quarta-feira, novembro 30, 2005

Prisiricolga


“Em Luanda aprendi o oficio de puta mas em Lisboa aprendi de prisiricolga!!!”
Quem fala assim é uma das minhas companheiras dos café da manhã aqui na rua de São Paulo.
Numa das esquinas do largo há uma leitaria velha e suja quem vende bolos de padaria e é onde as putas tomam o pequeno almoço. Quando venho trabalhar demasiado cedo para comer no barco, costumo parar por ali onde as pessoas que trabalham de noite se cruzam com as pessoas que trabalham de dia. Taxistas em fim de turno, putas, policias extraviados, pintas decadentes, emigrantes clandestinos desempregados e eu. Cervejas convivem com meias de leite pacificamente sobre as meses de mármore.
Com o tempo já vou conhecendo as pessoas pelo nome.
A senhora que aprendeu a ser puta em Luanda chama-se Simara e é do tipo pequena e arredondada. Tal como eu deve andar nos trintas e tais. Tem os olhos azuis plásticos constantemente a lacrimejar das lentes de contacto e na cabeça usa uma cabeleira com cabelo preto desfrisado. Sei que tem lentes e cabeleira porque às vezes quando a leitaria fica mais vazia, a Simara vai tirar as lentes e a cabeleira... quando isso acontece as botas e a eterna mini-saia destoam do seu rosto vulgar de mulher cansada.
Hoje de manhã a Simara tinha as lentes, a cabeleira, a mini saia e a boa disposição alcoolizada de quem anda a facturar em cima do subsidio de natal.
Na leitaria vazia estávamos poucos. O velho surdo que é o dono, mais a Simara e uma sua colega mais nova e com o rotulo AGARRADA escrito na testa. Eu já tinha subido ao escritório mas como ainda não eram oito e meia desci para tomar o pequeno almoço e olhar as gordas do publico.
Foi depois de responder aos meus bons dias que a Simara se saiu com a frase:
-- Em Luanda aprendi o oficio de puta mas em Lisboa aprendi de prisiricolga.
-- psicóloga !!! Corrigiu a agarrada na sua voz sonolenta.
-- Isso prisiricolga.
Interessado no tema sentei-me na mesinha do canto, abri o Publico e fiz render as folhas do jornal para ouvir o discurso até ao fim. A Simara prosseguiu:
--Em Luanda uma rapariga para ser puta tem de ser boa de cropo e noa de cama. Aqui em Lisboa para se ser puta tem de saber ouvir com atenção os problemas dos portugueses e concordar com eles. E não tem haver com os homens brancos e os homens pretos. Aí é o mesmo igual aqui que lá. A diferença esta no que os homens procuram nas rapariga. Nisso em Lisboa é diferente de Luanda.
Em Luanda os homem que vai nas menina é os imigrante que tão a sentir sozinho. Lá como aqui tem de todas as cores. Lá tem muitos malaios e zairenses, e tem também europeus. Lá tambem tem muito emigrante, esses todos vai nas meninas por que precisa mesmo.
Não tem mulher, então, como é que faz? Então vai nas menina.
Mas muitos dos homens que vai nas meninas em Luanda não é os emigrante. Em Luanda os homem vai nas menina, vai para levar os amigo.
È.
È assim mesmo. Vão em grupos de três e quatro e um deles paga para os outro fudé. É assim mesmo, leva os amigo nas menina depois fica à espera e pergunta para os amigo: “Então gostaste desta pá? “ se os amigo diz que não gostou fica bravo e às vezes dá até para exigir o dinheiro de volta. Quase nunca tem maka porque quando os homem vai com os amigo nas menina ficam todos contente.
Aqui em Portugal os homem não faz isso. Quando os homem querem agradar os outro levam a jantar em casa. Ou tomam bebedeira juntos. Mas não oferecem menina. Em Angola todo o mundo vive a jantar na casa de todo o mundo e todos tomam bebedeira sempre com amigos, inimigos, conhecido e desconhecido. Então amigo que é amigo leva amigo nas putas porque não tem outra maneira de mostrar amizade entre homem. Lá é assim mesmo.
Aqui os homem que vem nas menina são diferente. Vem sempre sozinho. Parece que não vem para fudé. Tem imigrante angolano que vem comigo para falar das coisas que tem em Angola e das coisa que já tem em Portugal e já comprou e que vai comprar. São dos que fode e depois fica a conversar alto para impressionar as menina. A mim não faz efeito essa magia!!! Desses eu não gosto memos porque normalmente nunca querem pagar logo logo. Depois perguntam se gostei. O que é que tu vais responder a isso? Vou responder a verdade? Eu gosto é de dinheiro?? Não pode. Então se respondo que sim, mesmo por delicadeza vão-me logo a querer o dinheiro de volta. Tchiiii pá!!! Com parente e compatriota assim, aka que fica difícil!!!
Depois também há os homem portugueses esse são os piores pá!!!
Aqui o seu olhar cruzou comigo e fez-se um silencio momentâneo na leitaria.
-- Não são todos, corrigiu a Simara com um sorriso rasgado atirado para mim de cima do balcão de mármore. Não são todos. São só os meus cliente. Esses sim, são todos mesmo tarados de doente. Então eles pagam para subirem comigo e ficam a falar o tempo todo. Todos diz não são racista não são racista. Todos diz que gosta de Angola e que se calhar tem filhas na minha idade. Alguns querem saber o nome da minha mãe e então tenho de inventar para eles.
Mas que tipo de homem é que vai nas puta para ficar a falar nas filha ??? como é que pode?? Tem um amigo cliente já kota que vem me ver todos os mes e que paga sempre com gorjeta grande e que primeiro me bate e depois fica a chorar e a pedir desculpa... Tchiiii...Eu até fica com pena.
Depois todos os que são kota vem contar historia de tropa. Sobem comigo para a pensão e quase que fodem a correr só para ficar a falar da tropa que fizeram em Angola. Das comissão, dos camarada, dos barco. Da guerra mesmo não falam e todos diz que não são racista e todos diz que não disparou tiros nem matou ninguém.
Mas sei mesmo que é mentira pá!!! Eu quando era canuca em Malange aprendi na escola dos pioneiros tudo sobre a guerra de libertação. Agora vêm os portugueses e dizem que não mataram.
A Simara parou de falar e chegou-se à porta para olhar o céu a ver se chove. Depois proseguiu:
-- Já tinham-me avisado que os portugueses gostavam das angolanas, mas não tinham-me dito que gostavam da gente para ficar a dar conversa fiada!!! Por isso eu digo, aqui em Lisboa eu não sou puta. Sou prisiricolga.
-- psicóloga !!! voltou a corrigir a droga dita que era claramente uma clone da Edite estrela edição ligth.
-- Pois sou prisiricolga como tu diz.
A manha foi interrompida com a entrada de um homem na casa dos sessenta. Português típico, mais para o baixo, bigode na cara e SG gigante nervoso a tremer-lhe nas unhas.
Pediu um cerveja ao velhote da leitaria e de um golo deixou a garrafa a meio. Tirou as medidas à Simara que lhe sorriu. O homem segredou qualquer coisa ao ouvido da rapariga e saíram os dois porta fora.
Não posso garantir mas acho que debaixo da gabardina e à transparência da camisa grossa de flanela se conseguia ler no que restava do bicípite direito as palavras tatuadas, “amor de mãe Angola 1966”. Paguei a meia de leite e sai para a rua pensando com os meus botões: ali vai outro que fez a guerra sem matar ninguém.

Capital europeia da Cultura



Lisboa capital da cultura. Bares abertos a noite inteira. O bairro alto estava em frenesim. No início de 1994 o Bairro ainda não tinha sido tomado pelos putos do Erasmus e mais os gangs que vem alimentar-se de pequenos roubos aos turistas. O Bairro Alto ainda era o Bairro Alto.
A propósito não sei bem de quê mas ligado com as comemorações de Lisboa capital da cultura, os bares tiveram ordem para ficar abertos 24 horas. A coisa foi em grande. Até a policia, que era sempre muito exigente e cumpridora fechou os olhos as passitas que se fumavam nas ruas.... Teatro de marionetas, musica , os primeiros malabaristas que vi a atirar coisas ao ar no largo Camões (na altura, o xapitô ainda não tinha sido politizado pelo bloco de esquerda), artistas sérios e reconhecidos a declamar na Rua da Rosa, a gorda do frágil de portas abertas e a deixar entrar toda a gente... enfim foi assim uma espécie de 25 de Abril na noite.
Nesse fim de semana de inauguração da capital da cultura juntamos um grupo de suburbanos mais ou menos alfabetizados e seguimos todos para o bairro. Alguns de nós com interesses culturais, outros com interesses recreativos mas todos bem aprumadinhos e motivados. Foi bonito.
O mais exuberante era o Luís que na altura ainda não era dependente mas que já tinha uns consumos um pouco excessivos de produtos colombianos. Levava o corpo pequeno e magro dentro de um fato macaco prateado, um casaco de peles de raposa, botas da tropa pintadas de amarelo e cabelo azul. A cereja no cimo do bolo eram as luzinhas de arvora de natal à volta do pescoço a acender e a apagar alimentadas por duas pilhas grades armazenadas dentro do casaco. Veio a meia hora do barco que separava Lisboa do Barreiro a tentar fazer a ligação das lâmpadas às pilhas.... finalmente conseguiu.
No barco juntamo-nos a um grupo grande que já tinha chegado à cave. Havia uma nuvem de fumo no ar e não era tabaco.
Entre os que não fumavam mas bebiam estava o Batata que tinha trazido uma garrafa de whisky para despejar pelo caminho. Rapaz de poucas falas mas de grande alimento liquido era daqueles que tinha vindo exclusivamente para poder embebedar-se sem limite de tempo.
Na baixa era a puta da confusão, os automóveis tinham não só invado o asfalto como tambem ja tinham saltado para cima dos passeios. Caos total no transito. Cafés e leitarias que habitualmente fecham às sete da tarde estavam ainda abertas às 11 da noite.
Entramos numa pastelaria na baixa para bebermos qualquer coisita. O Pinguinhas, no seu ar descarado pede ao dono um iskeiro e começa a fazer um charro. O homem não gostou do abuso e pôs-nos a todos na rua. Nós não quisemos ir. Chama a policia ou não chama a policia? Saímos a bem ou saem a mal? Saímos a bem. Como recordação do momento o Batada trouxe duas garrafitas dentro do casaco. Uma de macieira que partilhou com a malta e mais uma de anis que ninguém consegui beber a não ser o próprio Batata.
Subimos ao Chiado. Mais copos. Algumas meninas que vieram connosco quiseram tirar fotografias ao colo do Fernando Pessoa. Alguns dos rapazes tentaram as cavalitas do poeta. O Pinguinhas tirou uma fotografia que para a eternidade o vai mostrar a queimar haxixe no joelho do Pessoa.
Seguimos viagem para cima. As ruas do bairro estavam a abarrotar. Três da manha hora de ponta. Multidão compacta de gente bem disposta.
Entramos em todos os bares e em todos os bares bebemos. Só pagamos no Arroz Doce porque a proprietária exigia o dinheiro antes de nos servir.
O Batata estava visivelmente bêbado.
Nos três pastorinhos o Luís arrancou o espelho da casa de banho para cheirar coca. “O espelho na parede não dá jeito nenhum”. O dono do bar não gostou da resposta mas aceitou a justificação e evitou mais problemas. Viemos para a rua refrescar as ideias.
Vindas não se sabe de onde apareceu um grupo de gajas estrangeiras com um garrafão de agua cheio de sangria. Os mais sóbrios metemos conversa com as meninas inglesas mais interessados nos rabos redondos e na bebida do que nas caras sardentas. Conversa cordial e de circunstancia. Sorrisos e piadinhas em inglês que podiam dar a prever eventuais relações bilaterais luso britânicas de afoga-o-ganso rebimbómalho. O Batata quando vê o garrafão estraga os engates da malta. Feito bruto borrifa-se nos copinhos de plástico que as gajas delicadamente oferecem e emborca o garrafão para dentro. Na ânsia de beber até bocados de limão com casca engoliu. As bifas, chocadas fazem-se à estrada e deixam o garrafão. Ao menos isso.
Alguns, ficamos desiludidos... o Batata sentou-se no passeio a esvaziar o que restava da sangria.
No rio de gente surge a Ana Salazar, que na altura era “a estilista”... Moda em Portugal era a Ana Salazar... Ainda não tinha desembarcado da Madeira a Fátima. O Zé da Guiné era só um rapazinho africano que se prostituía com senhores mais velhos e ainda não tinham aberto cabeleireiros onde sempre existiram tascas.
Quando o Luís descobriu a Ana Salazar entre a multidão foi ter com ela a esbracejar e a mostrar-se.
-- Ò Ana Salazar, ó Ana, morde lá este cenário… curte só esta roupinha....
A Ana fingia que não ouvia e tentava esconder-se entre os amigos bem.
-- Não te refundas, ó Ana , curte só esta roupinha, isto é que é cenário. Curte bacana curte... Nem que te cagues toda lá no teu atelier consegues sacar um cenário com este sainete!!!
A multidão fez uma roda onde o Luís rodopiava a meio mostrando a roupa.
A Ana Salazar vestia de preto com uma mini-saia que deixava ver umas pernas magras mas na minha opinião bem torneadas. Meias de renda preta e a pele muito clara por baixo das meias. Os amigos da senhora estavam chocados e reviravam os olhinhos para cima naquele expressão que só os maricas sabem fazer quando estão enfastiados... A coisa durou apenas um segundo.
O Batata levantou-se do chão para ver o que se estava a passar.
Na clareira de gente aberta na rua, o Luís era a estrela. A estilista conhecida era mera espectadora. Depois de se levantar o Batata cambaleou para a frente. Com o esforço de se ter de pé, a sangria, mais o anis, mais o wiskies e sabe-se-lá-mais-o-quê saíram em jorro da boca do pobre rapaz que não conseguiu conter o vómito.
O Luís, habituado à dinâmica própria do subúrbio e com a cocaína a acelarar-lhe os reflexos rápidos conseguiu esquivar ao jacto que saiu da boca do Batata.
A Ana Salazar, menos habituada, menos rápida e eventualmente menos cocada não se desviou a tempo e nas pernas ainda levou uns salpicos.
Enojada e aproveitando a pausa na passagem de modelos do Luís a estilista voltou a desaparecer entre a multidão.
Foi então que Luís se virou para o Batata e lhe disse:
-- Foda-se Batata agora que eu estava prestes a ser contratado pela Ana Salazar é que estragaste a cena!!! Acabaste de fuder o inicio da carreira do maior estilista ibérico de todos os tempos.
Nem eu, nem o Luís, nem o batata voltamos a ver a Ana Salazar.
O Batata esta agora a viver na Alemanha. O Luís morreu no final do ano passado.
Cá eu, sempre que penso nessas coisas das modas e das capitais de cultura lembro-me das pernas ainda dentro do prazo da Ana Salazar salpicadas de sangria com digestão incompleta.
Flatulências a partir de 28/01/2006