a hora de almoço para virem votar. Pais de família traziam os filhos mais pequenos ao colo. Depois de almoço alguns alcoolizados. Solitários. Alguns vinham votar vestidos de vermelho gritante, de laranja provocante ou de rosa panasca. Mulheres espampanantes e produzidas também apareceram. Os tímidos que quase pediam desculpa para votar. Vieram os desorganizados que se esqueciam do cartão de eleitor ou do bilhete de identidade. Apareceram os convictos que desejavam boa sorte. Vieram os indecisos que se enganavam e pediam novo boletim. Votaram homens calados. Mulheres do povo. Todos vieram. Todos tiveram direito a um boletim de voto cuidadosamente contabilizado. Todos formam para atrás do biombo por a cruz. Todos deram o seu voto dobrado em quatro ao presidente da mesa. A urna caixão de ferro na vertical foi sendo cheia com os votos de todos.
Todos em liberdade.
Ao longo do dia foi a peregrinação colectiva dos que levavam os votos. O clímax foi depois.
Dezanove horas. Portas fechadas.
Os homens presentes – neste caso foram só homens, juntaram as mesas e o presidente abriu a urna. Caem os setecentos papéis num montinho. O presidente da mesa chama-me para ajudar a contar.
À volta da mesa fazemos um círculo ritual. Começamos a desdobrar os boletins de votos e magia acontece. O milagre da democracia são os montinhos dos diferentes votos a crescerem e a diferenciarem-se uns dos outros no tamanho.
Alguns candidatos são mais votados. Outros têm menos votos. Estão ali os papelinhos com as cruzes para nos mostrar. Não há que enganar.
Continuo a ser convictamente comunista. Continuo a achar que as eleições por si não chegam para fazer a democracia. Continuo a achar que a eleição do Cavaco Silva para presidenta da república é de lamentar.
Apesar de tudo isto, para mim estas presidenciais de Janeiro foram uma grande aprendizagem.
Aprendi a comparar as eleições assim como uma espécie de um parto. Ao longo das horas que durou o escrutínio a urna foi-se enchendo como o ventre de uma mulher que quando chegou o momento pariu. Os votos não são números nem percentagens são decisões do povo.
Até ontem não acreditava no sistema democrático, continuo a ter sérias dúvidas sobre a sua justiça. Mas que fique claro que umas eleições democráticas e livres são um acto que pode orgulhar todos aqueles que participam nelas, disso não tenho duvidas nenhumas!!!
Viva a liberdade e viva a democracia.
(mesmo que seja pare eleger o cavaco)

