sábado, abril 16, 2005

Homus Arrábidus

A caverna é enorme. O mar da Arrábida bate uns três metros abaixo de uma varanda natural que permite a entrada de luz e de ar fresco. Nós viemos pela serra e descemos a escada íngreme pela mata até à caverna. Lá dentro há uma capela construída no século XVII e tem espaço suficiente para fazer um capo de basquetebol... Nos éramos uns 10 e chegamos ao final da tarde. Trouxemos guitarras, tambores, carne e vinho. Para nos dar luz acendemos uma fogueira onde assámos a carne. Cantamos com o vinho e tocamos guitarras pela noite dentro aproveitando a ressonância natural das pedras. Já noite cerrada, acenderam-se cigarros de erva e a festa continuou selvagem e louca. Pela madrugada alguns já dormiam... outros espremiam as garrafas para ver se ainda pingava alguma coisa. Meio ébrio, saí para ver nascer o sol sobre a serra. Saltei pela varanda de rocha e subi a um penhasco mesmo em frente. Pequena ilha na maré cheia embalado pelas ondas suaves do Portinho.
O sol ainda não tinha nascido. A cor do céu entre o azul e o vermelho anunciava para os lados de Setúbal um dia de Agosto daqueles que fazem fritar os alcatrão das estradas e dá febre aos cães.
Apanhei o cabelo que na altura ainda tinha e usava comprido e despi-me. Fiquei nu virado para sol a ganhar coragem para o mergulho higiénico. Não há como um banho de mar gelado para fazer passar a bebedeira e evitar a ressaca. Pensei assim que o sol me der nos olhos salto para a agua. Entretanto o intestino começou a dar sinais de vida e decidi ali mesmo fazer a descarga matinal. Saquei das minhas calças de ganga o pacote dos lencinhos de papel, de cócoras me aliviei virado para a metade do disco solar que ia aparecendo por de traz da serra. O tinto de má qualidade sempre teve em mim um efeito laxante... essa manhã não foi excepção. Deixei um monte em forma de piramide mole que ficou a escorrer sobre a pedra. Acabei com os lenços para me limpar e saltei.
A diferença de temperatura dissipou os vapores etílicos e erbacios. Decidi dar umas braçadas para aquecer. Não me afastei muito, só o suficente para deixar de ver as rochas do chão de pedra. Quando me virei percebi a presença na varanda da caverna de pessoas estranhas ao grupo. O meu amigo Vladimir argumentava com os desconhecidos que depois vim a saber serem biólogos. Eram um professor francês, duas assistentes tambem francesas mais um professor da faculdade de biologia do Porto. Vieram para a Arrabida à seis da manhã para observarem a fauna.
Ouvia as vozes mas não percebia o que diziam
Da varanda da Caverna o Vladimir fazia comentários e esbracejava na minha direcção.
Ainda esperei uns momentos para ter privacidade para me vestir... mas a agua gelada começava a doer-me nos ossos. O frio aumentou a descaração e decidi por ir-me secar assim mesmo. Quando subi ao penhasco em frente à caverna para recuperar a roupa, claro que estava completamente nu.
Foi ai que percebi a conversa do Vladimir para os professores de biologia e para as duas assistentes que curiosos olhavam para mim...
--- Pois como vos disse chegaram atrasados... por minutos perderam a brutal cagáda matinal do homus arrabidus que como podem ver que ainda está fresca... Mas eis que aqui o temos, fotografem-no, fotografem-no, creio que não atacara ... um dos últimos elos perdido na evolução entre o macaco e o homem... este exemplar é um jovem macho a escalar o rochedo na direcção da caverna onde pernoitou.
Claro que não me restava mais nada a fazer...
Em vez de me vestir, peguei num enorme calhau cocei as axilas, as partes e grunhi...

7 Comments:

Blogger R. said...

e aí sentiste-te verdadeiro!!!

11:52  
Anonymous Anónimo said...

E agora, todos as semanas há excursões de antropólogos ao local...

12:58  
Blogger Jingas said...

Há que exigir ao governo um subsídio para estudo e protecção dessa espécie ...

13:39  
Blogger Piriquito Almiscarado said...

Dizem algumas vozes que essa caverna era usada para colocar lá prisioneiros e torturá-los com as marés. Também dizem que foi daí q desapareceu aquele gajo que foi passear na Arrábida. Julgo que tb foram feitas alguma apreenções (n sei se está bem escrivinhado) de contrabando de tabaco. Talvez os padres ou monges fossem pra gruta praticar karaté alentejano! Bonita história...aposto que metade da cagada foi tipo pintura à pistola!

12:45  
Blogger Unknown said...

Acho mal vires para aqui para o blog contares histórias em que duas gajas te viram nu!!!

23:22  
Anonymous Anónimo said...

Ah ahahahaha

Eu lembro-me. Acho a essa hora da manhã devia estar a dormir no saco cama, cheia de saliva a cheirar a vinho e enroscada na minha amiga Pepita. Mas contaram-me quando acordei. Um destes dias, tens de contar aquela história quando a bebedeira nos levou quase às portas do convento até que uns cães enraivecidos nos decidiram perseguir. Toda a gente desatou a correr qual Rosas Motas e Fernandos Mamedes e apenas o corajoso Vladimir ficou a enfrentar a matilha. Quando se virou e disse: "Somos mais do que eles", já estava sozinho e só se via a poeira na estrada. Ah ah ah. Nós sabiamos divertir-nos!
Beijos, Cláudia Amiga dos Cães.

17:33  
Anonymous Anónimo said...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

00:35  

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