quinta-feira, setembro 08, 2005

O pai dos filhos do Mobutu

A tasca continua sebosa e com serradura no chão. Foi há oito anos mas lembro-me bem. Estava calor lá fora e na sombra fresca do interior sabia-me bem estar a beber cerveja e pensar na vida. Frequentava o bairro por razões pessoais que agora não interessam. Branco e sozinho era chamariz para as putas e para todos os tipos artistas da banhada. Um bêbedo mais persistente puxou da cadeira e preparava-se para se sentar na minha mesa. Era um homem enorme e velho mas não tinha maldade nos olhos. Achei-o inofensivo.
-- Tu sabe quem é o Mobuto Sese Seko? Eu conhece bem ele. Se quer que lhe conte a verdade mesmo, paga uma cerveja.
O velho bêbado prosseguiu entre as gargalhadas do patrão da tasca que gozava o prato do “este-ja-enganou-outro”... fingi que não ouvia o velho.
-- Eu não sou o Mobutu.. Mais sou o pai de todos os filhos do presidente Mobuto. (pausa e soluço cambaleado para a frente) come que pode? Pode porque pode e é verdade. Eu vai lhe contar só já logo logo.
Se há coisas a que tenho dificuldade em resistir, uma boa conversa de bar é uma delas... como tinha ainda algum guito no bolso pedi mais duas cervejas:
-- Dá mais uma para mim e outra aqui para este mais-velho!!
A cerveja chegou à mesa e em silencio pegamos nas garrafas geladas. Quando olhei o velho pela primeira vez pareceu-me sujo e esfomeado. Erro no diagnóstico... afinal o homem tinha era sede. Percebi isso pela forma como emborcou a média inteira num só golo. Uma verdadeira goela de pato.
Como não sou gajo de me ficar atrás , também eu emborquei a minha cerveja. Já meio grogue do calor das duas da tarde, disparei:
--- Então tu és o soba Mobuto? Deves estar disfarçado de bêbado... muito prazer, eu sou o Patrice Lumumba disfarçado de branco e ali o cantanhó atrás do balcão é o Techombé disfarçado de taberneiro.
--- O quê?? Você não me acreditas? Pois podes acreditar mesmo. O pai dos filhos do presidente Mobuto é o mesmo pai do meus filhos que é eu mesmo na minha pessoa!!! Feitinhos todo por mim Diamantino da Purificação, nome de casa Gigantiau. Filho negro de pai branco em mãe preta. Pai português merceeiro e mãe preta terceira esposa. Nascido em Lisala. (soluço)
Tu sabe onde é Lisala? É a terra mesmo do presidente Mobuto terra do Congo. Sou mais novo que o Mobotu sete anos e conheço ele desde que conheço eu mesmo.
Percebi que a conversa podia ser ainda mais interessante se fosse mais molhada. Mandei vir mais duas. Ao mais-velho e dei-lhe corda para falar:
-- Pronto está bem. Você é da terra do Mobuto mas isso não faz de si pai dos filhos dele.. como é que a coisa aconteceu?
-- então?? Tu não sabe que o Mobuto tem doença no pilão? Falta força nele para cobrir mulher e por isso não pode faz filhos. Ele com trinta anos já força não tinha mesmo. Quando percebeu doença que tinha os bruxo disseram que não tinha cura. Se quer filho vai procurar quem conhece que fode forte. Só assim pode para engravidar as esposa dele... Como o Mobuto conhecia eu desde que nasci e sabe que eu desde canuquinho tem saúde e força muita para fudê mandou chamar eu. Eu foi e nós fez trabalho com bruxo.
Eu vai dizer-te: eu e Mobuto fizemos segredo juramento com terra dos mortos mais velhos. Teve de jurar que não falava nem eu nem ele pra ninguém mesmo. Então fiquei viver no palácio dele. Tinha falta de mais nada porque o Presidente dava tudo pra mim.
-- E agora ficaste bêbado e sem tesão e o gajo pôs-te a andar... – cortei eu , para ter um bocadinho de descanso nos ouvidos.
-- Negativo Camarada. Negativo. O Presidente Mobutu só rompeu o trato porque arranjou amante do Catanga cheia de maldade dentro do peito e também bruxa.
O silencio voltou a cair dentro do tasco. Na rua passavam camiões levantando poeira. Ficamos calados a ouvir as moscas a fritar na resistência azul durante uns segundos. Pedi mais duas ao cabo-verdiano.
-- Eu conta-te tudo porque presidente desfez a jura. Eu sempre cobri as duas esposa e as três amantes dele com força certo. Todos os anos enchia elas cinco com filhos feito por eu. Filho homem crescido tem 18 e mulher crescida tem 12. Não conta os que morreram pequeno nem os netos porque é muitos.
Então presidente Mobutu arranjou amante para fazer politica. Arranjou amante parente de falecido Tchombén e queria que eu engravidasse ela para reforçar a aliança com a gente do Catanga. Só que a mulher amante do presidente tinha doença forte dentro do barriga e criança que eu punho lá dentro não agarra!!! Então presidente levou mulher nos médicos brancos e nada. Levou na magia e nada. Todos disseram-lhe o mesmo: que a doença é na barriga do mulher. Então eu disse nele: Querido presidente, porque você não mata essa mulher que barriga não cresce e faz desaparecer ela no tanque de acido que ferve sem fogo?
O presidente não gostou que eu falasse no tanque do acido que ferve sem fogo e mandou os segurança baterem em eu. Como Gigantiau não gosta de apanhar vim embora nesse dia e tenho andado sempre sempre só no mundo.
O taberneiro, ja também ele interessado na conversa, perguntou:
-- Olhe lá mais-velho, depois o Mobutu não mandou dar-te caça e apanhar?
-- Não porque ele sabe que fica doente e morre se eu morre. Nós dois está ligado por magia muito forte. Magia da Nigéria.
Pedi mais duas , meti uns trocos nas mãos do velho e saí para o calor e para a minha vida. Não liguei mais para o pai dos filhos do Mobuto.
Semanas mais tarde estava reunida uma multidão à porta da tasca do cabo-verdiano. Um camião parado e um corpo com farrapos imóvel no chão. Está morto. Assim deitado no chão ainda parecia maior. O motorista do camião disse que não teve hipóteses de parar. Os populares concordaram. Estava completamente bêbado, diziam.
Fiz o que tinha a fazer no bairro, fui para casa e não pensei mais no velho.
No dia seguinte de manhã a RDP Africa anunciava que o Mobutu Sese Seko tinha morrido nessa noite vitima de cancro na prostata.
Isto aconteceu em Setembro de 1997 e estava um calor do caraças. Assim como hoje.

quarta-feira, setembro 07, 2005

Grande Verão


Lembro-me de ser puto e fugir de casa pela hora do calor enquanto os meus avós dormiam a sesta. Abria cuidadosamente a porta que dava para o beco e com os outros rapazes lá da rua íamos para a lota . Completamente vazia aquela hora a sacar a agua do mar e o sangue do peixe sobre o sol das duas da tarde... Roubávamos caixas enormes de esferovite ainda sujas de escamas e com as nossas navalhas de crianças –lobos-do-mar recortávamos pranchas de surf. Já pela tarde dentro quando finalmente tínhamos ordem de correr para a praia montávamos o esferovite nas ondas do levante. Só saía dentro de agua para ver chegar os barcos da pesca. À noite comíamos farturas. Foi a idade do ouro.
Depois veio a adolescência e os verões nunca mais souberam ao mesmo. Com a vida adulta o problema agravou-se: um gajo vai de féria e volta sempre mais cansado do que quando as férias começam...
Este verão foi diferente.
Para ser honesto não fiz nada de especial. O trabalho obrigava-me a ter férias em Agosto. A gravidez da minha companheira impôs-nos algumas limitação. Nada de grandes viagens de carro nem viagens de avião. Tivemos de optar por coisas simples: praia/mar família, amigos e peixinho!!!
(Longe vão os tempos de sexo drogas e rock e role no litoral alentejano...)
Neste verão voltei a tentar fazer surf. Acampei com o meu filho de 9 anos que me permitiu dormir num mar de champô derramado dentro da tenda. Alguns amigos vestiram um o fato de surf ao puto e meteram-lhe uma long board nas unhas... para compensar ensinaram-lhe tudo quanto é caralhada rebuscada e a cuspir entre os dentes da frente.
Tive jantares a dois apaixonados ao luar da Andaluzia.
Fiz almoços e jantares com a família.
Fiz o que de melhor um homem pode fazer na vida. Fui apanhar conquilhas com Fala-grosso com a Ana e mais o cão Elias.
Voltei a comer no Primo Xico com amigos do peito. Estive nas Musicas do Mundo. Nadei em piscinas e no Tejo.
Nadei no mar da Costa, da Fonte da Telha, do Meco, da Caldeira, de Tróia, da Comporta, do Carvalhal, de Melides, de Porto-Covo, do Malhão, de Vila Nova, da Zambujeira, da Meia-Praia, do Alvor, da ilha de Tavira e da Manta-Routa. Comi bifanas ao pequeno almoço na praça de Setúbal e depois fui apanhar lingueirão com o Tórelato. Matei mosquitos com o Krinas na ilha. À distancia acompanhei a viagem da minha irmã e do meu cunhado para lá do Atlas. Partilhei discursos políticos e receitas de marisco com a R Granel. Voltei a mergulhar na luta do partido desta vez nas autárquicas.
Fui à Beira Baixa bebi e opinei sobre vinhos e bagaceiras caseiras.
Estive na festa do avante,
Em fins de tarde eternos acendi o lume e cozinhei caldeiradas partilhadas em tribo. Puxei as redes e comi o peixe.
Comprei um carro com 20 anos. Comprei uma edição rara do Opus Pistorum do Henri Miller por mil paus.
Este verão é dos que ficam.
Desde os tempos remotos da minha infância que não tinha um verão tão feliz.
Parece que o país ardeu entretanto.
Flatulências a partir de 28/01/2006