quinta-feira, abril 21, 2005

Os Piratas de Alcácer do Sal

Farto da pasmaceira campestre da ilha do pessegueiro, decidi curtir o verão urbano de Vila Nova de Mil Fontes. Era sexta-feira e tinha algum dinheiro no bolso mas decidi por poupar nos transportes. Mochila às costas, pé na estrada e dedo polegar no ar. À lá maior sensação de liberdade do que esta???
Na Pouca Farinha apanhei boleia na parte de trás de uma camioneta que me deixou mesmo na margem do rio Mira, junto à ponte nova. Eram três da tarde e estava aquele calor de Agosto que no Alentejo pode matar. Tinha combinado encontrar-me com uns amigos que viriam nessa noite do Barreiro. Ainda faltavam umas horas... estava demasiado calor para a praia mas estava a temperatura certa para beber uma caneca de cerveja.
Em Vila Nova no inicio doa anos 90 a tasca inevitável era a Manjedoura. Entrei sozinho com a minha mochila e sentei-me numa das mesas corridas. Depois de habituar os olhos à fresca penumbra interior percebi que no cantinho da mesa onde estava sentado estava uma rapariguinha loura a chorar.
Eu nunca fui de me meter assim com desconhecidas.... mas a moça estava a chorar e cheguei-me mais para ela e perguntei-lhe porque chorava. Não tive tempo de saber a resposta. Vindo não sei de onde surgiu um atrasado mental grandalhão. Blusão de ganga sem mangas e botas da tropa. No braço duas tibias cruzadas desdenhavam da arte da tatuagem. Tás a falar com esta chavala?? Vai mazé falar com a puta que te pariu.
Eu não conhecia o anormal... Duvido que a minha mãe o conhecesse... Como não gosto que falem assim de uma senhora tão gentil, séria e educada como a minha mãezinha, decidi nem lhe dar resposta. Nessa altura a caneca de cerveja que tinha na mão, já praticamente vazia partiu-se. Infelizmente cortei-me ligeiramente junto ao punho. O energúmeno mal educado também se deve ter magoado porque se atirou para o chão com os olhos revirados, agarrado à cabeça que despejava sangue misturado com cerveja. Sangrava para o chão ensopando a serradura sem mexer -- assim é que estás bem, pensei. A rapariguita que antes chorava abraçou-se ao parvalhão e começou gritar histérica. Assassino assassino, mataste-o mataste-o. E dava guinchos. Como eu já estava farto de ser maltratado decidi mudar de poiso. Aproveitei a confusão gerada pela loura para me pirar sem pagar nem a caneca que parti nem a cerveja. Vim para a rua, trazendo a mão embrulhada na toalha turca que costumava estar à porta da casa de banho.
As pessoas começavam a descer para a praia e eu caminhei contra a corrente na direcção do parque de campismo. Dois dias antes, em Porto Covo, um tipo que tinha vindo de Vila Nova, tinham-me oferecido um cartão do parque de campismo. O gajo trouxe acidentalmente do bolso o cartão do parque quando se esqueceu de pagar. Como o cartão ainda estava bom decidi-me por utiliza-lo e passei achamar-me Rui Nunes.
Nos balneários do parque de campismo limpei e fiz o penso à mão. Afinal o golpe não era tão profundo como isso. Já nem sangrava. Como tinha tempo fiz a barba, tomei banho e mudei de roupa. As calça de ganga e a túnica com franjas à índio estava tudo cagado de sangue. Tirei as botas alentejanas. Vesti uns calções de banho, uma t-shit e calcei as chinelas. Passou uma hora desde que a caneca se partiu. Eu parecia outro.
A adrenalina tinha dasaparecido e eu sentia fome. Decidi sentar-me no bar do parque de campismo e comer qualquer coisa. A GNR apareceu e ficou estacionada do lado de lá da recepção do parque. Falavam com o porteiro. Não percebi o que diziam mas a noticia correu depressa. Parece que tinham espancado alguém num bar da Vila. Um gajo já não está seguro em lado nenhum...Diziam que o ferido tinha ido em coma para o hospital. Eles andavam a ver se alguém se tinha registado no parque de campismo naquela tarde. Ainda bem que o meu cartão provava que eu me tinha registado uma semana antes....
Mais por preguiça do que por medo fui ficando no bar do parque. As noticias iam chegando contraditórias e em crescendo. Tinha havido um tiroteio. Estava um tipo morto dentro da Manjedoura. Ao final da tarde já eram dois mortos e era um gang de negros que andava a bater nas pessoas.
Os meus amigos chegaram antes de anoitecer e contaram que a Vila esta a ferro e fogo. Pelas ruas apertadas andavam os veraneantes do costume mais um grupo de uns 20 motoqueiros. Caçavam um cigano que bateu num amigo. Andavam em zundapes e fameles alteradas numa premonição do tuning: até costas de cadeiras de café tinham integradas nas motas. Exibiam correntes e bastões na rua e a GNR não lhes dizia nada. Todos usavam blusões de ganga sem mangas com um dorsal que dizia “Os Piratas de Alcácer do Sal”. Parece que o motoqueiro espancado tinha ida parar ao Hospital de Setúbal com um traumatismo craniano. Fizeram da tasca onde ocorreu a cena o seu quartel general e estava a embebedar-se com litros de sagres.
Depois contar aos meu amigos o que tinha acontecido, decidimos tomar providencias. Como éramos só quatro tínhamos de ser mais espertos que os Piratas de Alcácer do Sal. Depois de comermos, o Tiercy e o Bebé foram até à Manjedoura perceber como estavam as hostes inimigas. Eu e o Cavernas ficamos pelo parque a beber cerveja. Bebemos e fumamos cigarros nervosos. O Tercy e o Bebé nunca mais apareciam. Nós começamos a ficar preocupados. Por volta da uma da manhã ouvimos o ronco característico de uma famel a aproximar-se em aceleração continua. Ficamos atentos e vemos o Tiercy e o Bebé sem capacete pararem uma mota à porta do parque de campismo. Largaram a mota comprometidos e avançaram com ar de caso. O que é que aconteceu perguntamos nós?
Temos noticias. Uma boa e outra má. A boa é que o parvalhão que deu a cabeçada na tua caneca está livre de perigo. A má é que eles já sabem que estas aqui no parque de campismo.
Mas como? Ai o Bebé nos seus cinquenta quilos mal pesados começa a esbracejar para contar a historia. Decidiram sabotar os Piratas de Alcácer do Sal, e o Tiercy ficou cá fora , à porta do bar a sabotar as maquinas todas dos piratas. Arrancou o cachimbo de todas as famel menos daquela onde viemos. Eu fui lá para dentro para os distrair. Como estavam todos bêbedos e não me ligavam... olha tive de arranjar maneira de lhes chamar a atenção.
Pois, interrompe o Tercy, a melhor maneira que o Bebé arranjou de lhes chamar a atenção foi-se dizer-lhe que estavas aqui no parque de campismo e que os mandavas a todos para o hospital!!! Mas fez melhor: para provar que não tínhamos medo roubou um capacete e pôs-se a mijar lá para dentro!!!
Viemos para o Barreiro nessa mesma madrugada escondidos na camioneta do padeiro. Por sorte o gajo que fazia a distribuição do pão era um tipo que vivia no Barreiro....já em casa ainda passei algumas noites sem dormir a adivinhar o rugir de uma famel a acelar ao longe. Dos Piratas de Alcácer do Sal guardo a recordação dessas noites de insónia e uma pequena cicatriz na mão direita causada pelos vidros de uma certa caneca de cerveja que bebi mas nunca paguei.

4 Comments:

Anonymous Anónimo said...

como é que é possível??? grandes cromos... que quadrilha: o h maluco, o thierry, o cavernas e o bébé. quem me diria a mim que 15 anos depois estaria a viver com um destes tarados e que será daqui a uns meses pai do meu filho... eu que não tenho grandes nódoas a assinalar no meu percurso...

18:42  
Anonymous Anónimo said...

no melhor pano cai a nódoa!

19:37  
Anonymous Anónimo said...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

00:22  
Blogger BILBAO said...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

00:26  

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