segunda-feira, agosto 08, 2005

As férias e a Datcha


Aqui há umas duas semanas tive uma reunião de trabalho num daqueles edifícios antigos e remodelados da Graça. Fantástica vista sobre o rio e margem sul. Mesmo por cima da estação de Stª. Apolónia.
Porque cada vez me chateia mais trazer o carro para Lisboa, atravessei o rio cedinho e decidi-me por andar até à estação de comboios ponto de encontro marcado. O sol de finais de Julho por volta das oito da manhã ainda não queima e Lisboa a despertar convida ao passeio.
Saindo do barco, cruzei o Jardim do Campo das cebolas na direcção à casa dos bicos. Entre duas palmeiras crescidas e protegida pelos contentores do lixo ficou organizada a instalação – arte pós moderna: Um carro de supermercado cheio de garrafas vazias. A estrutura que resta do que foi um aparador de sala. Uma mesa de esplanada da em plástico branco com uma perna partida. Caixotes de papelão dobrados a fazer de enxerga e um saco cama imundo em cima. Sentado sobre uma lata de tinta vazia estava um eslavo enorme e alcoolizado.
Descontente com a organização do mobiliário urbano, empertigava-se um policia. Indiferente e à espera de uma oportunidade para trabalhar, uma equipe de limpeza de jardins da câmara de Lisboa. Pressionado pelos taxistas e na insegurança dos seus vinte anos e estatura media mediterrânea o policiazinho tentava impor respeito ao gigante russo:
-- Bamos lá a dejocupar a bia que as funchionarias camarárias querem bajer o trabalhinho delas!!!
( as três senhoras fardadas de verde da CML falavam entre si em crioulo e assistiam à cena como se fosse uma telenovela)
O russo fingia que não ouvia o bófia e ia-se rindo... Por insistencia dos taxistas, lá abandonou o seu posto permitindo às empregadas da limpeza armadas de ancinhos arrancarem a merda de pombo à relva do jardim!!!
O policia impressionado com a insolência do russo que se foi sentar num dos bancos do jardim a despejar um pacote de vinho pôs-se na conversa com os taxistas. Um fogareiro dos mais velhos, desabituado de ter a autoridade tão próxima sem ser para passar multas, ia comentando:
-- Olhem para isto, até tem limpeza ao domicilio de borla!!! Casa com jardim , vista para o Tejo, um policia a fazer segurança e três pretas para lhe limparem o jardim. Parece um ministro!!! É para isto é que eu ando a pagar impostos!!!
Solidário com a gargalhada geral dos taxistas e do bófia, o russo respondeu;
-- Eta maia datcha bled, eta maia datacha!!!
Como nem o policia nem os taxistas percebem russo continuaram com as gargalhadas de sarcasmo.
Cá o je que até é um rapaz poliglota de tasco e balcão de taberna apanhou o sentido. Falo uma palavritas do chamado russo de praia e por isso aqui deixo a minha traduçãozinha da conversa do vagabundo:
-- “ É a minha casa de campo, pá, é a minha casa de campo!!!!
Com esta ideia de casa de campo do mendigo eslavo segui para o meu trabalho deixando os taxistas mais o policia e as jardineiras a rirem ao sol...
À medida que o dia foi aquecendo a gravata foi progressivamente sufocando. À minha memória voltou váiras vezes o russo bebado e sorridente. Com a subida da temperatura desenvolvi uma inveja furiosa do russo: Um gajo levanta-se cedo para ir bulir, e passa o dia inteiro a bombar e o cabrão do russo acorda e embebeda-se!!! Privilegiado!!!
Com esta ideia politicamente incorrecta e com ganas de auto agressões hepáticas trabalhei a ultima semana de Julho.
Na primeira semana de Agosto fui de ferias para o sul como era costume fazer toda a gente. Tive na praia com a minha mulher. Passei os dias ao sol e a nadar no imenso atlântico e as noites com petiscos e copos entre velhos amigos.
Confesso durante as ferias não voltei a lembrar-me do russo.
Mas agora que voltei para o trabalho há uma vozinha dentro de mim que me manda correr para a datcha do campo das cebolas. Sinto uma vontade persistente de ficar a embebedar-me com vinho ordinário. Despir a camisa e ir respondendo em russo aos sarcasmos dos bófia e dos fogareiros enquanto fico deitado num banco de jardim a desfrutar do sol de Lisboa.

7 Comments:

Blogger blimunda said...

Será que os amigos russos da datcha também têm o patrocínio da Stago?
;)

11:49  
Blogger balzakiana said...

Vejo que as férias foram mesmo boas.Recomeçou bem o trabalho de bloguista com dois textos fantásticos.Quisesse Deus que todos tivessemos tempo para analisar cada um e sobretudo tirar lições. Hiroshima e Nagasaki, tanta gente que pensa que são festivais à la mode...Daqui uma achega à minha sobrinha, a que "detesta" História e não sabe para que serve. Ritinha, lê este texto. Este do Russo está impregnado de meiguice! Obrigado Ricky.

14:33  
Anonymous Anónimo said...

Quem, a caminho do trabalho, nunca passou ao pé dum vagabundo e pensou "Rica vida a deste, sem nada para se preocupar a não ser a dose de pinga.", que atire a primeira pedra. Mas que se lembre do provérbio angolano: "Quem atira a pedra, esquece-se, mas quem é acertado, lembra-se para sempre.".

16:43  
Anonymous Anónimo said...

E viva o Mundo como lhe chama os locais e residentes alucinados! Aquele bocado de areia e' realmente algo unico....

A voltar certamente! Foi com tristeza e certamente com um olhar nostalgico que hoje pela manha me meti na traineira que me trouxe de volta.....

Grande jantarada la'com o RM e companheira :).... o pior foi que tb iamos sendo jantados mas nada de insuportavel:)

Sf

19:06  
Blogger Riky Martin said...

Tens razão amigo Krinas!!! as putas das melgas iam fazedo de nós piteu na Ilha de Tavira.

22:02  
Blogger Riky Martin said...

Cara Balzkiana, não precisa de agradecer as postas que largo de boa vontade... saber-me lido ja me dilata o ego.
Fico feliz por dar umas dicas à Ritinha.
(Sobre o Omar Bongo ja vou sabendo mais algumas coisitas depois do post do Gabão da Capira ter aguçado a minha curiosidade... fico grato!!!)

22:07  
Blogger Riky Martin said...

Asterisco, belo ditado esse!!! não conhecia e apontei logo no meu caderninho de coisas importantes.

22:09  

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