terça-feira, maio 24, 2005

A caçada do Manaças (ou porque não voltarei ao Cravo Azul)

Em Setúbal havia uma casa de putas chamada Cravo Azul. Era um sitio interessante sob o ponto de vista humano. As senhoras que lá trabalhavam não tinham encanto especial... a maior parte eram mulheres na pré-reforma a fazer dinheiro pra bucha. Encanto tinha a clientela do bordel. Uma verdadeira coleção de cromos. Mestres de embarcação e pescadores em dias de pagamento. Gansters velhos do bairro da Camarinha. Homens das obras e empreiteiros de mão de obra ilegal. Soldados e caçadores. Velhos traficantes a festejarem uma saída precária. Novos traficantes a ganahr status de mau. De vez em quando um ou outro noctívago desviado que vinha ali dar no final da noite. Um sitio bastante recomendável.
Numa das raras vezes que entrei no Cravo Azul, aproximei-me de um tipo chamado Manaças que pertence à interessante e populosa tribo dos caçadores. Eu já conhecia de vista o Manaças no Barreiro à anos.. conhecíamo-nos de nos cruzarmo-nos mas nem sequer nos falavamos.
Foi na noite em que conheci bem o Manaças que tive a minha primeira experiência de caça. Nessa noite entrei no Cravo Azul com meu amigo Luie. Também apreciador de ballet, o Luie e eu fomos encostarmo-nos ao balcão para ver o espectáculo de dança. A loura toxicodependente ainda não se tinha acabado de despir por isso ainda íamos na primeira cerveja quando rebenta a guerra. Uma zaragata mesmo ao nosso lado – porra é preciso ter azar... Quatro pescadores queriam esmurrar o um desgraçado que pedia desculpa desesperado. Achamos mal. Três contra um. Achamos ainda pior gajo que estava prestes a levar ser o Manaças. È certo que nem eu nem o Luie tínhamos grande confiança com o tipo... mas caramba é um gajo do Barreiro... Conferenciamos e fizemos uma votação aprovada por unanimidade por dois votos a favor e zero votos contra. Decidimos intervir.
O gajo que ia comigo tinha sido campeão de kick boxin e na altura era capaz de fazer rotativos que pareciam monumentos à Grande Deusa da Biquirada. O Luie era tipo van-dame mas mais baixo e versão em preto. Truz Truz, dois pescas no chão. Os outros até ficaram de boca aberta. A loura escanzelada do strip tease parou de dançar e foi a correr aos guinchos tapando as mamas descaidas com as mãos e abanando o cu em equilibrio precario em cima das chinelas doradas de salto alto. O cinzeiro grande de loiça que eu estava a usar saltou e foi bater mesmo na cara do outro pescador que estava à minha frente. Boca fechada tromba no chão e dois dentes na serradura. O quarto elemento que ainda estava a segurar nos colarinhos do Manaças, levantou os braços para dizer já chega já chega. O Manaças encolheu-se disse-lhe está bem. Lamentavelmente, não concordei com o Manaças e por isso dei-lhe um pontapé nos tomates que o fez saltar como uma tainha do Sado nos dias de calor. O pescador-agressivo levantou os dois pes no ar e enrolou-se no chão aos nossos pés com os olhos revirados e a vomitar espuma. Não tenho vaidade nenhuma nisso, mas que foi uma linda arrochada lá isso foi!!!
Ainda não tinham varrido os pescas do chão já estávamos na rua das traseiras com três armários deste tamanho cada um com um bastão na mão. Passei do balcão para as traseiras do bordel sem tocar com os pés no chão. Um gajo geneticamente fundido com um empilhadora agarrou-me por trás pelos cotovelos e nem tive hipóteses de meter a cabeçada... comecei a ver a minha vida a andar para trás... Porque sou um homem de paz, preferi o diálogo em vez da violencia. Escolhi a conversa e regeitei a hipotese da lhes bater... perceberam isso. O facto de também serem cabo-verdianos como o Luie ajudou. Os dois contos que cada um dos tres porteiros recebeu, gentilmente doados pelo Manaças, acalmou definitivamente a coisa.
Ja na segurança da rua principal, o Manaças estava verde de medo e peidava-se em voz alta do susto. Não sabia como havia de agradecer. Rapaz calado e tímido, nem sabia o que dizer. Eu lembrava-me dele no liceu como um daqueles marrões que andam sempre a lamber o cu aos professores... O Luie também o conhecia de vista... Explicava que não era hábito ir ali... estava à espera do pai e de outros caçadores que deviam chegar. Não se metia em brigas.
Nós também não nos metíamos em brigas... e por isso era melhor despistar uma eventual perseguição dos pescadores...Decidimos mudar o carrinha do Manaças para a outra ponta da Av. Luisa Todi. Na descrição do golf do Luie esperamos com o motor ligado e luzes apagadas. Os outros caçadores vinham ter com o Manaças à porta do Cravo Azul. O rapaz continuava a agradecer e a fazer conversa para nos agradar. Porque sabia que eu estava ligado ao PC, assumia-se como um convicto comunista. Ao meu amigo Luie, como o tipo é preto, o Manaças dizia que não era racista, e que gostava muito do Bob Marley.
O rapaz desfazia-se em gratidão.
Percebemos que tinha ido parar aquele antro por acaso e queria poder armar-se em duro ao pé do pai e dos outros caçadores a dizer que tinha ido para o Cravo Azul sozinho. A coisa correu-lhe mal. A cena de pancadaria com os pescas foi a maior aventura que teve na vida. Para ele nós éramos assim uma espécie de deuses selvagens a quem era preciso agradar. Se lhe pedisse-nos levava-nos ao colo para a cama da mulher...
Nós percebemos a subserviência o Manaças e se não lhe pedimos a mulher, mal chegaram os outros caçadores na FordTransit perguntamos se também podíamos ir.
Seguimos em excursão. No carro do Luie seguimos o Manaças eu e o próprio Luie. Na FordTransit iam os outros caçadores. A FordTransit rebocava um atrelado enorme com mais 5 perdigueiros.
Quando o sol nasceu estávamos eu e o Luie algures entre Coruche e Aguas de Moura a tomar o pequeno almoço entre 5 caçadores. Quatro cinquentões veteranos da guerra colonial entusiasmados como adolescentes. O Manaças que era filho de um deles. Eu e o Luie destoávamos pela roupa à civil ... os cães fazia a festa à nossa volta e a conversa invariavelmente incidiu sobre a briga. O Manaças fez de nós os dois rambos do Vietname e dos outros mitras vilões gigantescos e armados até aos dentes. Deixamos a historia correr e é sempre fixe quando nos tratam como heróis. Abriu-se mais vinho.
A impaciência dos cães e a minha tesão de experimentar a caçar acelerou o pequeno almoço de chouriço e vinho que provavelmente iria durar ainda mais uma hora.
Os carros ficaram junto a um sobreiro enorme numa estrada de terra batida. Os caçadores mais velhos explicaram a estratégia com riscos no chão e setas desenhadas na terra da estrada. Entramos pela mata e dividimo-nos . Seguimos todos separados excepto os não caçadores. O Luie foi com o Manaças, eu fui com o pai do Manaças. Os outros três foram à nossa direita. Afastados ai um 100 metros uns dos outros formávamos um linha pelo montado a dentro. Por nós não passaria coelho ou perdiz. Os cães corriam e saltavam à nossa volta. Estava frio e humidade. Os campos aquela hora tem sempre uma beleza mística de catedral gótica. Principalmente no Inverno. Orvalho e pássaros a cantarem o despertar. De vez em quando o vislumbrar momentâneo de uma lebre ou de um coelho. Tiros. Devagar íamos prosseguindo em silencio.
O passeio acabou por se tornar monótono para mim que não levava espingarda. Uma hora daquilo chega. Limitava-me a seguir pelos campos um gajo que não conhecia de lado nenhum e com quem não podia falar. O pai do Manaças desde que saiu do carro a única coisa que me respondia era pxiuuu com o indicador cruzado sobre o nariz e a boca.
Quando finalmente chegamos a uma outra estrada de terra batida, juntamo-nos todos outra vez. O tipo que ia na ponta da linha de 5 tinha abatido dois coelhos. O Manaças foi quem disparou mais vezes mas não tinha abatido nada. O Pai do Manaças tinha visto uma três coelhos mas não fez fogo porque não tinha a certeza que matava. Bebemos agua. Eu brinquei com os cães e repreenderam-me pelo barulho. Proibiram-nos de fumar e preparamo-nos para outra sessão de perseguição silenciosa...
Percebi que o Luie estava tão enfastiado como eu... Eram quase nove e meia da manhã e a ressaca começava a pesar...
Antes de retomarmos a nobre arte da caça, o Manaças informou que se ia agachar. Levou a espingarda e afastou-se uns metros entre os arbustos procurando a parte de trás de um sobreiro.
Não tinham passado dois minutos, no silencio da mata soou um tiro vindo dos lados da casa de banho do Manaças.
Fomos ver. O Manaças estava de calças em baixo deitado em cima de um monte de merda a sangrar da sobrancelha.
--- Era uma raposa. Era uma raposa. Não assentei bem a arma no ombro e caí.
Caiu ele na própria bosta mas a raposa não caiu...
Quando percebeu que estava deitado na própria merda mandou-nos embora humilhado. Nós evitamos rir muito muito.
O rapaz voltou passados dez minutos, já com o olho a ficar negro, depois de se limpar como pode, decidiu-se por vir para casa.
Nós não lhe agradecemos. Nem nos importamos muito com o cheiro a merda dentro do carro... eu dormi no banco de traz enquanto o Luie ressonava no lugar do morto do seu próprio carro. O Manaças veio calado o caminho todo e pelo retrovisor ia confirmando que os pescadores de Setúbal não vinham atrás dele.
Cheguei a casa ao meio dia tomei um duche. À uma compareci como pude num almoço de família. Nunca mais voltei à caça.
O Manaças continua a morar no Barreiro, é bancário e de vez em quando cruzo-me com ele. Parece que deixou a caça e se dedicou à pesca. Mas duvido que tenha alguma vez tenha voltado a por os pés no Cravo Azul. Tal como ele eu tambem nunca mais entrei em tão vil casa de putas.
Flatulências a partir de 28/01/2006