sexta-feira, junho 24, 2005

A Roda-da-Morte

Passaram mais de 20 anos mas a cena continua presente na memoria de todos os presentes. Na altura ainda não tinha aparecido a série dos Ficheiros Secretos mas ja se falavam em objectos voadores e fenómenos estranhos. Mesmo no Portugal atrasado dos anos 80 (pré comunidade europeia) já havia curiosos a estudar o paranormal e o inexplicável. Todos acorreram ao local. Nas semanas seguintes à noite fatídica alguns estudiosos da universidade de Coimbra analisaram a estranha chuva, perceberam o que era mas nunca compreenderam a explicação.
A coisa aconteceu em Pombal e mais precisamente na semana do Bodo. A festa do Bodo é no verão e a vila enche-se de emigrantes que vêm de França e da Suiça para passar o Bodo em Pombal e poder exibir o sucesso e a riqueza que na sua terra não conseguiram alcançar. No bodo há concertos de musica popular, há a feira de gado, há o mercado de rua, há carrosséis e carrinhos de choque, barracas do tirinho e 500 mil tabernas improvisadas na rua que rivalizam com as tascas e cafés permanentes
Há 20 anos era uma grande festa. Hoje continua a ser. A grande diferença é que na altura não se chamavam pimba aos cantores pimba e as cervejas pagavam-se em escudos. Para termos uma referencia de época devo dizer-vos que uma imperial custava 15 paus. Pois foi num verão desses, uns vinte anos atrás que tudo aconteceu.
Fui para Pombal com os meus avós mas tinha ja a farra toda combinada com o meu primo. As minhas expectativas eram elevadas. Lembro-me perfeitamente que depois da minha mãe me preparar a mala meti por iniciativa própria uma gillete para rapar o buço junto com a minha escova de dentes.
Logo no dia da minha chegada, ao final da tarde saí junto com o meu primo para irmos à festa. Estava calor e paramos na primeira tasca para beber uma imperial. Tinha bebido umas duas ou três vezes cerveja na vida e a imperial sabia-me amarga e custou a beber. Depois de conseguir empurrar aquele liquido amarelo e gelado para baixo, pedi outra. O meu primo que é uns anos mais velhos recomendou moderação, mas como ele próprio estava decidiu a abusar... não conseguiu ser muito convincente.
Pelo caminho alguém acendeu um cigarro fininho que não era SG Gigante. Também fumei. Nos cafés que iam ficando pelo caminho fomos parando para beber cervejas que me iam parecendo menos amargas e mais rápidas de engolir à medida que o tempo passava.
De casa ao recinto da festa bebemos umas dez imperiais cada. Eu tinha catorze anos e já tínhamos jantado à quase uma hora, o passeio abriu-me o apetite, e o haxixe deu-me fome...
O meu primo também tinha fome. Ambos tínhamos dinheiro e por isso decidimos comprar uma dúzia de farturas – à dúzia era mais barato. As farturas duraram nem 10 minutos. O meu primo comeu quatro e eu consegui enfardar as outras oito. Empurramos tudo para baixo com três canecas de meio litro cada um.
No largo do carrosséis a festa estava em hora de ponta. Mesmo no centro estava a Roda-da-Morte. Mais de 50 cadeirinhas penduradas por correntes desafiavam os presentes com a gravidade. Com a maquina parada, todos sentados ao nível do chão. Com a máquina a rodar, as cadeiras ficam ao nível de um terceiro andar e é como andar de mota a duzentos. A força centrifuga fazia voar as cadeiras e os seus ocupantes até as alturas e depois progressivamente iam abrandando a rotação até trazer toda a gente de volta à terra. Dois minutos de viagem espacial. As gajas davam gritinhos e os cavalheiros paravam as famel na área dos carrinhos de choque e ficavam a ver as pernas penduradas. A Madona comparava-se às virgens em colunas presas aos postes dos candeiros.
Depois de acabadas as farturas, decidimos pelas cadeirinhas.
A roda-da-morte rodou e nós levantamos voo.
O meu primo ficou mais próximo do centro, eu fiquei do lado de fora. À segunda volta a agonia subiu-me à boca e despejei o estômago. Voou o restava do coelho do jantar, mais uns 4 litros de cerveja mais as 8 farturas. Depois no anonimato do ruído da roda-da-morte, escarrei, cuspi e fiquei melhor. Assoei-me aos dedos, limpei as mãos aos bolsos das calças de ganga e quando a roda parou estava recuperado.
À volta toda a gente olhava para o céu estrelado de finais de Julho. Algumas pessoas estavam abrigadas, outras inspeccionavam a roupa molhada. Alguns levavam o indicador à boca provando e comentando: parece cerveja... Os mais religiosos já se tinha ajoelhado e começado a rezar – Fátima é ali ao lado!!
Nem eu nem o meu primo percebemos o que tinha acontecido... mas, pelo sim pelo não, afastamo-nos da roda-da-morte e seguimos como pudemos para os carrinhos de choque. Foi ai que nos falaram do estranho fenómeno da chuva de cerveja.
Bebemos mais.
À noite vomitei na sala. Como não estava em casa e para não sujar os tapetes enchi as duas botas de cano alto de cerveja e ainda e sempre as farturas.Acordei com a rádio local a dar a noticia que tinha chovido cerveja e farturas sobre as pessoas na noite anterior.
A policia tomou conta da ocorrência. A GNR fez a investigação e prendeu o gajo dos carrinhos de choque porque tinha uma matricula falsa na carinha. O governador civil telefonou a perguntar o que raio se andava a passar. Apareceram o Tal-e-Qual, o Correio-da-manhã e o Voz do Arunca. Muitos fotografaram as sobras do fenómeno. Ao inicio da tarde chegaram cientistas da universidade e Coimbra que empacotaram os restos da gosma em saquinhos de laboratório e foram analisar o fenómeno da chuva de detritos biológicos. Perceberam que era composto por farturas cerveja e coelho... mas nunca conseguiram explicar a razão de tão estranha chuvada...
O presidente da câmara disse que a chuva amarela era manobra da oposição para estragar as festas. A oposição disse que tudo não passava de propaganda. Dois médiuns de Vilar de Perdizes falaram em incorporação e ectoplasma. Veio um Ovniologista que disse que o que choveu não era cerveja mas combustível de uma nave espacial. O Sr. Padre da Mata Mourisca disse que aquela chuva era um aviso sobre o pecado da luxúria. As beatas na igreja matriz ficaram ainda mais beatas com medo do diabo.
Claro que eu escondi o segredo. Até agora nunca tinha contado a ninguém o volume da tosga.
A única pessoa que teve capacidade para abranger toda a dimensão do fenómeno foi a minha avó que sempre disse:
“ eles fritam as farturas sempre com o mesmo óleo e as pessoas ficam doentes. O rapaz sentiu-se mal disposto, é natural... Felizmente vomitou tudo, coitadinho!!!”

segunda-feira, junho 20, 2005

O Elias Canibal

Estava calor e humidade. O ar cheirava a gasóleo, a mar, a estufa, a lixo e a fruta podre. As baratas voavam à volta do candeeiro da rua que iluminava e o grelhador com a sua luz amarela. Na cozinha que dava directamente para a rua, a Sicia, mulher do meu amigo preparava o funge e uma salada de tomate picado com cebola e gindungo. Eu e o Luie vigiávamos a galinha no churrasco e emborcávamos minis tiradas de uma geleira cheia de gelo.
Éramos os dois convidados da Paty que era a dona da casa.. A Paty é uma mulata gorda que é a irmã mais velha que a Sicia. Desde quinze anos quinze anos que tomou conta dos irmãos. Nos seus trinta e pouco tem já a postura das matriarcas africanas. Fala calmo e severa e toda a gente à volta naturalmente lhe obedece.
Antes de sair e tinha sido clara:
-- Vou no aeroporto buscar o Elias. Não deixem chegar o fogo na galinha nem fiquem bêbados logo antes de chegar o Elias.
O Luie respondeu com a descentração de quem é especialista em churrascos:
--- Vai na boa que eu mantenho debaixo de olho os dois inimigos: não deixo o fogo chegar à galinha nem o branco chegar às cervejas...
A Paty partiu com uma gargalhada inesperada na sua expressão sempre severa e nós abrimos mais duas minis.
--- Mas quem é o Elias? Perguntei na minha ingenuidade
--- É o namorado da Paty. Namoraram na adolescência lá e não se viram durante uns 12 anos. Continuaram sempre a namorar-se por cartas que foram chegando pelos padres durante a guerra. O ano passado o Paty foi ter com ele à Lunda Norte e o gajo agora vem viver para aqui. É um dos milhões de deslocados...
O Luie foi explicando a historia enquanto despejamos mais umas minis. O Elias foi recrutado pelas FAPLA quando tinha 17 e foi directamente para o Leste. A unita atacou a zona. Por sorte, o Elias, não estava no quartel, mas sim a jogar à bola na aldeia. Por isso os Cuatcha não o mataram logo. Levaram-no para a mata e fizeram-no bandido à força. Durante décadas o recrutamento dos soldados do Sabimbi eram assim... Parece que este Elias passou um bocado...acho que teve de andar a matar à catanada os antigos companheiros de armas... A unita não gasta munição com prisioneiro... Depois ficou com eles mais 7 anos até poder voltar para as Fapla.
-- Foda-se!!!!
--- Então e como é que os gajos do MPLA souberam que o tipo está a dizer a verdade e não era um provocador, um infiltrado??? Um gajo que trai uma vez...
O Luie foi mijar atrás de um carro só para não se dar ao trabalho de ir a casa à retrete imaculada. Com a mini metida no bolso de trás dos calções e de costas para mim gritou:
---Não sei... mas o gajo deve estar ai a chegar e depois perguntas...
Metemos a terceira galinha no sobre as brasas e bebemos mais três minis cada um.
A Quatro L da Paty não tardou.
Ao contrario do Rambo que eu esperava o Elias não tinha físico para apanhar duas estaladas. Era um tipo negro retinto e muito magrinho, enfezado até dizer chega, com uns 55 quilos no máximo. Saiu do carro um pouco dobrado para a frente e trazia com um bigodinho ralo e um olhar triste. Uns ténis nike brancos imaculados a contrastar com as suas calcas de sarja um pouco cocadas. Vinha a dançar dentro de uma camisola do Futebol Clube do Porto tres numeros acima.
A Paty ordenou e o Elias cumpriu:
-- Fica aí com esses dois a beber uma cerveja. O cantanhó é o Luie que vive com a minha irmã mais nova, o outro, o pula é o Riki e esta de passagem. Eles são fixes mas muito abusados com a bebida. Vê se não começas ja a ganhar maus habitos.
Rimo-nos os tres uns para os outros.
O Luie abriu mais uma mini e passou ao Elias
-- Xii dói o dente do frio da cerveja... não tem ai menos fria?? Desabituei de beber cerveja gelada... No mato não tinha agua quase nunca e não tinha cerveja quase sempre...
Fui à cozinha e tirei uma mini da ultima grade que metemos no frigorifico. Estava praticamente morna. Voltei ao quintal com a garrafa na mão. Abri e dei-lha. Como sou um descarado, perguntei-lhe.
-- Olha lá Elias, ouvi dizer que estiveste na mata com a unita e depois voltaste para as Fapla. Como é que convenceste os tipos do MPLA que não eras um provocador nem um espião infiltrado?
O ex-militar olhou para mim e sorriu o sorriso tímido que mostrava os dentes imaculados:
-- Pois camarada, não foi fácil. Mas eu fiquei firme durante os 7 anos até ter a confiança dos chefes Cuatcha. Quando eles já confiavam todo em mim, eu trouxe 12 deles para perto de um quartel dos nossos capturei eles. Foi com a ajuda do feiticeiro deles que pôs todos para dormir. Depois nós dois foi só amarrar eles.
O bruxo ficou a tomar conta dos inimigo e eu fui chamar as Fapla.
As Fapla mandou eu mais o bruxo matar todos os Cuatcha para mostrar que não éramos traidor. E nós fez logo a matança, obrigamos eles a fazer um buraco grande grande e sentar lá dentro e com a granada de mão matamos eles todos e tapamos o buraco no mesmo tempo.
-- E esse feiticeiro que estava contigo? Agora também foi deslocado? Perguntou o Luie
-- Não.
-- Então o que é que aconteceu ao feiticeiro que te ajudou?
-- eu matei ele. Assim que chegamos no quartel, eu matei ele logo mesmo. Com a faca do bruxo cortei o pescoço dele e abri todo ele para tirar o fígado. Era um bruxo mau mesmo porque tinha no fígado muito amargo muito amargo muito amargo. Teve que por uma mão cheia de tempero de gindungo...
Vocês já sabe, quando é uma pessoa boa o fígado não sabe amargo. Quando é uma pessoa má o fígado é muito amargo amargo mesmo.
Nisto a Paty interrompe para nos mandar seguir para mesa. Na sua autoridade de metro e meio, avisa logo que não quer conversas nem de guerra, nem de politica ao jantar. O Elias obediente ainda antes de se sentar pergunta entusiasmado:
--- e o Engenheiro Pinta da Costa continua sendo o presidente do Porto, verdade? ( sem pausas e com o mesmo sorriso tímido prossegue) Carne de galinha é boa, carne de palanca é melhor, mas diz quem sabe que carne boa mesmo é carne humana....
Pela priemira vez vi a sua gargalhada escancarada que passaria a povoar pesadelos.
As mulheres riram da piada que interpretaram como brejeirice de quem tem fome de amor de namorada à décadas.
O jantar continuou animado e não voltamos a falar de guerra nem de politica.
Depois desse jantar passei a evitar comer iscas.
Pessoalmente mantive-me vegetariano durante quase uma semana.
Quando hoje, penso em certos tipos que eu cá sei, até me arrepiam os cabelinhos do cu só de lhes imaginar o sabor do fígado. Nem com um camião de malaguetas...
Flatulências a partir de 28/01/2006