terça-feira, agosto 09, 2005

A propósito dos fogos

De volta ao meu bairro de subúrbio nos anos 80. No inicio da adolescência, na minha rua fazia-se uma espécie de triagem dos putos da minha geração. Uns ficavam fechados em casa e decidiam ser para o resto das suas vidas meninos da mama. Outros faziam vida na rua e decidiram na inconsistência dos seus 12 anos tornarem-se bandidos. Uma terceira via foi a dos bombeiros.
Alguns entre nós apreciando as emoções fortes e não tendo feito para roubar ou andar de comboio à boleia pendurados nas carruagens, decidiram alistar-se nos bombeiros. Assim de memoria nuns 20 putos que deviam haver lá na minha rua consigo apontar pelo menos meia dúzia que foram para os bombeiros: os 2 Gemeos, o Inaciossauro, o Periquito, o Terror do Broche e claro o inevitável Incececendiário.
Lembro-me de vê-los contentes nas suas fardas azuis de trabalho com botas da tropa calçadas e a contar historias de bombeiros. Acidentes, muito sangue, mortos, incêndios, exercícios e salvamentos. Originalmente foram todos para os Bombeiros Voluntários do Barreiro, depois houve alguns que se profissionalizaram.
Para mim falar em bombeiros e na adolescência é preciso falar no Incececendiário. O Incececendiário é um gajo lá da minha rua precisamente da minha idade – do meu ano e do meu mes duas semanas mais novo. Foi dos primeiros a alistar-se nos bombeiros. Incececendiário sempre foi um gajo grandalhão e gago. Com treze anos já tinha quase dois metros e as maiores fardas que haviam nos bombeiros ficavam-lhe apertadas. Nessa altura ainda lhe chamávamos o Gaivota ( pela envergadura e por andar nas alturas) porque ainda não tinha ganho a alcunha de Incececendiário. Pois o Gaivota apesar do seu tamanho nunca brilhou nem pela sua inteligência, nem pela sua coragem, nem pela sua liderança. Na verdade não era mau tipo, mas era dquelas putos que só faziam depois dos outros fazerem.
Quando depois dos primeiros meses nos bombeiros voluntários os tipos que tinham sido incorporados ao mesmo tempo que ele começaram a ter tarefas de alguma responsabilidade, o Gaivota começou a revoltar-se.... Os Gémeos já andavam a ajudar nas ambulâncias e o Gaivota só servia para carregar as mangueiras. O Terror do Broche ficava a atender os telefonemas e o Gaivota continuava a carregar mangueiras...
Descontente com a situação que considerava uma injustiça o Gaivota decidiu modificar a situação. A seu pedido, a mãe fez-lhe uma farda de gala por medida e o rapaz executou o plano.
Numa tarde de verão, debaixo do tapete da vizinha da frente meteu uns trapos embebidos em gasolina e molhou a porta com combustível. Vestiu a farda nova com machado à cintura e tudo, preparou um balde de agua, acendeu um fosforoso, e fechou a porta de casa à espera da sua oportunidade para brilhar. Dois minutos depois a velha começa a gritar:
-- há fogo!!! Acudam que é fogo!!!
O Gaivota (que mudou de alcunha nessa tarde) não deu tempo a mais alarmes, abriu a porta de casa e descansou a senhora:
-- Nananananão se preocuupe vizinha que eu sosososou bombeiro!!!!
Claro que a alcunha Incececendiário pegou. A coisa ficou feia com policia metida ao barulho e tudo. Mas tudo acabou por se resolver em bem:
O pai do Incececendiário deu uma carga de porrada ao filho e pagou uma porta nova à vizinha na condição da velha não apresentar queixa. O filho da vizinha deu porrada ao Incececendiário e ao pai do Incececendiário. A vizinha vitimada envenenou o caniche da mae do Incececendiário que para se vingar passou a borrifar com lexivia a roupa que a velha estendia. A policia retirou-se de cena e o Incececendiário foi corrido dos bombeiros voluntários. Mas o gosto pela vida de soldado da paz estava ja embrenhado no valoroso jovem... Passado uns dois meses já estava na corporação dos bombeiros profissionais do Barreiro. Com esta mudança o Incececendiário foi o primeiro gajo a trabalhar e receber salário lá na minha rua... Aos catorze anos comprou uma mota a prestações que entre as suas pernas compridas parecia um triciclo. Nos anais da rua ficarão para sempre as acrobacias do Incececendiário na sua Casal Boss.
Como não podia deixar de ser o Incececendiário fez a tropa nos comandos. Infelizmente acabou por ser expulso porque o apanharam a roubar garrafas de whisky no bar. Depois da tropa o Incececendiário mudou de terra e não o vi durante anos.
A ultima vez que tive com ele bebemos umas imperiais e jogamos snoker... continuava gago, grande e gordo. Na altura era guarda costas na embaixada de Marrocos. Quando despiu o casaco ficou com o coldre do sovaco à mostra a exibir a fusca a todos os que paravam no café. Depois do jogo que perdi, ficamos a beber e lembrar a malta que morreu ou que foi presa. Acabamos a noite num baldio a fazer pontaria com a pistola a latas de cerveja. Nessa madrugada o Incececendiário acabou por vomitar pela janela do carro mesmo à porta de casa – sempre teve o estômago fraco – e a gaguejar-me uma paixão eterna pela Belinha la da rua que é puta na Holanda há já quase vinte anos.
Não voltei a encontrar o Incececendiário. Esta semana um amigo comum falou-me nele e disse-me que o gajo que abriu um negocio por conta própria. Tem uma empresa que fornece material aos bombeiros, extintores, mangueiras, fardas, capacetes e merdas que tais...
Agora quando vejo noticias de fogos florestais penso que afinal nem tudo é mau: sempre há gajos que estão a facturar com a coisa. Ao menos isso!!!

11 Comments:

Blogger blimunda said...

é bom ver o espírito positivo vir ao de cima! quais mais histórias de malucos virão ao de cima daquele bairro? será que foram os gazes que andámos todos a snifar durante anos que nos fizeram assim?

11:07  
Blogger Jingas said...

xiça!!! só histórias malucas que aqui contam...

15:42  
Blogger Rita said...

Uau! Isto sim é uma adolescência digna desse nome. Ainda me estou a ri-ri-ri-rir!

00:43  
Anonymous Anónimo said...

tens de contar essa do Terror do Broche...que alcunha de COLIDADE:)

Sf

15:15  
Blogger Riky Martin said...

O Terror do Broche foi um gajo que veio morar para o Barreiro já com uns 8 ou 9 anos... Era por isso um outsider..., Quando lá apareceu lá na rua e era o Terror: batia em todos. Foi um cruel vilão até ao dia em que um certo rapazinho (a quem chamavam Cavalão) rebentou com o focinho todo ao Terror. O Cavalão que aos 8 anos ainda usava botas ortopédicas e que ganhou a alcunha devido à sua robustez, partiu os dentes da frente ao Terror que mudou de alcunha nesse dia. Nunca mais espancou ninguém la na rua.Com os dentes da frente partidos rentes à gengiva passou a ser alcunhado de "Kid Boquilhas" mas o nome que pegou mesmo foi "Terror do Broche".

15:28  
Blogger blimunda said...

tantas coisas para dizer sobre o Cavalão....

16:36  
Blogger Cleared For Take Off said...

Este está demais!! Essa do "Terror do Broche" é 5*.

17:22  
Anonymous Anónimo said...

Lindo! Eu sabia que havia de valar a pena saber o pq do Teror ROFLOLOLOLOL



Sf

01:30  
Blogger miss caipira said...

Adorava ver fotografias da altura!!!!
Só mesmo para conhecer a troupe!!!
Estou com a Rita, não paro de rir!

11:56  
Blogger innocent bystander said...

sim, terror do broche deixa muito para a imaginação... grandes vidas!

23:27  
Anonymous Anónimo said...

A proposito dos fogos....é engraçado....porque uma das personagens do seu texto que são os gemeos.....é algo k é me familiar....BVB....

19:00  

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