quarta-feira, maio 04, 2005

Fui à consulta e fiz o tratamento

Entre o asfalto e a terra-batida os contentores de lixo marcam a fronteira. Nas traseiras da taberna-mercearia onde se vende fuba e caporoto está um quintal na sobra onde os homens observam os estranhos. A viela serpenteia encosta a baixo. À sombra dos muros cães sonolentos e sarnosos afastam as moscas das três da tarde. Mães sentadas à porta catam os filhos de colo. Gritos e risos escancarados de crianças que observam desconfiadas a minha pele clara e o meu cabelo liso. Mulheres jovens batem com pilões o milho que se transforma em farinha dentro de latas de tinta recicladas. Os seus seios esptam-se como antenas debaixo dos panos que prendem os bebés às costas. Os mais velhos falam baixo e decidem sobre o mundo.
No meio de todo o musseque, perdido no emaranhado das casa e quintais consigo dar com a casa do feiticeiro. È um kimbanda Zairense. Fala com as almas dos mortos e com os espíritos dos antepassados e da natureza. Tem magia muito forte, avisaram-me. Três virgens catorzinhas fazem a lida da casa e servem de recepcionistas. Há um cabinde enorme sentado numa cadeira inclinada sobre o muro. Segurança. Entrei pelo quintal onde à sombra do zinco uma fila de uma quinze pessoas espera de coçaras. Costas encostadas à parede e muita conversa enquanto se espera. Como sou branco não cheguei a esperar cinco minutos. Uma das catorzinhas veio chamar-me com um gesto silencioso. Levantei-me da posição incomoda e entrei.
Lá dentro esta escuro e tão fresco que cheguei a pensar em ter frio. Cheira a comida, a ervas queimadas e a limpo. Sentado sobre almofadas, vestido com roupas largas e brancas está o feiticeiro. Um corpo franzino sem idade. Negro retinto e um sorriso enigmático à minha espera.
Fala-me numa língua cheia de floreados incompressíveis com palavras familiares que identifico como francês. De um canto escuro soa uma voz em português. Não tinha reparado nela. Uma senhora ja com idade e gorda, sorridente, serve de tradutora. Para o Papa Kumbo se poder fazer entender pelos seus clientes que não falam a língua dos Congos.
-- Senta-te ai no chão na frente do Papa Kumbo, com os perna descruzada. O patrãozinho vem ao quê?
-- Vim cá porque me andam a fazer feitiço para as coisas me correrem mal. E também quero fechar o corpo.
Aparentemente o Kimbanda percebeu o meu português do Barreiro. Sem esperar a tradução começou logo a responder-me. A tradutora fazia o eco em português.
-- Feitiço feito Papa Kumbo desfaz logo logo já. Para fechar corpo Papa Kumbo só pode fechar o cropo para três mal. E tem quatro.
O Feiticeiro continuava na sua algaraviada e contava pelos dedos à boa maneira africana.
Fechar o corpo para bala. Um. Fechar o corpo para faca, espada, machado e navalha e tudo quanto é ferro de espetar. Dois. Fechar o corpo para pau, moca sarrafo ou tábua. Três. Fechar o corpo para vidro, garrafa ou copo. Quatro.
-- Agora patrãozinho escolhe só.
-- E não posso fechar para tudo?
-- sim. Patrãozinho não pode fechar para tudo. Só pode fecha para três. Exibia o dedo máximo acompanhado pelo indicador e pelo anelar como se esta trilogia bastasse para eu optar. Agora você tens de escolher.
Estava numa fase complicada da minha vida. Na altura estava sujeito a vários perigos reais e imaginários. Influencias maléficas e pressões. Sentia-me acossado e procurei ajuda. Vim até aqui num misto de necessidade, desespero e curiosidade. Agora tinha decidir-me pelos níveis de protecção. Pensei por segundo no silencio fresco da sala. Escolhi do mais perigoso para aquilo que me parecia mais inofensivo. Decidi-me.
-- Quero fechar para bala, fechar para faca e fechar para pau.
A ideia de vir a ser magoado com vidros pareceu-me a mais remota.
O feiticeiro percebeu a minha escolha e começou o tratamento.
Entre as pernas tinha um cesto grande para onde ia atirando coisas. O homem falava sozinho com os olhos entreabertos revirados para cima e mostrando exclusivamente o branco que contrastava com a sua pela negra. Búzios , contas e raízes. Pozinhos e umas gotas de uma bebida transparente que cheirava a aguardente de cana. Meteu um golo na boca bochechou e cuspiu para o cesto. Acendeu um isqueiro e uma labareda amarela iluminou por momentos a penumbra. Mais rezas.
-- o que é que ela esta a fazer? Perguntei num murmúrio à tradutora?
-- chuiu , não barulhes!!! Está a falar com os espíritos e a queimar o feitiço que fizeram para ti.
Neste momento começou a trovoada nas almofadas do Kimbanda. Mesmo debaixo do rabo do feiticeiro ouviam-se óbvios foguetes. O feiticeiro cagava-se alto e estrondosamente. Confesso que tive dificuldades em conter uma gargalhada nervosa que não passou despercebida à ajudante.
-- Não rias-te!! Então você não sabes que o kimbanda quanto está a peidar são os almas a falar com ele??? Fica calado só. Cortou numa ordem abrupta enquanto ouvia com atenção os flatos e cheirava o ar.
-- Você vês? não cheira mal. Isto só prova que o patrãozinho tem bom coração lá dentro mesmo e que és boa pessoa.
O feiticeiro acabou com a peidorreira e recomeçou a falar. A kota traduziu:
-- O tratamento tá feito. Vais descansado que não vais ser ferido nem de bala nem de pau nem de faca. Patrãozinho tens que ter cuidado com os murro de mão ou de pé que podem-lhe atingir. Faz também muita atenção que tem uma mulher que lhe quer prender o vida toda. Despensa mais nela. Leva muito cuidado com os vidro de todos os espécie. Todos os copos e todas qualquer garrafa podem-lhe cortar... Agora patrãozinho paga, levanta e vai embora para casa e vais tomar banho de agua com sal. Não olha para trás nunca no caminho para casa.
-- quanto é o preço da consulta e do tratamento?
-- então, não tas lembrado? É o que o patrãozinho combinaste com o meu parente: cinco conto de reis e mais uma garrafa de jóni uálequer com os rotulo preto.
Tentei regatear directamente com o feiticeiro mas a kota foi peremptória:
-- Paga só e não resgateies. Você já sabes que o fecho de corpo para brancos é sempre mais caro !!!??? o Papa Kumbo só fez-te neste preço porque tu és boa pessoa e tavas precisando mesmo!!!
Paguei o combinado. Sai para o sol quente e senti-me meio tonto com a força da luz. Voltei para casa sem olhar para traz. Tomei banho de sal e nunca mais voltei a ver o Papa Kumbo.
Depois daquela tarde não voltei à Damaia.
Passaram-se alguns anos, mas uma coisa vos garanto, a partir daquela tarde até hoje tenho sempre muito cuidado com os vidros. Não me meto em brigas, mas quando elas acontecem fixo sempre muito atento ás garrafas. Até na casa da minha mãezinha, não bebo sem olhar bem para o copo não vá estar algum ligeiramente falhado e eu magoar-me na boca. Infelizmente, sempre que se parte um copo ou uma garrafa lá em casa, já sei que acabo sempre com um caco espetado nas mãos ou na sola dos pés... Não é de estranhar... sei que não tenho o corpo fechado para vidro... o Papa Kumbo bem que me avisou!!!!
Um outro aspecto que também me marcou muito na consulta do Papa Kumbo foi a flatulência. O esoterismo do peido. O facto dos flatos que não cheiram serem provocados por espíritos bons, deixa-me estasiado e confuso simultaneamente.... Esta verdade esotérica permitiu-me chegar a uma conclusão: sempre que como feijão de óleo de palma ou assim um caril bem jindungado fico com a sensação que nem todos os espíritos que por mim passam são de bom coração!!!! Alguns dos espíritos falam com um hálito que tresanda tanto que até o meu pobre cão foje!!!!

segunda-feira, maio 02, 2005

Reforma de esquinanço

O Carlos Lopes foi um grande corredor. Assim como o Carlos Lopes está para maratona, está o Toino Bandido para o esquinanço. Esquinanço para quem não sabe é um desporto muito praticado no meu bairro que consiste em ficar encostado à esquina. No esquinanço podemos ir dizendo larachas, mandar bocas às gajas boas e a ver o mundo passar.
Lá no bairro temos muitos praticantes de esquinanço. Há atletas de esquinaço de todas as idades e de todos os tamanhos. Há os profissionais e há os amadores. Falo-vos de uma modalidade que se pode praticar cinco minutos por mes ou varias horas por dia, sem perder a performance... Se houvesse campeonatos de esquinanço tenho a certeza que estavamos entre os melhores do mundo. Se houvesse campeonatos o Toino Bandido seria o campeão do universo.
Não confundir o Toino Bandido, com o Toinozé. O Toinozé é alcoólico e meio variado dos cornos mas inofensivo – a minha avó costumava dar-lhe sandes acompanhadas de sermões do “porque é que tu bebes, se sabes que te faz mal...” O Toino Bandido também é bêbado, mas não é tão alcoólico. Só se embebeda quando arranja dinheiro e não se vai por a trabalhar de propósito para se embebedar... Já o Toinozé dá serventia a pedreiros sem escrúpulos que lhe pagam em vinho. Alem disso, e para que conste, é preciso dizer o Toinozé não é muito de esquinanço...mas o Toino Bandido, esse sim faz do esquinanço modo de vida.
Bem, a conversa é sobre o Toino Bandido e deixemos o Toinozé para outra altura. Falo dele quando vos falar no Pédecarimbo e na sua orquestra de flatos.
O Toino Bandido não é assim tão bandido. Pelo menos nos últimos 15 anos, não tem feito mal a ninguém. Brigas só as tem com o irmão que é traficante de heroína. Parece que antigamente é que era mesmo bandido de assaltos à mão armada. Bombas de gazolina e cafés. Chegou mesmo a gamar aqui na rua -- coisa que não se faz... Bem o que é certo é que teve uma data de anos à sombra e não ganhou a alcunha na farinha Amparo. Prisão, prisão maior e presídio. Passou pelos tres niveis. Enfim o percurso do costume. Corriculo de gangster mas a modos que domesticado. Apesar de bandido e bêbado é um tipo educado prás velhinhas e a vizinhança toda o tolera porque alem de prestável é um indigena. Isto é, o Toino Bandido é mesmo do bairro, ali nascido e criado, o que só por si é bastante abonatório naquelas bandas.
Desde que saiu a ultima vez da prisão, à mais de dez anos, mantém os seus cinquenta e muitos mais ou menos em forma com uma dieta de sandes de torresmo que lhe dá o gajo do talho e copos de tinto que vai cravando a quem passa. Não se pode dizer que seja um exemplo de sucesso e de recuperação social.... mas já se tornou parte do mobiliário urbano. Dorme na varanda da mãe – desde que espetou uma faca no irmão que é passador que a mãe o proibiu de entrar em casa. Toma banho nos balneários da junta de freguesia e vai-se desenrascando. Os dias passa-os inteirinhos no esquinanço. Encosta-se à montra do talho às sete da manhã e só abandona o seu posto depois das 10 da noite. Não sou bruxo mas posso dizer-vos que , neste preciso momento, enquanto estou aqui com este ar convicto a fingir que trabalho, está o Toino Bandido em pleno esquinanço. Faz pequenos recados aos comerciantes da área tipo ajudar a descarregar uma carrinha ou ir comprar tabaco. Vai ficando por ali a vigiar a rua principal que como um rio atravessa o bairro com um cortejo de desconhecidos. O Toino bandido esta sempre atento. Se ha um tipo mais atrevido que não é do bairro e estaciona em cima do passeio é logo convidado a por-se a milhas. Se algum chico-esperto atropela algum cão da vizinhança o Toino Bandido é o primeiro a chegar-se ao animal e a chamar nomes ao condutor. Se lhe respondem o Toino ameaça desgraçar-se, diz que desenterra a pistola e benze-se enquanto se junta pessoal à volta do desconhecido que não tem outro remédio se não pirar-se... Três em três dias embebeda-se. Só de vez em quando é que apanha aquelas bebedeiras monumentais em que ameaça suicidar-se: -- Desenterro a pistola ( benze-se) e acabo comigo (benze-se). A bebedeira dá-lhe pró gritos e pró choro. A bebedeira passa-lhe e volta ao esquinanço calmo e solicito.
Aqui à uns tempos correu a noticia que o Toino Bandido tinha uma namorada. Fiquei curioso.... uma senhora nos seus 40 e poucos anos que em comum com o Toino teve uma vida amarga e problemas com a lei num passado remoto. Tal como ele uma bocado bêbada. Casada, parece que o marido fugiu dela e o Toino Bandido teve finalmente a chance por que esperava.
Aqui à umas semanas ia eu a passar vejo o Toino Bandido metido num discussão violentíssima com uma mulher. Caso único. O Toino Bandido sempre foi respeitador com as mulheres.... Não conhecia a senhora em causa. Depressa percebi que era a tão falada namorada cujo romance etilizado andava a escandalizar uns e a divertir outros lá no bairro. A senhora esbraceja e com uma voz esganiçada ameaçava: -- Olha que eu grito. Olha que eu grito. O Toino ia tentando manter a discussão controlada mas teve um dos seus já celebres repentes, deu-lhe uma estalada e virou-lhe as costas. A senhora ficou sentada no passeio meio aparvalhada a choramingar...
Passaram uns dias e eu nunca tive oportunidade de lhe perguntar o que é que aconteceu... hoje encontrei-o às sete e cinco da manhã e enquanto ele me cravava vinte cêntimos aproveitei para o interrogar sobre o romance.
-- Pus a gaja a andar. Por acaso tive pena. Aquilo era mesmo amor...Gostava dela e nem me importava que ela fosse bêbada e não se lavasse por baixo, que eu cá também gosto da minha pinguita... Fiz muito por ela. O marido foi lá a casa para ir buscar-lhe a televisão e eu parti-lhe os cornos e mais duas costelas... tudo por amor!!!!
Então porque é que se chatearam, perguntei na minha ingenuidade. – Então, imagina tu que a puta queria que eu trabalhasse para ela...eu que nem para mim posso trabalhar, ia mesmo trabalhar para uma gaja... nem que ela fosse a Brígida Bradou.
-- Mas olha lá estas doente Toino?
O Toino Bandido olhou à volta e do seu posto de esquinanço, fez-me a revelação:
-- Não pá!!! Ando a ver se a junta de freguesia me arranja uma reforma por invalidez!!!!
Flatulências a partir de 28/01/2006