segunda-feira, dezembro 12, 2005

Na casa da Granel e do Tórelato


Já fomos e já viemos. Mas uma parte de mim ficou lá, na casa da Granel e do Tórelato. Quatro dias na tribo.
A mulher, uma cria (senti falta da outra), o cão e amigos. O que é que um homem quer mais?
Vinho caseiro. Peixinho fresco comprado na praça. Tempo. Liberdade para fazer petiscos e partilhar velhas e novas historias. Um pôr do sol fantástico com o atlântico a fazer de cama para toda a luz de Dezembro. O cão solto a comer peixe podre na praia. A minha filha a adormecer ao som da internacional. Receitas de pescador partilhadas à volta do tacho.
Ficou uma ligeira acidez no estômago, os intestinos revoltos e uma persistente vontade de tirar a gravata, mandar à merda o chefe e voltar para o sul.
Em Lisboa fico assim a modos que açaimado. Rodeado de colegas e amigos da onça. Tento fechar os ouvidos para as conversas que não interessam de gente desespera por acumular mais riqueza e valorizar o status. Se me interrompem directamente digo-lhes que sim mas que me deixem trabalhar.
Faço um ar sério. Olhos fixos no monitor e dedos a bater no teclado, convicto de competência ocupada em produzir mais valia. Entre estes meninos armados em cóbois finjo que sou o xerife. Há que impor-lhes respeito. Não fazem ideia que eu sou um legítimo pele vermelha. Um moicano da outra banda. Eles não sabem que debaixo do colete e estrela da lei trago as minhas pinturas. Dentro do coldre em vez da pistola andam as minhas setas letais e prontas a disparar. Se me vir enrascado com alguma situação faço um ritual xamanico, solto o grito de guerra e arranco o capachinho ao administrador.
Às vezes acontece-me ficar bicho-do-mato. Depois de uns dias com a tribo, tenho ainda mais dificuldades a adaptar-me à realidade dos homens brancos.
Para piorar tudo hoje o meu cavalo não quis vir comigo. Está ressentido de não o ter levado nesta caçada. Deixei-lhes os olhos acesos durante quatro dias e hoje de manhã não quis pegar. Descarregou a bateria. Vim a pé para a estação mas mesmo assim cheguei demasiado cedo.
Pela janela do escritório ao meu lado direito está o Tejo. Ao fundo a minha terra esta assinalada pelos discretos sinais de fumo das imensas chaminés às riscas. O Sul começa lá em casa. È de lá, da porta de casa que sai, a estrada para onde o sol aquece mais e onde o frio da noite não corta tanto. Olho pela janela e imagino que andar a direito por cima do rio em duas horas me ponho em casa. Porque o Tejo não gela nem eu consigo andar por cima do rio, levanto-me e vou beber outro copo de agua. Pode ser que me passe esta lãzeira. Só me levanto da secretária para ir buscar copos de agua que emborco de seguida. Hoje já devo ter bebido pelo menos dois litros. Para limpar o organismo.
Com a tribo come-se sempre demais!!!!
O que não me sai da cabeça são os chocos do almoço de sexta.
Flatulências a partir de 28/01/2006