quarta-feira, novembro 23, 2005

O militar no correio para o algarve


Domingo à noite. Cheguei à estação já passava das onze e um quarto. O horário dizia que o comboio partia às vinte e três e vinte e dois. Corri para a bilheteira tropeçando nos turistas que encasulados nos sacos cama se preparavam para dormir. A mochila ia cheia com alguns livros e pouca roupa. Era verão e o calor acentuava o cheiro a lodo da maré vazia. Na estação antiga do Barreiro os comboios partiam quase dentro de àgua.
-- Para Tavira , segunda classe faz favor.
Foi entrar no comboio e o apito soar.
Agosto. O Comboio correio. O meu comboio favorito. Quase nove horas de balanços e paragens em todas as estações e apeadeiros entre o Barreiro e Vila Real de Santo António. O amanhecer a chegar do lado de Espanha a modificar a cor do céu entre o preto e o amarelo. O nascer do sol de verão enquanto o comboio segue para o sul. Turistas de pé descalço, militares e bandidos à babugem. A loucura sobre trilhos de ferro. Liberdade patrocinada by CP. Estrada de ferro para o sul.
Tinha 17 ou 18 anos e sentia-me livre. Os balanços do comboio a passar na escavadeira aumentaram o cambalear do meu andar etilizado. Quase caí por cima de três turistas australianas. Pareceu-me um bom sitio para cair... preparei a mochila. Uma das raparigas de mau humor desviou o saco para eu me sentar. Uma bíblia protestante encadernada a preto a sair da mala de mão da mais velha fez-me mudar de ideias. Se não ia haver bacanal, ao menos que não houvesse catequese. Com este pensamento elevado segui entre as sacudidelas do comboio.
Duas punks espanholas sorriram para mim. A mais simpática não tinha dentes à frente. Demasiado javardas pensei eu armado em snobe. Segui aos tombos pelo corredor.
Na ultima carruagem parcamente iluminada um tipo fardado acenou para mim. Só metade das luzes da carruagem iam acesas. Não me lembrava do gajo.
-- Riki!!! Riki!!! Abanca aqui pá!!!
Afinal conhecia vagamente o rapaz fardado. Morava três ruas abaixo da minha. Estava sentado sozinho num banco para duas pessoas. Tinha o saco verde da tropa debaixo das pernas e os pés calçados com as botas pretas obrigatórias que ocupavam o corredor. O banco frente estava livre. Atirei com a mochila para o banco desocupado. Saltei por cima das botas do tropa e de uns alemães freaks que já se tinham deitado no corredor. Finalmente abancado. Descalço-me e deito-me por cima da mochila.
Feitos os comprimentos habituais, percebi que o meu conhecido estava na tropa em Beja e que ia apresentar-se no quartel às seis da manhã. A conversa seguiu com as trivialidades comuns na oratória dos militares. Antes de chegarmos a Setúbal já estávamos a beber de uma garrafa de bagaço que o soldado tirou do saco. Demasiado simpático, demasiado delicado, pensei. Que se lixe, o bagaço é bom.
Continuei a beber. Para ser honesto estava a beber desde as 3 da tarde. Ao nosso lado alemães sacaram de uma guitarra. O meu companheiro de viagem mandou os tipos irem tocar para longe. A farda intimidou os alemães que obedeceram. O Tropa continuou com as suas historias desinteressantes de proezas físicas e durezas pseudo-masculinas.
As canções de protesto em alemão cantadas em sussurro, as historias da recruta , o bagaço e mais o balanço do comboio tudo junto é melhor que qualquer comprimido para dormir.
Lembro-me que ainda pedi desculpa ao militar... mas que estava a cair de sono.
-- Dorme um bocado que eu também vou dormir – disse o gajo na sua simpatia formal.
Depois levantou-se e desmontando plástico da carruagem conseguiu apagar a lâmpada que por cima de nós dava uma claridade amarela. Ficamos na penumbra quase completa. Com a escuridão interior as luzes do Alto Alentejo tornaram-se ainda mais brilhantes.
Para me proteger do vento da noite que entrava fresco pelas janelas escancaradas tapei-me com o meu velho casaco de camurça. Verifiquei que a eterna carteira de cabadal continuava presa ao pescoço por baixo da t-shirt junto ao corpo. Com a mão voltei a sentir dureza do aço da navalha que trazia no bolso das calças de ganga. Depois, quase imediatamente, adormeci profundamente.
Sonhei. Sonhei com gajas. Sonhei com as australianas. Estavam vestidas com túnicas bancas numa especie de baptismo protestante. Eu estava nu. As túnicas molhadas pela agua de um rio calmo mostravam os corpos brancos à transparência. Riam para mim enquanto me davam banho. à nossa volta casais copulavam nas aguas tépidas. As australianas da primeira carruagem lavavam-me a pila à vez. Um sonho real. Tremendamente real. Demasiado real.
Entreabri os olhos e percebo que a mão que me mexe nas calças de ganga por cima da braguilha não é de uma australiana devota. Em vez de ser eu a perverter uma menina religiosa é um soldadito pervertido a querer perverter-me a mim!!!!
Debaixo do corpo tenho quinhentas mil molas que me fazem saltar. Quase bato no teto.
Grito bem alto : Foda-se!!!!
Quésta merda ??!?!?! A minha voz soa no silencio da carruagem.
Os alemães mandam-me calar. São cinco e trinta e seis.
O soldado recolheu e mão debaixo do seu casaco verde. Bem a propósito , virou para mim o rabo e fingiu que estava a dormir.
Não quero ficar ali nem mais um segundo. Meto o casaco na mochila, calço as sandálias à pressa e piro-me daquela carruagem. Antes de abancar no bar, vou mijar para me passar o inchaço.
Mais calmo enquanto fumo um cigarro de pé encostado ao balcão oiço o empregado contar historias inverosímeis sobre caça. O revisor , um negro simpático também se juntou à festa. Pediu sagres e desmentiu sistematicamente todas as afirmações do caçador. Seguimos até Tavira a rir e a beber cerveja.
O Algarve continuava igual a si. Quando chega Agosto, fica tudo cheio de bimbos e novos ricos a exibirem as férias como exibem as pulseiras de ouro, os carros e as roupas de marca. Tavira estava no mesmo sitio. Em mim, o sol da manhã limpou a ressaca da noite. Peixe assado em família. À tarde a ilha e a sua fauna. Libertárias holandesas, erva, amor livre, sangria e guitarradas na praia. Banhos de sol e mar.
Não voltei a andar no comboio correio.
Só anos mais tarde revi o ex-soldado que felizmente fingiu que não me conhecia.
Nunca mais adormeci em comboios e desconfio sempre da simpatia dos militares.
Flatulências a partir de 28/01/2006