quinta-feira, março 24, 2005

O Vampiro num jantar de Pascoa

Na costa ocidental em Abril as noites são frias. Em Porto-Covo sopra sempre uma brisa atlântica que no verão nos refresca e no resto do ano nos gela os ossos. Por isso acendemos um enorme fogueira que iluminava o acampamento. Selvagem como devem ser os acampamentos. Seis ou sete tendas dispostas em circulo aproveitando a sombra dos pinheiros mansos, entre a campina a falésia. Lá em baixo o mar. Por cima as estrelas.
Duas guitarras, três pães de quilo, uma dúzia de chouriços alentejano, umas kongas, um saco de 3 quilos de lapas, mais uns dois quilos de mexilhões, alguma erva nacional e cinco garrafões de tinto do Primo-Xico. Éramos doze e a festa estava animada.
Sobre as guitarras e a precursão sobressaia a voz de trovão do Vampiro-da-Uva.
De nome próprio Jorge, trazia sempre à cintura uma cantil militar com um litro de bom bagaço do Minho – para as emergências, dizia. No meio do vernáculo praticado por todos em profusão e colorido, o mais ofensivo que o Vampiro conseguia dizer era “meu sacana”ou “meu pirata”. Outra característica muito próprio do rapaz, alem das lentes grossas nos óculos e de pesar mais de 100 kilos, era recitar constantemente em todo o lado e por tudo e por nada, a lírica intervencionista do Manuel Alegre.
Ao fim de três dias era conhecido em todas as tascas. Já os alentejanos velhos lhe pagavam copos de vinho e nas tabernas fazia-se silencio para o ver esbracejar e gritar palavras emocionadas sobre a nostalgia coimbrã em Argel.
O Vampiro-da-Uva bebia forte, particualrmente nesta festa de Sábado de Pascoa. Na mão esquerda mantinha o garrafão de tinto e a mão direita encostava ao peito cantando a plenos pulmões fados de estudante. Depois dos fados de Coimbra vieram os blues em jam session -- pouco propícios à poesia.
O Vampiro ficou calado e continuou a beber. Virou um garafão. Virou o cantil das emergências. Agarrou-se ao outro garrafão.
Porque os milagres da Páscoa não se dão no Alentejo, o inevitável aconteceu: Enquanto cambaleava para poder aliviar a bexiga, a agonia chegou e o Vampiro não conteve o vómito.
Mesmo à porta da tenda das meninas – a mais limpa e arrumada – despejou todo o conteúdo do volumoso estômago. Foi impressionante em volume mas não foi bonito de ver. Depois de tossir e escarrar, abriu a braguilha e mijou ali mesmo onde estava.
No esforço de se dobrar para a frente enquantovomitava, perdeu os óculos algures no pântano que criou.
Claro que as locatárias não gostaram que lhes criassem aquele húmido e aromatizado tapete à porta da tenda. Só depois de muito insistência e argumentação higienista o Vampiro lá se decidiu a remediar a situação.
Na noite escura, cambaleou entre as arvores para encher uma panela de areia do pinhal para ensopar o molho derramado à porta da tenda das mulheres. Porque estava completamente bêbado e sem os óculos não via nada, enganou-se e despejou a areia em frente à sua própria tenda que estava uns 10 metros afastada do sitio onde tinha vomitado.
Mais insistência e mais conversa.
Voltou para o pinhal para encher nova panela de areia. Trouxe a areia, pediu mais vinho e descursou sobre o movimento ecologico internacional. Acabado o discurso, preparou-se para despejar a areia na fogueira . Foi preciso lembra-lo da razão porque tinha na mão aquela panela cheia de areia.
Mais argumentação. O Vampiro, embebido em ideias ecológicas pretendia deixar a poça de vomito que para ele era um adubo natural. Só o argumento da acidez dos sucos gástricos o convenceu a terraplenar o lago. Cambaleando e gritava para nós:
-- É aqui? É aqui?
Mais uns passos e mais uns golos de vinho...
-- É aqui? É aqui?
Nesta altura já a musica tinha parado e estávamos todos a gritar para ele num jogo tipo cabra cega: mais para a direita, mais para a esquerda.
Foi aqui que se ouviu o techápe-techápe das botas da tropa no lago de vomito. E inesperado aconteceu, o Vampiro-da-Uva baixou-se, molhou o indicador na poça e provou. O silencio na noite alentejana era total. Na campina ressoou a sua voz rouca e possante:
-- Pessoal aconteceu uma tragedia, temos uma baixa a lamentar, partiu-se um garrafão de vinho -- e do bom!!!

terça-feira, março 22, 2005

A pintura do Inaciossauro

O Carnaval no Barreiro era uma coisa em grande. Quando era puto, o alto Seixalinho parava no Carnaval. Sacos de agua, ovos, farinha e depois as variantes mais rebuscadas: sacos de mijo, acido muriático, ovos podres e claro as bombas, os estalos e os estalinhos!!!
Isto vem a propósito do Inaciossauro, companheiro de infância lá na minha rua. Filho da Zefacatrolhos. Eu hoje de manha vi o Inaciossauro quando vinha para o trabalho e lembrei-me logo da historia da bombinha.
Lá na rua os miúdos faziam asneiras o ano todo...mas no Carnaval fazíamos mais concentradas. E claro que tínhamos as vitimas habituais entre as pessoas menos simpáticas lá da rua... que por serem vitimas se mostravam menos simpáticas e por serem menos simpáticas se tornavam mais vitimas, assim numa espiral de actos subversivos que iam desde o simples tocar as campainha até a acções mais graves e rebuscadas como meter ratazanas vivas nas caixas do correio.
Uma das vitimas frequentes era o Arnesto-Dono-da-Rua. Que tinha esta alcunha porque tinha a mania que mandava naquele mundo de pátios e quintais...O Arnesto-Dono-da-Rua, tinha um cão rafeiro que o acompanha e às vezes nos atiçava as canelas quando alguma bola ia para ao quintal....
A malta aproveitava alguma impunidade proporcionada pelo Carnaval para pagar se fazer pagar de algumas contas antigas....Por isso, naquele Carnaval estávamos um grupo de três metido nas escadas do Arnesto-Dono-da-Rua que morava no rés-do-chão. Iamos preparar uma bomba de Carnaval para rebentar mesmo na porta do antipático. É preciso dizer que as bombas de Carnaval eram engenhos potentes capazes de queimar com alguma seriedade uma mão ou partir os vidros de uma janela se rebentada dentro de casa... Pois estávamos a preparar a bomba , quando o Periquito se lembrou:
-- olha lá, e se agente metesse a bomba dentro de um cagalhão do cão encostássemos à porta do Arnesto-Dono-da-Rua???
O Inaciossauro, aprovou logo a ideia e foi ele próprio procurar os dejectos de cão para prepararmos a operação. Juntou um três ou quatro assim molinhos, fez uma pequena pirâmide e eu tratei de espetar-lhes o engenho bem no meio...
Com o método dos pauzinhos tiramos a sorte quem é que ficava para acender a mecha... Calhou ao Inaciossauro.
Eu e o Periquito viemos para rua encostarmo-nos ao muro ostensivamente para mostrarmos que não estávamos a fazer nada de mal... e o Inaciossauro ficou nas escadas do Arnesto-Dono-da-Rua para fazer rebentar a bomba... só que em vez de acender a mecha e fugir, como seria natural, o Inaciossauro acendeu a mexa e ficou à espera para ver o que acontecia... a ideia era fugir para o terceiro andar do prédio e esconder-se no sótão....
Mas não fugiu a tempo e a bomba rebentou a menos de um metro. Choveu merda. Havia merda espalhada uniformemente até ao primeiro andar. O Inaciossauro parecia ter sido pintado a pistola com merda.
Quem se lixou no meio desta historia toda foi a Zefacatrolhos que alem de ter de limpara a escada ao Arnesto-Dono-da-Rua, teve ainda de lavar a roupa do Inaciossauro... e a única coisa que lhe restava fazer era bater no filho e meter mãos à obra.... foi o que fez.

Adota um Bófia -- salva-lhe a vida

Estão em vias de extinção. Todos os dias morrem uns quantos. Podem ser simpáticos. Se tiveres uma casa suficientemente grande e espaçosa, podes arranjar um casal e fazer criação. Bem tratados e ensinados quem sabe podem vir a ser úteis para fazerem pequenas reparações domesticas (os machos) ou ajudar nas limpezas (as fêmeas).
NOTA – Para serviço de guarda aconselhamos os cães – são mais competentes, inteligentes e afectuosos.

De novo em Lisboa

Ta sol em Lisboa. A temperatura é agradável, as ruas são limpas com frequência e quase toda gente fala português. há milhares de tascas que vendem vinho e petiscos a preços acessíveis. As mulheres são bonitas e têm grandes e belos rabos.
Com um dia tão fixe tantas esplanadas por ai, porque raio tenho eu de tar a trabalhar????
Flatulências a partir de 28/01/2006