sexta-feira, abril 01, 2005

Um bombeiro da Madeira

O casamento do Facadas foi na Serra da Estrela. 300 km a norte de Lisboa na terra da família da noiva. Seia. Cidade simpática na encosta da serra. A família da noiva, a família do noivo e alguns amigos. Uma cerimonia numa igreja de aldeia completamente apinhada de gente feliz. O casamento podia ter sido um mais casamento normal e uma festa agradável se não tivesse entre os convidados um grupo de selvagens bêbados tresloucados incapazes de se comportarem convenientemente. Os amigos e os colegas do noivo. Amigos do trabalho e do técnico, íntimos de frequentes noitadas e bebedeiras memoráveis. Individualmente pessoas educadas e inteligentes – em grupo uma horda de vândalos. Durante a cerimonia, as coisa ainda se mantiveram mais ou menos estáveis...A situação começou a resvalar na parte das fotografias. Estava calor havia aperitivos e algumas bebedeiras iam rompendo a fina capa dos fatos e das gravatas... as coisas começaram a correr menos bem quando um fotografo gay contratado pelo noivo (dizem as más línguas amigo demasiado íntimos do Facadas) começou a ser exageradamente insistente com alguns convidados ... O fotografo foi um pouco agressivo e assediou constantemente um dos nossos... o jovem Spirit que estoicamente resistiu aos assédios do fotografo sem lhe bater e sem trata-lo mal... praticamente... A coisa apesar de tudo manteve-se estável. Mas o vinho do almoço descambou completamente a situação. Quando o Piu Piu jovem de elevado potencial e com o mau feitio dos alentejanos bêbados, decidiu abrir a janela porque estava calor... O empregado foi brutal e rude tratando o Piu Piu por paneleiro de merda...inclusivamente foi fechar a janela aberta pelo rapaz... houve logo voluntários para baterem ao empregado... felizmente na mesa estava o sensato Caldieradas que impediu a tragédia.
O almoço prosseguiu pela noite dentro... as horas foram passando e os vinhos deram lugares aos licores....foi nesta fase que despiram o noivo. No jardim acenderam-se tochas que a um metro e meio do solo iluminavam a fogo a pândega dos convidados.
Entre as garrafas foi descoberta aguardente de zimbro. Dramático. O Krinas (simpático rapazinho nada dado às bebidas brancas) e o Spirit decidiram lavar as mutuas longas cabeleiras com sumol de laranja. Nesta altura o noivo emborcava shoots de vodka enquanto outros se entretinham a provocar os convidados do casamento ao lado....Entre todos estes vândalos desregrados um espírito nobre sobressaia: o Sr. Engenheiro Jé Luís... madeirense de gema, que vendo o estado geral de bebedeira e tendo em conta o perigo dos incêndios decidiu apagar as tochas. Infelizmente não dispunha de agua... nem areia...A chama desafiadora ardia à altura da cabeça de um homem... e foi então que o Jé Luís teve uma das suas ideias brilhantes: Abriu a boca e bhaáaaaa – três garrafas de vodka com laranja vomitadas sobre as chamas até consegui extinguir o fogo. Estavas mal disposto perguntamos --- não mas estas chamas estavam a irritar-me!!!
Nesta fase os mais sóbrios foram arrastados para longe enquanto os mais resistentes prosseguiram até ser quase de manhã.
Diz-se que o noivo só conseguiu concretizar o casamento, 8 aguas das pedras, 4 gorozans e dois dias depois da boda.

quarta-feira, março 30, 2005

O bolinho na esplanada

O Nuno Rofiel é filho de pai francês e mãe portuguesa . Veio viver para o subúrbio por acaso e por acaso foi meu amigo. Éramos quase inseparáveis quando ele arranjou um part-time no café do Zé Sebo. Durante a manhã estávamos nas aula e durante a tarde ia para o café. O Zé Sebo tinha um emprego no metropolitano que acumulava com o café. O Sr. Zé como gostava de ser chamado, de manhã abria o tasco, recebia os fornecedores, afastava os clientes e fazia contas em folhinhas de papel pardo que também serviam para embrulhar bolos; à tarde ia trabalhar para o metro e finalmente o café ganhava vida. O café funcionava exclusivamente para a escola secundaria. Das 7 da manhã até às 23:30 como dizia o horário na porta.
A Cheirinhos, mulher do Zé Sebo ficava calada atrás do balcão a fazer o mínimo possível e a meter nojo aos clientes que repugnados lá iam sendo aviados.
O Café do Zé Sebo, pomposamente chamado Pastelaria Jardim, não se pode dizer que fosse um sitio asseado. A verdade é que se o Café tinha clientes era pelo simples facto de ser o único na área e por vender tudo ainda mais barato do que o bar da escola e porque tinha uma esplanada enorme que ocupava toda uma praceta. O Zé Sebo e a Cheirinhos eram o tipo de casal que estavam bem um para o outro porque partilhavam os mesmos valores de poupança e os mesmos tolerantes critérios de higiene. Ele com as suas unhas de faixa preta, ela com o seu refogado permanete debaixo dos braços era aquele que se pode chamar uma casal característico...
Quem de facto veio dar vida ao café foi o Nuno Rofiel. Alem de ser um gajo porreiro e sempre sorridente para toda a gente, tinha uns hábitos de higiene mais frequentes que os patrões e de vez em quando passava umas imperais pela surra aos amigos. Por isso a malta parava por lá.
Alem do Nuno ser bom rapaz e trabalhador, fazia aquele tipo de focinho de cachorro abandonado que agrada às gajas de todas as idades. Foi esse ar meio triste meio rebelde que agradou especialmente a uma certa professora de Relação Publicas que lhe ficou pelo beicinho. Claro que o Rofiel andou mais ou menos a come-la. Isto quer dizer: umas vezes comia a gaja, outras vezes não estava para isso e não a comia – é legitimo. Acontece que a educadora não era apologista do amor livre e anda desgostosa com o meu amigo... a coisa deu completamente para o torto no dia em que o Rofiel decidiu ficar na marmelada com uma colega boazoana bem à porta da sala dos professores – para ver se a coisa desencalhava. Não desencalhou e Nuno fez uma inimiga mortal.
A puta da professora, cujo nome recordo bem mas a minha higiene oral me impede de pronunciar, ficou completamente despeitada com a situação e decidiu lixar a vida ao Rofiel. Primeiro quis chumba-lo por faltas – teve o moço que andar a falsificar atestados médicos para se safar.... Depois, como não conseguiu com as faltas tentou chumba-lo em concelho de turma e foi preciso muito pressão dos outros professores para que o Rofiel que até nem era mau aluno conseguisse passar de ano.
Quando chegou o verão e o final de ano escolar, a situação entre os dois estava bastante feia. Foi nesta altura, entre duas reuniões que a professora se sentou na esplanada do café do Zé Sebo para lanchar.
Assim que o Rofiel viu quem chegava e abancava do outro lado da montra, virou-se para Cheirinhos e disse logo:
-- Patroa, veja la o que é que aquela puta quer que eu não a vou servir....
A Cheirinhos, na sua resignação beirã fez o pedido ao balcão:
-- um palmier barrado e um trinaranjus de maçã.
Eu estava ao balcão a beber uma cerveja e percebi o que ia acontecer antes do Rofiel começar.
O Ex-amante enfastiado e depois aluno descontente deu lugar ao empregado terrorista: puxou bem fundo a espectoração de noites frias em mangas de camisa e do macito de português-suave diário e escarrou em silencio para o palmier. Sabendo que eu também não gostava da senhora em causa, convidou:
-- queres contribuir?
Eu sou amigo do meu amigo. Não hesitei, na outra face do palmier dei o meu melhor. Techápe -- maxi-escarro verde alface.
Sempre a segurar no bolo com a pinça o Rofiel esfregou o palmier com uma colher para disfarçar o aditivo e chamou a Cheirinhos que voltou da esplanada e levou o pedido à cliente.
Para não dar nas vistas a rir-me, basei .Passei suficientemente próximo da mesa da professora para a ouvir comentar para as colegas:
-- Não sei como que eles conseguem, mas são 5 da tarde e o palmier tem o creme tão macio parece que foi acabadinho de fazer agora...

segunda-feira, março 28, 2005

A surpresa do Sapinho

Os anos 80 foram duros nos subúrbios. Foram os tempos dos salário em atraso, do desemprego e da toxicodependência. Jovens delinquentes, bandas de garagem e alcoolismo. Nas noites quentes de verão os adolescentes ficavam nas ruas até às tantas. Alguns de nós emborcávamos cerveja e fumávamos enquanto ouvíamos e contávamos historias, aprendíamos a tocar guitarra e formamos bandas roque.
Outros putos tornavam-se ainda mais bandidos. Foi o que aconteceu ao Fura, ao Gigi Papa-lamelas e ao Sapinho. Juntamente com o Canhoto formavam os 4 Cavaleiros.
O Canhoto sempre foi variado por motas. Com 4 anos já descia as escadas do primeiro andar de triciclo. Morreu com 17 anos em Setembro montado na sua Famel, eram 7 da manhã vinha de uma largada na Moita e espetou-se contra um camião.
O Fura, dizem as má línguas, nasceu de ponta-e-mola na mão, na escola primária furou a professora e mais duas continuas. Só largou a navalha quando apareceu o pai com o cinturão da GNR na mão. Está preso por trafico e homicida.
O Gigi Papa-lamelas nunca foi mau rapaz mas sempre foi drogado. Desde o 10 anos que sempre tomou tudo quanto é comprimidos na esperança de ficar pedrado. Na colónia de férias da segurança social, assaltou a farmácia e ficou com a alcunha. Morreu de overdose aos 31.
O Sapinho, chamava-se Sapinho, porque era o irmão mais novo do Zé Sapo. Nunca brilhou pela sua inteligência nem simpatia, e como era de constituição franzina costumava andar sempre com umas correntes. Apareceu enforcado nas correntes.
No verão seguinte à morte do canhoto, o Fura o Gigi Papa-lamelas e o Sapinho andavam piores que nunca. Já tinham os três dezoito anos e nenhum tinha sido condenado. Estavam a perder pontos no corriculum de bandidos....
Eram ja uma duas da manhã e o Fura – pseudo líder desde a morte do Canhoto --- decidiu
-- Vamos assaltar o café pirata da recosta. O gajo tem lá sempre montes de garrafas de whisky e tem debaixo do balcão o tabaco em pacotes. Vendemos o tabaco e o whisky e vamos três semanas pró Algarve viver dos rendimentos.
Os outros dois concordaram e lá foram.
Passado uma hora que estavam dentro do Pirata com as luzes apagadas e a montra partida. O Papa-lamelas, procurava drunfos escondidos. O Fura enchia sacos pretos do lixo com volumes de tabaco e o Sapinho andava empoleirado a tirar as garrafas das prateleiras.
Já estavam três grandes sacos cheios, quando o Sapinho se começou a rir e a dizer que ia deixar ruma recordação.
Subiu para cima do balcão, levantou a tampa do moinho que fazia parte da maquina de café, baixou as calças e defecou lá para dentro dentro. Claro que os outros dois se partiram rir no escuro entre as mesas. Enquanto o Sapinho fazia o serviço o Fura deu-lhe o correio-da-manhã para mão. Preparavam-se para sair quando a Papa-lamelas achou que se o sapinho tinha cágado na maquina de café, o melhor era puxar o autoclismo e para isso despejou um saco de café em grão por cima da merda – a hgiene a cima de tudo!!!
Na manhã seguinte, quando Pirata veio abrir o café às 6 da manhã, chamou logo a policia. A bófia, veio, tomou conta da ocorrência, e a coisa ficou por ali. A vizinhança falou no assalto e o Pirata ficou a queixar-se do tabaco e do wiskie. Da cagada , não havia referencias.
Só quando o Fura começou a vender tabaco a metade do preço ao pessoal, é que a historia da cagada na maquina do café se soube.
Os clientes do Pirata começaram a queixar-se do sabor das bicas... O pessoal novo nessa altura juntava-se em grupos de três e quatro e ia ao pirata pedir um café, que todos cheiravam, todos riam mas onde ninguém bebia a bica que voltava fria e intacta para cima do balcão.
O Pirata nunca percebeu o porquê deste estranho comportamento da malta.
Flatulências a partir de 28/01/2006