sexta-feira, julho 22, 2005

Nicaraguita



Ay Nicaragua, Nicaraguita

La flor mas linda de mi querer

Abonada con la bendita, Nicaraguita,

Sangre de Diriangen.

Ay Nicaragua sos mas dulcita

Que la mielita de Tamagas.

Pero ahora que ya sos libre, Nicaraguita,

Yo te quiero mucho mas,

Pero ahora que ya sos libre, Nicaraguita,

Yo te quiero mucho mas,

NICARAGUA Foi à 26 anos.

Em 19 de julho de 1979, a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) derrotava a ditadura somozista, por 40 anos encravada no poder, e abria uma página tão inovadora quanto original da história contemporânea latino-americana. A original cosmovisão sandinista baseava-se em um programa simples e humanista de quatro pilares: economia mista; pluralismo político; não alinhamento internacional e transbordante participação popular.

A frase "A solidariedade é a ternura dos povos" indicava um novo sistema de valores – internacionalista para uns, fraterno-universalista para outros. Um quarto de século depois, duas perguntas essenciais nos interpelam: Onde foi parar a Nicarágua? Ainda há lugar para a solidariedade?

quinta-feira, julho 21, 2005

Uma gasosa para dois custa dez contos

Deixamos o chaço a uns 200m do casarão onde fizeram a festa. Ruas largas com arvores crescidas. Praticamente sem transito e muitos carros do corpo diplomático. A embaixada é um palácio num bairro de palácios. Casas ricas encalhadas numa colina da grande cidade de gente pobre. Seguimos a pé nos smoking desviados para o efeito.
Na porta da garagem da embaixada estavam três bisontes de fato azul mais um tipo fardado de almirante que ia abrindo os portões para os espadas entrarem.
Os jardins com a relva molhada gritavam verde e convidavam à sesta. Pássaros a piarem nas arvores e musica cubana a tocar ao longe. O final da tarde ia quente e os bisontes bebiam cerveja escondida.
Eu e o meu amigo Mikas fomos directos para a entrada sem ligar aos seguranças. Ao bisonte que se aproximou o meu companheiro ordenou:
-- Vai chamar o Presença.
Assim mesmo sem “por favor” nem “boa tarde”.
-- E quem que lhe falar ao sargento?
-- Assunto confidencial
A cara fechada do meu amigo, a cor clara da minha pele e os nossos smokings convenceram o bisonte que virou as costas e desceu pela garagem adentro. Os outros dois seguranças pararam com as conversas e com os sorrisos.
Não passaram nem três minutos. Do buraco da garagem reapareceu o bisonte acompanhando um outro homem enorme. Negro, gordo e velho subiu a rampa da garagem com um vigor inesperado num corpo tão grande. Tinha mais de 120 quilos e aparentava 60 anos. Cheirava a whisky, a old spice e suor. Todos os conheciam como o “Presença” e era o chefe da segurança. Foi o guarda costas do embaixador desde os tempo da luta de libertação. Dizem que é quem manda na embaixada. A mim pareceu-me um pugilista reformado.
Quando viu o meu amigo escancarou uma gargalhada gigante e abraçou o Mikas dando grandes palmadas nas costas do casaco do smoking.
-- Comé qué Mikas? Tas bem?? Lá em casa a tua família tá bem?
Mais tossindo com as porradas que levava nas costas do que falando o Mikas ia respondendo. O gigante Presença proseguiu com espancamento carinhoso:
-- O teu pai tá bem? A tua mãe bem? O teu irmão ta bem? E o teu avô como vai o kota? A tua tia Bernice continua com a bunda grande?
Depois dos cumprimentos todos, virou-se para assistência que eram os outros bisontes da segurança, o porteiro e eu:
-- Andei com este menino ao colo desde canukinho!!! Só não mudei as fraldas porque nunca gostei de mexer na merda!!! Sou primo de criação do pai dele que ainda é meu parente afastado, no tempo do colono apanhamos porrada juntos....
E de novo para o Mikas:
-- Xii não via-te à bué!!! Tas crescido mesmo rapaz!!!
O meu companheiro riu acanhado nos seus 20 e muitos com o seu corpo franzino a nadar dentro do smoking.
O Presença focou a atenção em mim:
-- És amigo do Mikas?? pois então tas em casa. --Espreu-me a mão direita no torno enquanto me abanava o corpo todo sacudindo o meu braço -- E que querem vocês aqui do kota Presença?
-- Queremos falar contigo assunto confidencial tiozinho — respondeu o Mikas
-- Então venham no meu gabinete.
Atrás do Presença descemos pela rampa e atravessamos a grande cave que era a garagem da embaixada. Tamanho de ginásio com o tecto baixo escurecido pelos escapes. Estavam pelo menos uma dúzia de carros estacionados entre Mercedes e Audis... o Presença abriu uma porta de metal a um canto que nos fez entrar por um corredor Ao fundo umas escadas, à direita cacifos, à esquerda bancos corridos. Depois dos bancos outra porta de madeira. Entramos no gabinete.
Estava frio e escuro. O ar condicionado mantinha a temperatura próxima dos 8 graus. A penumbra escondia os cantos da divisão. Em cima da secretaria uma garrafa de JB e dois copos arrumadas dentro da bandeja. Na parede a bandeira do seu país e uma fotografia mostrava o Presença mais o embaixador. Os dois mal fardados de guerrilheiros de AK ao ombro e ósculos escuros no rosto. Sorrisos cançados e satisfeitos, na fotografia uma data marcava 27-4-1974. Cada um deles com menos 30 quilos. Nas costas da porta fechada do gabinete uma qualquer miss playboy 85 mostrava as mamas.
O Presença sentou-se atrás da secretaria recostou-se na cadeira com um suspiro. Olhou-nos directo nos olhos.
-- Então o que é que querem de mim?
-- Queremos ir nesta festa hoje.
-- Tá complicado. Meter penetra na ultima hora é difícil... hoje não tem muita gente oficial e penetra pode dar nas vistas.
O Mikas argumentou:
-- Mas nós viemos de smoking e ele é branco.
-- Bem, atendendo a quem és pode arranjar-se a entrada.
(Eu nem acreditava no que ouvia. Nunca pensei que fosse possível passar sequer pelos portões da embaixada... quanto mais ir para a festa oferecida ao corpo diplomático dos outros palops. A musica chegava através de uma janela de vidro martelado que junto ao teto deixava entrar a luz escassa do final da tarde.
O Mikas tinha-me falado na cena três dias antes. “Só precisamos de arranjar um smoking e pagar a entrada....lá dentro tens comida, bebida musica cubana ao vivo e gajas ... tudo à espera que te sirvas!!!!”
Achei difícil mas claro que lhe disse que sim.)
No gabinete do Presença a voz do Mikas soou directa:
-- e quanto é para a gasosa?
-- são 20 dólares tu que conheço e 30 dólares o pula que é teu amigo.
O Mikas indignou-se:
-- O quê?? 50 americanos para entrar numa festa? Isso dá direito a quê??? A comer a filha do embaixador???
À minha memoria vieram as fotografias da rapariga...Fiz as contas e até achei barato, Comer a filha do embaixador por 10 contos.
-- Olha Mikas vou falar directo que não sou homem de rodeios: Na realidade eu até nem posso fazer isto... Mas por seres quem és e filho de quem és eu faço este favor de olhar para o lado enquanto tu passas... Nesta festa quase toda metade é penetra de bilhete pago para os funcionários que fazem os convites. A outra metade são raparigas a trabalhar para fazer companhia. Os poucos que são convidados mesmo dos convites ofericidos não comprados. Se eles nota os penetras depois há queixas. Cinquenta dólares para a gasosa já nem uso mais... desde que estou aqui na embaixada que eu faço as minhas gasosa por 100 americanos. Se queres entrar, entra logo. Se não tens dinheiro agora ficas a dever e depois pagas... mas não dá para fazer desconto.
Percebemos a mensagem. Pagamos logo porque o Presença não é o tipo de homem que um gajo goste de ficar a dever dinheiro. Pagamos a conta e seguimos desiludidos de não sermos convidados para o whisky .
O Presença levantou-se e acompanhou-nos à porta do gabinete.
-- Já sabem se alguém perguntar quem são vocês respondem que é confidencial. Se por azar o embaixador vier falar convosco vocês dizem que são convidados do Sargento Presença. Mas isso é impossível porque o camarada embaixador não vai fazer perguntas...
Voltamos para o corredor e subimos a escada que dava para o jardim. A banda tocava boleros. Alguns casais dançavam abraçados. Mesas dispersas pelo jardim e grupos a conversar e a rir. Gente preta, branca e mulata. Os criados vestidos a rigor passeavam com bandejas com caviar e champanhe.
-- Não tens wiskie? -- Perguntou o Mikas
-- Os senhores convidados têm que ir ao bar buscar. – Respondeu o mordomo
-- Então traz para nós uma garrafa de JB com um balde de gelo. E queremos uma mesa aqui no jardim virada para o palco. Anda rápido.
-- E quem pede? Tenho de falar com o meu chefe...
-- Segurança do estado.
Um minuto e 26 segundos contados no cronometro do Mikas durou a espera. Perdi a a aposta dos tres minutos que apontei como tempo mínimo para trazerem a mesa. Uma equipa de cinco empregados fardados trouxe a mesa de ferro branco e mais duas cadeiras. Um balde de gelo. Uma garrafa de JB e camarões grelhados.
A noite caiu sem darmos por isso. A musica convidou a dança. Muitas mulheres jovens e bem vestidas. Algumas traziam o rotulo PUTA que se lia à transparência dos vestidos caros. Noutras mulheres a função não era tão evidente.
Depois da primeira garrafa vieram outras. À nossa mesa juntou-se o maestro cubano da banda. Mandamos vir uma cadeira para o homem e ficamos a recordar havana. Acenderam-se puros para afastar os mosquitos.
Lá mais em baixo as luzes dos barcos de pesca reflectiam pequenos pontinhos sobre a agua. Uma duvida etilizada surgiu em forma de barco e por momentos pairou sobre a nossa mesa: Atentando nas lanternas reflectidas nas aguas lá em baixo, não conseguíamos dizer se eram pescadores da Costa da Caparica ou da Ilha do Mussolo.
Embriagado pela salsa, cansado e satisfeito pelo whisky desisti de tentar reconhecer a cidade onde estava: Lisboa ou Luanda? Que se lixe!!! Quando um gajo tem às costas os interesses da segurança do estado, que importância tem a geografia?

segunda-feira, julho 18, 2005

O Mandela deitado no chão

Sobre o amor desmedido

Tenho 33 anos e sempre quis ter um cão. Só em 2004 consegui atingir esse objectivo. O Mandela é o meu primeiro cão.
Fui buscar o gajo quando era cachorro de quinze dias. Cambaleava com as patas curtas e a barriga roçava-lhe o chão. Levei-o para casa numa viagem de duas horas. Foi ao colo da Blimunda durante o caminho todo. A minha companheira tinha dito que não gostava de cães, depois dessa viagem não consegue olhar para um cachorro sem ir a correr fazer-lhe festas.
Pensamos em dar-lhe o nome de alguém que ambos admirávamos. Eu quis chamar ao cão Kadafi. A bacana queria chamar-lhe Gandi. Quando vimos o cão, e porque é preto decidimos chamar-lhe Mandela.
Quando chegou a casa era tão pequeno e desajeitado que não conseguia subir o degrau que separa a cozinha da sala.
Andou de diarreia a plantar minas anti-pessoais de merda no chão da cozinha... um gajo levantava-se de manhã e com a luz difusa da madrugada tinha de avançar devagar a escolher bem os sítios onde pisava, não fosse o pezinho descalço derrapar na trampa... Antes do duche e do pequeno almoço era preciso limpar a trampa. Com xaropes, comprimidos, trabalhos, carinho e persistência conseguimos tratar o cão.
O Mandela tornou-se um cachorro grande e desajeitado que saltava efusivamente para cima de todas as pessoas.
Aprendeu a cagar e a mijar na terra do quintal. Aprendeu a pedir com a pata esquerda no ar, porque a direita é dos fascistas.
No ano passado na praia vivemos cenas dramáticas e hilariantes. O Mandela a trespassar o Expresso de um desgraçado que tentava ler o jornal curtindo a praia do Carvalhal sábado de manhã. O bacano sentado com o caderno internacional todo escancarado em frente ao focinho besuntado de creme e o cabelinho puxado para trás como o Santana Floopes. O cabrão do cão a fazer o numero dos leões do circo: Taruz – através do jornal a dentro como se fosse um arco de fogo. Claro que não me pude rir na altura e tive de pedir desculpas e armar-me em duro com o cão.
No mesmo dia percebi aquela historia da sintonia de pensamento entre o cão e o sue dono... Por cinco ou seis vezes consecutivas, sempre que se conseguia soltar, o Mandela voava como uma seta direito para as mamainhas de uma inglesa que a uns escassos metros de nós assava os seios brancos ao sol alentejano.
Ainda cachorro percebemos que praia com o cão só no Inverno.
Nas primeiras vezes ladrava para as ondas e escondia-se atrás de mim. Obrigava-o a vir ao banho comigo assim que passávamos a zona da rebentação soltava o Mandela que navegava para terra como uma traineira carregada de sardinhas... depois chega-se ao chapéus de sol e sacudia-se molhando metade da praia...
O Mandela continuou a crescer. Nas praias do Barreiro habitou-se a entrar pelo rio a dentro para tentar apanhar gaivotas. Chegava ao pé de mim sujo de lodo e encharcado e demonstrava o seu afecto tentando derrubar-me com as patas da frente. Eu que não sou propriamente um gajo enfezado e em tempos dei aulas de judo, mas houve situações em que tive de fixar bem os calcanhares no chão para que o cabrão do cão não me derrubasse.
No quintal desenvolveu o instinto de guarda. A correr atrás dos gatos mandou a baixo um vedação de madeira que teve de ser reconstruída com cavilhas de navio.
Em casa comeu um pufe que eu tinha trazido de Marrocos. Cheguei a casa à noite e encontrei o que sobrava do pufe desfeito no chão e o cão escondido de baixo do sofá. Passei-me e bati-lhe a sério. Como se batesse noutro gajo, levantei-o com a esquerda e dei-lhe socos com a direita.
A Blimunda chorava e o cão gania.
Noutra noite em que ficou sozinho, por rebeldia arrancou as costas ao sofá da sala.
Outra vez que lhe bati feio foi quando o cão, fez cair a minha avó para poder lamber-lhe a cara.
No Inverno íamos juntos correr para a mata. O cão parava para cagar e eu escondia-me para ver a reacção dele. O parvalhão em vez de me procurar ficava a ganir com seu tamanhão de burro porque tinha deixado de me ver. Quando eu assobiava voltava a correr para mim a abanar o rabo de contente.
No Meco, se o meu filho de 8 anos se afasta do chapéu de sol, o Mandela vai logo atrás dele para tomar conta do puto.
Quando algum de nós vai tomar banho o cão fica a vigiar não vá ser preciso vir salvar-nos de morrer afogados. Seja no mar ou na banheira lá em casa.
Se eu estou sentado no sofá, o Mandela deita-se aos meus pés.
Se eu digo: “Onde é que anda o fascista??” O Mandela levanta-se a ladrar e a rosnar e faz a ronda à casa à procura do inimigo...
Se eu digo: “Faz de puta!!”, o Mandela deita-se no chão e abre as pernas.
Quando alguém entra lá em casa o Mandela salta em cima dos convidados e quase derruba as pessoas na sua alegria de ver gente.
Quando alguém sai lá de casa o Mandela leva os convidados à porta e fica a ganir por ver as pessoas saírem.
Sobre amor:
Tenho uma família grande que me ama e que amo muito. A Blimunda minha companheira amada. O meu filho tem 9 anos e quer ser vocalista de uma banda de hip hop. A Ginga Catarina que ainda não nasceu mas já vem a caminho. O meu pai e minha mãe que muito me aturaram sempre. Tenho duas avós que moram no meu bairro que competem para me agradar. Tive um avó que me contava historias ao colo enquanto andávamos de comboio. Tenho um avô que adora passear comigo para poder mandar bocas às gajas que passam na rua.
Tenho bons e velhos amigos.
Fui casado. Fui ajuntado. Fui adultero e voltei a adulterar. Tive namoradas e amantes.
Considero-me um tipo bem amado, mas nunca, nunca ninguém me demonstrou um amor tão incondicional como o Mandela.
Que me desculpem os amigos e a família. Que me desculpe a mulher e os filhos. Que me desculpem as minhas avós, o meu avô e o meu pai. Não vos esqueço nem vos amo menos
Que me desculpem a cambada de leitores vagos deste blog de merda, ranho e chinada.
Não deixo pensar em todos vós e nem deixo de estar atento às historias javardas que possam acontecer...
Infelizmente neste momento estou completamente preocupado com o cabrão do cão que tem de ser operado para lhe tirarem um filha-da-puta de um osso que está entalado no intestino. Vamos ver se o gajo se safa para poder continuar a ir comigo no Inverno correr a trás das gaivotas nas praias do Tejo.
Flatulências a partir de 28/01/2006