sexta-feira, outubro 07, 2005

O Sá da Bandeira, a Preta Fernanda e um Milagre no Cais do Sodré


Ao lado do mercado da ribeira está um jardim quadrado chamado Praça D luís I. É um espaço relvado com algumas palmeiras e onde os pombos cagam num homem de pedra fardado de General. Quem se der ao trabalho de ler a placa percebe que o bacano é nem mais nem menos que o Marques de Sá da Bandeira. Com a sua perna de pau e um estandarte na mão ali fica o dia todo a olhar para o sul e ver partir os comboios para Cascais. Aos pés do marques está um leão adormecido e a figura da Liberdade meio despida com um bebé ao colo. Mais ao sul, passando o Tejo, o Alentejo, o mar Atalntico e o Equador, está outra estatua do mesmo gajo. Desta outra estátua do mesmo Marquês de Sá da Bandeira resta apenas um corpo decapitado (e muito bem). Na febre nacionalista de 1975 o marquês perdeu a cabeça mas o corpo mutilado continua no jardim Hodji Aohuenda no Lubango, cidadezinha do interior cujo o nome colonial foi Sá da Bandeira. Em Angola, mais mutilado menos mutilado, não faz diferença.
A cidade de Lubango teve o nome do gajo que ainda hoje tem estátua em Lisboa porque o senhor Sá da Bandeira foi um acérrimo defensor da causa colonial. Na opinião deste militar tornado marquês, o caminho do desenvolvimento português passava por Africa. O homem conheceu Angola e Moçambique e ficou impressionado com o potencial. Mas fez as contas e percebeu que faltava mão de obra...no inicio do século XIX Angola estava despovoada por três séculos sucessivos de raptos como negocio. Depois de muito pensar e de se comparar com o ingleses o Sá da Bandeira achou que se devia proibir o trafico de escravos. Mais por razões económicas do que por razões humanitárias, o marques foi um abolicionista convicto. Uns tempos depois deste gajo ter baicado, quando o Brasil era já independente e não interessava à coroa continuar com o comercio de escravos, aprovaram a lei que acabava com a escravatura oficial e fizeram um estatua ao homem.
E o que é que esta conversa de José Hermano Saraiva de subúrbio tem haver com o milagre.
Já lá vamos....................................................................................
Antes vou falar-vos da Preta Fernanda.
Chama-se Fernanda e foi prostituta em Lisboa no inicio do Século XX. Digo “chama-se” e não “chamava-se” porque ainda hoje passo por ela todos os dias. Todos os dias, duas vezes por dia levanto minha cabeça para lhe tirar as medidas.
Esta Fernanda do Vale, nasceu em Cabo-verde em 1862 e morreu já na republica. Negra, muito bela e instruída, foi amante de metade da Lisboa intelectual do virar do século. Parece que ficou viúva muito cedo, ainda com menos de vinte anos. Sozinha e sem recursos numa cidade longínqua pôs o corpinho a render. E que corpinho. Viveu com artistas e fez a cama com ministros. Vestiu-se de oudalisca e dançou para principes. A cavalo lidou touros em Cascais. O Eça levava a Preta Fernanda para os camarotes do Teatro Trindade para provocar a má lingua das damas de sociedade e dos jornalistas do bairro alto. Dizem que cantava o fado ao piano e que com uma navalha na mão ninguém se chegava ao pé dela. Num País que era paisagem e numa Lisboa que era o Chiado ficaram famosos os escândalos da Preta Fernanda.
Depois do ultimato ingles e da captura do Gongonhana o nacionalismo colonialista estava em alta e decidiram fazer uma estátua ao marques de Sá da Bandeira mesmo ao lado do recem inaugorado Mercado da Ribeira. O escultor designado pelo ministério para fazer a obra, um artista efemero -- como todos os autores de regime, andava enamorado pela Preta Fernanda e muito naturalmente escolheu a escultural negra como modelo para a figura da Liberdade. Com grilhões nos pés e um criança nos braços esta Liberdade de bronze mostra um peito perfeito e uma boca com uns lábios carnudos que marcam bem a sua origem africana. Sempre que passo à frente da Preta Fernanda dou por mim a admirar-lhe o mamalhal........................................................................
E agora o Milagre:
O Cais do Sodré já não é o que era. Eu que ando por aqui e bem vejo como as coisas mudaram.
As tabernas estão fechadas ou transformadas em pastelarias. As casas de penhores desaparecerem e deram lugar aos Cash converters. O Xangerilá tem as portas entaipadas. O Jamaica esta cheio de intelectuais do bloco de esquerda. O Texas já foi tomado pelas ucranianas. As putas toxicodependentes morreram todas. Os chineses abriram bazares. Onde havia lojas de aparelhagem marítima agora estão bares para gente séria. Enfim ... isto está uma desolação.
Mas os milagres acontecem.
Hoje, cedinho de manhã, enquanto caminhava apressado ainda meio etilizado de cerveja e emoções do comício da noite, cruzei-me com uma senhora grande que nos seus 50 anos e com hálito de grogue me disse:
-- anda cá fofinho que eu faço-te tudo....
Não sou pessoa de ligar a putas bebedas mas através do reflexo da montra da mercearia percebi quem era. Voltei-me e encarei a mulher de frente. Nos seus quarenta e muitos, negra de seios grandes e mini-saia de lantejoulas, tinha os olhos amarelos daqueles que ainda não dormiram. Na mão uma garrafa de agua das pequenas com aguardente de cana la dentro. Ali ficamos uns segundos olhos nos olhos: eu e a Preta Fernanda. Foi ela quem quebrou o silencio:
-- então filho, vamos para a pensão?
Como estava atrasado para o escritório recusei o convite dizendo que tinha uma espera de touros lá para o campo grande. Ela deitou a cabeça para trás numa gargalhada e eu segui o meu caminho desviando-me das tipoias e das cavalgaduras.
Agora digam lá que os milagres não acontecem.
Flatulências a partir de 28/01/2006