sexta-feira, abril 22, 2005

Amesterdão

Vou para lá amanhã.
Depois conto-vos tudo.
A bacana que dorme la em casa quer ir ver os museus, acho que vou ter de ir com ela ver as pinturas.... As outras atrações de Amesterdão tambem tenho no Barreiro: putas e charros nunca faltam na minha terra!!!!

O meu primeiro chefe

O primeiro sitio onde trabalhei a sério foi num escritório em Stº Amaro de Oeiras. Pela primeira vez fui obrigado a andar barbeado e engravatado todos os dias. Tinha uma chefe máximo que era o fundador da empresa. Tinha chefes menores que eram os cães de fila do patronato. Tinha colegas imbecis e lambe botas. Tinha tarefas repetitivas e monótonas . Nunca tinha dinheiro. Pagavam-me uma miséria. O costume, portanto.
Foi nesta empresa onde trabalhei que pela primeira vez percebi que a minha aversão à autoridade não tem uma origem ideológica. Não é produto da minha adolescência no subúrbio. Não é trauma. É genético. Está-me inscrito no núcleo de todas as células do meu corpo: não me dou com mandões!!!!
No trabalho, claro que fazia o mínimo possível. Escrevi um livro em folhinhas a5 que reciclava das folhas de trabalho que me passavam. Nem as lia, dobrava-as ao meio e escrevia nelas “as aventuras do passarinho sardão na gaiola dourada” o meu primeiro livro. Completamente impublicável por todas e mais algumas razões.
Outras vezes sentava-me ao computador e escrevia cartas ao meu amigo Feijone. O Feijone nessa altura vivia, estudava e pintava em Amesterdão. Escrevia as cartas no Word, imprimia e envelopava e mandava pela correspondência da empresa que pagava os selos. Eram longas cartas a relatar a vida nocturna do Barreiro, quem é que comia quem , que bares abriam, quem é que foi preso, o que é que se andava a beber e as mulas novas que apareciam. O Feijone ia respondendo com cartas meio desenhadas meio escritas onde me ia contando tudo sobre Amesterdão.
Estávamos na primeira metade dos anos 90. E os chefes dessa altura ainda estavam fortemente influenciados pelos yuipies dos 80. O parvalhão que coordenava a equipa onde eu trabalhava, não me largava os calcanhares. Queria acumular prestigio e riqueza e não olhava a meios. Era um homem de carreira. Eu tinha de ser criativo para me poder baldar. Até me dava bem com o administrador. O big boss -- fundador da empresa era um gajo informado e uma das poucas pessoas ali dentro com quem conseguia conversar sem ser de computadores, carros ou viagens “all include”. Para o meu chefe directo que pretendia ser amigo do administrador essas conversas eram ofensas pessoais..... Odiava-me cada vez mais de dia para dia. Vivia obcecado em apanhar-me na balda para poder provar a minha obvia incompetência. Vendo a coisa dez anos depois, devo dizer que não devia ser muito difícil... mas o tipo também não era muito inteligente. Eu também exagerava. Gozava com o gajo. Não perdia uma oportunidade para mostrar ao senhor que a sua ignorância era enorme. A coisa foi ficando feia. O meu chefe chegou ao ponto de marcar uma reunião com um cliente a uma determinada hora e marcar comigo meia hora mais só para me entalar... (Essa não lhe perdoei e no dia em que sai da empresa, tive uma conversa com o tipo na garagem que tenho a certeza não se vai esquecer... tem um incisivo postiço para recorda-lo... mas isso é outra historia)
A questão é que nos dávamos muito mal. O tipo tinha à volta de trinta nãos e era daqueles parvalhões sempre tão bem lavadinhos, tão bem penteadinhos e tão bem vestidinhos que até dão nojo.... Tinha defeitos imperdoáveis: era arrogante com os mais fracos e subserviente com os superiores. E era vaidoso. O meu chefe era muito vaidoso. Completamente vaidoso. Ates de sair do escritório para ir a uma reunião enfiava-se na casa de banho para retocar o penteado. Tinha uma bolsinha onde trazia uma embalagem de gel, a agua de colónia e a escova e pasta de dentes.
Quando eu descobri um chave que abria a gaveta da secretaria do cabrão, a minha vida profissional teve outro alento. Até comecei a ir trabalhar mais cedo...
Fazia tudo para ser o primeiro a chegar ao escritório. Chegava antes de todos os outros. Pela surra ia até à secretaria do bicho chefe. Abria a gaveta e sacava a bolsinha pierre cardin e penteava os cabelinhos à volta do ânus com a escova de dentes do gajo. Os pelos que eventualmente viessem agarrados à escova, tinha o cuidado de os meter dentro da caixa do gel. Depois deixava tudo arrumadinho com a perfeição de um ladrão de jóias.
Era minha humilde vingança à perseguição daquele merdas. E digo-vos desde já uma das coisas que mais gostava de ver naquela época era o meu chefe ir lavar os dentes depois de almoço.

quinta-feira, abril 21, 2005

Os Piratas de Alcácer do Sal

Farto da pasmaceira campestre da ilha do pessegueiro, decidi curtir o verão urbano de Vila Nova de Mil Fontes. Era sexta-feira e tinha algum dinheiro no bolso mas decidi por poupar nos transportes. Mochila às costas, pé na estrada e dedo polegar no ar. À lá maior sensação de liberdade do que esta???
Na Pouca Farinha apanhei boleia na parte de trás de uma camioneta que me deixou mesmo na margem do rio Mira, junto à ponte nova. Eram três da tarde e estava aquele calor de Agosto que no Alentejo pode matar. Tinha combinado encontrar-me com uns amigos que viriam nessa noite do Barreiro. Ainda faltavam umas horas... estava demasiado calor para a praia mas estava a temperatura certa para beber uma caneca de cerveja.
Em Vila Nova no inicio doa anos 90 a tasca inevitável era a Manjedoura. Entrei sozinho com a minha mochila e sentei-me numa das mesas corridas. Depois de habituar os olhos à fresca penumbra interior percebi que no cantinho da mesa onde estava sentado estava uma rapariguinha loura a chorar.
Eu nunca fui de me meter assim com desconhecidas.... mas a moça estava a chorar e cheguei-me mais para ela e perguntei-lhe porque chorava. Não tive tempo de saber a resposta. Vindo não sei de onde surgiu um atrasado mental grandalhão. Blusão de ganga sem mangas e botas da tropa. No braço duas tibias cruzadas desdenhavam da arte da tatuagem. Tás a falar com esta chavala?? Vai mazé falar com a puta que te pariu.
Eu não conhecia o anormal... Duvido que a minha mãe o conhecesse... Como não gosto que falem assim de uma senhora tão gentil, séria e educada como a minha mãezinha, decidi nem lhe dar resposta. Nessa altura a caneca de cerveja que tinha na mão, já praticamente vazia partiu-se. Infelizmente cortei-me ligeiramente junto ao punho. O energúmeno mal educado também se deve ter magoado porque se atirou para o chão com os olhos revirados, agarrado à cabeça que despejava sangue misturado com cerveja. Sangrava para o chão ensopando a serradura sem mexer -- assim é que estás bem, pensei. A rapariguita que antes chorava abraçou-se ao parvalhão e começou gritar histérica. Assassino assassino, mataste-o mataste-o. E dava guinchos. Como eu já estava farto de ser maltratado decidi mudar de poiso. Aproveitei a confusão gerada pela loura para me pirar sem pagar nem a caneca que parti nem a cerveja. Vim para a rua, trazendo a mão embrulhada na toalha turca que costumava estar à porta da casa de banho.
As pessoas começavam a descer para a praia e eu caminhei contra a corrente na direcção do parque de campismo. Dois dias antes, em Porto Covo, um tipo que tinha vindo de Vila Nova, tinham-me oferecido um cartão do parque de campismo. O gajo trouxe acidentalmente do bolso o cartão do parque quando se esqueceu de pagar. Como o cartão ainda estava bom decidi-me por utiliza-lo e passei achamar-me Rui Nunes.
Nos balneários do parque de campismo limpei e fiz o penso à mão. Afinal o golpe não era tão profundo como isso. Já nem sangrava. Como tinha tempo fiz a barba, tomei banho e mudei de roupa. As calça de ganga e a túnica com franjas à índio estava tudo cagado de sangue. Tirei as botas alentejanas. Vesti uns calções de banho, uma t-shit e calcei as chinelas. Passou uma hora desde que a caneca se partiu. Eu parecia outro.
A adrenalina tinha dasaparecido e eu sentia fome. Decidi sentar-me no bar do parque de campismo e comer qualquer coisa. A GNR apareceu e ficou estacionada do lado de lá da recepção do parque. Falavam com o porteiro. Não percebi o que diziam mas a noticia correu depressa. Parece que tinham espancado alguém num bar da Vila. Um gajo já não está seguro em lado nenhum...Diziam que o ferido tinha ido em coma para o hospital. Eles andavam a ver se alguém se tinha registado no parque de campismo naquela tarde. Ainda bem que o meu cartão provava que eu me tinha registado uma semana antes....
Mais por preguiça do que por medo fui ficando no bar do parque. As noticias iam chegando contraditórias e em crescendo. Tinha havido um tiroteio. Estava um tipo morto dentro da Manjedoura. Ao final da tarde já eram dois mortos e era um gang de negros que andava a bater nas pessoas.
Os meus amigos chegaram antes de anoitecer e contaram que a Vila esta a ferro e fogo. Pelas ruas apertadas andavam os veraneantes do costume mais um grupo de uns 20 motoqueiros. Caçavam um cigano que bateu num amigo. Andavam em zundapes e fameles alteradas numa premonição do tuning: até costas de cadeiras de café tinham integradas nas motas. Exibiam correntes e bastões na rua e a GNR não lhes dizia nada. Todos usavam blusões de ganga sem mangas com um dorsal que dizia “Os Piratas de Alcácer do Sal”. Parece que o motoqueiro espancado tinha ida parar ao Hospital de Setúbal com um traumatismo craniano. Fizeram da tasca onde ocorreu a cena o seu quartel general e estava a embebedar-se com litros de sagres.
Depois contar aos meu amigos o que tinha acontecido, decidimos tomar providencias. Como éramos só quatro tínhamos de ser mais espertos que os Piratas de Alcácer do Sal. Depois de comermos, o Tiercy e o Bebé foram até à Manjedoura perceber como estavam as hostes inimigas. Eu e o Cavernas ficamos pelo parque a beber cerveja. Bebemos e fumamos cigarros nervosos. O Tercy e o Bebé nunca mais apareciam. Nós começamos a ficar preocupados. Por volta da uma da manhã ouvimos o ronco característico de uma famel a aproximar-se em aceleração continua. Ficamos atentos e vemos o Tiercy e o Bebé sem capacete pararem uma mota à porta do parque de campismo. Largaram a mota comprometidos e avançaram com ar de caso. O que é que aconteceu perguntamos nós?
Temos noticias. Uma boa e outra má. A boa é que o parvalhão que deu a cabeçada na tua caneca está livre de perigo. A má é que eles já sabem que estas aqui no parque de campismo.
Mas como? Ai o Bebé nos seus cinquenta quilos mal pesados começa a esbracejar para contar a historia. Decidiram sabotar os Piratas de Alcácer do Sal, e o Tiercy ficou cá fora , à porta do bar a sabotar as maquinas todas dos piratas. Arrancou o cachimbo de todas as famel menos daquela onde viemos. Eu fui lá para dentro para os distrair. Como estavam todos bêbedos e não me ligavam... olha tive de arranjar maneira de lhes chamar a atenção.
Pois, interrompe o Tercy, a melhor maneira que o Bebé arranjou de lhes chamar a atenção foi-se dizer-lhe que estavas aqui no parque de campismo e que os mandavas a todos para o hospital!!! Mas fez melhor: para provar que não tínhamos medo roubou um capacete e pôs-se a mijar lá para dentro!!!
Viemos para o Barreiro nessa mesma madrugada escondidos na camioneta do padeiro. Por sorte o gajo que fazia a distribuição do pão era um tipo que vivia no Barreiro....já em casa ainda passei algumas noites sem dormir a adivinhar o rugir de uma famel a acelar ao longe. Dos Piratas de Alcácer do Sal guardo a recordação dessas noites de insónia e uma pequena cicatriz na mão direita causada pelos vidros de uma certa caneca de cerveja que bebi mas nunca paguei.

quarta-feira, abril 20, 2005

O Farnel do Ervilha

A musse do Ervilha

Em Maio com o aproximar do final do ano lectivo começavam as excursões. No inicio doa anos 90 estavam em voga os parques aquáticos com piscinas e escorregas. O ex-libris na margem sul era o Onda-Parque na Costa da Caparica .... A excursão em causa foi organizada pela associação de estudantes. Só estudantes. Os professores em Maio já conheciam demasiado bem os alunos para nos acompanharem. Recusavam-se a atravessar a estrada connosco, quanto mais fazer uma viagem – mesmo de uns escassos vinte quilómetros entre o Barreiro e a Costa da Caparica.
Sem perceber muito bem como, o que é certo é a que a organização funcionou. Mais ao menos à hora marcada lá apareceram os dois autocarros da câmara para onde o pessoal foi entrando.
Garotos na idade mais selvagem. Adolescentes de subúrbio. Rapazes em calções e raparigas excitadas dentro dos seus biquinis debaixo da roupa leve. Entre os 14 e os 17 anos. Sacos com farnéis e gravadores com cassetes. Charros e cerveja.
Como em todo o lado a há uns mais espertos e outros mais parvos. Como em todo o lado os mais parvos são aqueles que se consideram espertos. É o caso do Ervilha. Musculado e grande para os seus 16 anos, tinha a alcunha de Ervilha por comparação do volume do seu cérebro com o tamanho de uma ervilha. O Ervilha era estúpido todos os dias. Estúpido como um contentor verde a abarrotar de lixo depois de um fim-de-semana grande ou de uma greve de três dias. Estúpido e parvo como todos aqueles que se armam em mais espertos que os outros.. O Ervilha era grandalhão mas não era grande coisa, e dentro do autocarro teve logo de abaixar a bolinha. Na hierarquia da rua e da escola não valia nada. Ao pé dos pequenos vândalos --- bandidos em botão --- devia mostrar-se mais reservado. Ainda a excursão não tinha saído do Barreiro já tinham acendido os charros e aberto as garrafas de cerveja... O Ervilha ainda começou a armar-se a dizer que comia este mundo e o outro... mas alguém lhe disse que talvez tivesse que partilhar o lanche à força. O Ervilha finanmente percebeu quem mandava, perdeu o piu e foi calado o resto da viagem. Melhor assim.
Quando chegaram ao Onda-Parque perceberam porque é que os tipos da organização tinham feito um preço tão barato para entradas.... Das três piscinas só estava em funcionamento uma. Por ser dia de semana, estavam fechados ao publico e só abertos para escolas. Só escolas – isso já sabiam... o que não sabíamos era quem era a outra escola. As fantasias sonhadas com as meninas do liceu de Oeiras caíram por terra ao perceberemos que a outra escola presente era o instituto de reinserção social de Setúbal... Mistura explosiva.
Felizmente que o haxixe e a cerveja são grandes agentes de integração. Meia hora depois dos barreirenses terem chegado já éramos uma família com os vandalozinhos de Setúbal. Fizeram-se parcerias para futuros negocios e abriram-se mais cervejas. Depois, todos juntos alegremente brincaram ao empurra para a agua. Primeiro uns aos outros. Depois aos que não queriam ir. Depois às técnicas de reinserção social que acompanhavam os meninos de Setúbal. Depois aos funcionários do Onda-Parque. As brincadeirinhas elegantes com agua cansaram e fartaram a malta. Acenderam-se novos charros e abriram-se mais garrafas de cerveja. Nisto o Predador sugere: “Bute catar os armazéns” ... porta a dentro e os armazéns de arrumos do Onda-Parque completamente devassados. Tintas, tijolos, ferramentas encaixadas depressa espalhadas pelo chão ou escondidas sob as t-shirts. O Cavernas informa: pessoal vou amandar uma cagáda dentro deste balde de tinta!!! Claro que houve vozes discordantes pela escolha do sitio e com novas e criativas sugestões: Faz nos sapatos dos totós. Faz dentro da caixa de ferramentas. Faz na piscina, na piscina. O Pinguinhas que é gago ( a alcunha completa é Mijáspinguinhas) que naquele dia estava mais pedrado que o costume e por isso mais engenhoso sugere: Fá fá faz mazé pra dê dê dê dentro da musse do Ervilha!! O gajo na na não estava a dizer que que que cu cu comia a tijela toda sozinho???
As ideias quando são realmente brilhantes têm execução rápida. E mais rápido do que o tempo que demorei a contar a estoria. A taparuéra da musse do Ervilha foi subtraída do seu saco e metida debaixo do Cavernas que já ia avisando que não podia esperar muito mais porque estava com uma cólica.... E era verdade. A diarreia liquida e amarelada acompanhada de gazes mal cheirosos, desapareceu na musse de chocolate escura da mãe do Ervilha. Taparuére de novo fechada e metida dentro do saco do Ervilha que sem se aperceber de nada fazia musculo e desafiava os mais fraquitos para jogar braço-de-ferro.
Acção executada , expectativa criada.
Uma hora depois, todos abrigados numa das poucas sombras que podiam proteger do sol às duas da tarde. Deu a fome. Começaram-se a desembrulhar as sandes. O Ervilha na sua boçalidade grita para o geral: eu cá como primeiro a musse e só depois é que despacho as minhas 5 sandes!!!
À volta do Ervilha e da musse juntamo-nos a meia dúzia que sabia do aditivo biológico. O imbecil abre a taparuére e armado de uma colher de sopa começa por mexer a musse toda. Depois mete a primeira colher à boca e delicia-se. Mete a segunda colherada e não acontece nada. Mete a terceira e nessa altura torce a ponta do nariz e examina atentamente a sola dos dois sapatos enquanto comenta:
-- foda-se devem vir para aqui passear cães à noite... um de nós já pisou um cagalhão, cheira-me a merda!!!
Flatulências a partir de 28/01/2006