quinta-feira, dezembro 29, 2005

A minha conversão


Quando era puto a minha avó quis-me catequizar.
Levou-me à missa várias vezes durante a infância… As coisas corriam mal para ambos comigo a correr e a gritar palavras de ordem durante as cerimónias. Experiências traumatizantes para os dois que faziam com que a senhora me mantivesse afastado da igreja durante meses. Mas depois, a fé assim o exigia, e como a minha avó sempre gostou muito de mim, pronto, lá fazia o sacrifício para salvar a minha alma, e pimba, lá me levava outra vez…
Estas idas à missa mais ou menos forçadas aconteceram até ao verão dos meus nove anos, em que subitamente comecei a pedir para ir à missa. E surpresa das surpresas a portar-me bem!!! Nas primeiras vezes ficou tão feliz que acredito que acendeu velinhas por mim antes de prosseguiu com a minha catequização.
Até o meu pai começou a estranhar em mim o comportamento devoto… Afinal de contas eu era a criança-terrivel. Era aquele que toda a família conhecia pelo “Turra”. Aquele tipo de putos que se estão calados é porque estão a fazer merda. Só parava de estrebuchar quando estava a dormir e mesmo assim não era sempre. Pois este menino que com nove ou dez anos já fazia arte do gangue dos “Terríveis da rua de Santo António” passou a ir à missa com a frequência das velhas beatas.
Ao contraio do que a minha avó materna esperava, não aconteceu nenhuma alteração no meu comportamento… Não deixei de espetar garfos os cães nem perdi os sempre presentes instintos pirómanos que me faziam incendiar tudo aquilo que fosse inflamável.
Lá na rua a malta continuava a chamar-me “Miguel Trovoada” ou “Cavalão” – e desde já confesso não gostava desta ultima alcunha…
Continuei a apanhar boleia nos comboios de mercadorias que passavam nas traseiras da minha casa em andamento brando. Continuei a fugir de casa para ir à pesca nas ruínas da Ponte dos Ingleses. Claro que mantive o saudável hábito da brigazinha diária. Fosse, a escola fosse na rua, pelo menos uma vez por dia tinha que andar à trolha… havia dias que falhava, mas noutros recuperava completamente… Lá na minha rua o nosso hobie durante a infância era andar à pancada. Dois a dois ou em grupo, todos contra todos, ou os clássicos contra a malta da outra rua… tinha era de haver molho!!!!
Isto tudo misturado com missas.
O meu pai começou a desconfiar que se passava qualquer coisa… até avisou a minha avó, que era a sogra dele:
-- Oiça lá, se um destes dias o padre aparecer envenenado ou se os bancos do coro se partirem a meio da cerimonia, não se admire... já sebe o risco que corre de levar o seu neto para as essas missas…
A minha avó que sempre viu (ainda hoje vê) em mim o menino que nunca fui, respondeu ao genro enquanto se benzia:
--Ai Credo, Louvado seja Deus, o menino fica sempre tão sossegado ao pé de mim lá na missa…Ele gosta é de ficar em frente ao coro… mas porta-se sempre muito bem…
Claro que o meu pai não acreditou.
Na realidade ninguém acreditava naquela conversão….
Mas o facto é que eu continuava a ir à igreja.
Até que um dia denunciei as minhas verdadeiras motivações. E por mero acaso, isto é, sem que tivessem feito um interrogatório.
Acontece que por volta da hora de jantar tocaram à companhia lá de casa e mandaram-me a mim ir abrir…Lá fui e nos meus nove anos apanhei um dos maiores choques emocionais da minha vida:
Era ela. Tinha vinte e poucos, morena cor de canela, cabelo encaracolado e uns olhos verdes daqueles de fazer um homem (mesmo um homem de nove anos) atirar-se para o chão. Fiquei ainda mais aparvalhado do que o que é costume.
Vinha com um vestido de linho branco de alças e trazia sandálias…
Quando parou à porta do segundo andar, fez um sorriso e disse:
--- Olá… podes ir chamar o teu pai?
A boca secou-se-me logo ali, a mim que nunca fui de me faltar respostas. Corri para dentro e na minha ingenuidade disse ao meu pai:
--- Pai, tá ali o “Borrachinho” da missa.
--- O quê filho?
È preciso esclarecer que na altura uma mulher bonita era um “Borracho”. Um ”granda Borracho”, se fosse caso disso. Ou até mesmo um “Borrachinho” quando o diminutivo se impunha pela qualidade do material. Neste caso estávamos perante um “Borrachinho”. Por isso repeti:
--- Pai, tá ali o “Borrachinho” a missa, costuma cantar no coro. Tá ali fora e quer falar contigo.
Foi com esta inconfidência que toda a gente percebeu a razão das minhas idas à missa.
Claro que todos se riram de mim. Claro que ninguém levou a sério a minha paixão cristã.
Passaram-se vinte anos mas lembro-me bem daquele meu verão católico. Recordo a pele mais escura do início do mamilo esquerdo da rapariga. Quando o coro cantava o “Vemos ouvimos e lemos” o Borrachinho batia palmas de levantava os braços mostrando a axila rapada. Se eu me debruçasse o suficiente no banco quase que lhe conseguia ver a maminha na totalidade…Papei as missas todas do verão de 1981 no Barreiro sempre na ilusão daquele seio meio oculto.
Com Setembro vieram as camisinhas de meia manga e eu perdi o meu furor religioso.
Deixei de ir à missa mas continuei a cruzar-me com o Borrachinho. A vida mudou para todos mas continuei a vê-la. A rapariga trabalhou numa florista aqui do bairro e entretanto abriu um negócio dela.
Eu que de flores não percebo nada, e que não voltei a ir à missa continuei a conhecer borrachos borrachinhos e borrachonas.
Envelheci mas continuei sempre a apaixonar-me por coisas que não estão lá mas não se vêem, seja o contorno oculto da pele do mamilo, seja o som do sorriso de uma mulher através do telefone, sejam as intenções sugeridas nas entrelinhas das mensagens de e-mail.
Aqui há uns três anos, conheci um borrachinho que não me leva à missa mas que com ela vou ao fim do mundo. Tocamos uns e-mails. Depois falamos ao telefone. Fomos jantar juntos no bairro alto. Bebemos gins tónicos e conversamos de politica. O nosso desacordo permanente fez faísca e por fim fizemos aquilo que ambos merecíamos que nos fizessem… Dormimos juntos desde então. Comemorámos ontem o terceiro aniversário.
Como sou um gajo pouco polido e pouco habituado a permanências não sabia o que lhe havia de oferecer. Foi só por isso que fui falar com o Borrachinho da Missa. Continua bonita nos seus quarenta e muitos. Depois dos cumprimentos de circusntancia, perguntei-lhe.
--- O que é que um tipo oferece a uma mulher de quem gosta muito muito muito?
Ela respondeu sem hesitar:
--- ofereça-lhe uma orquídea que ela vai gostar.
Foi o que fiz. Ofereci-lhe uma orquídea.
Agora que me ponho a mirar bem a “couve” acho que as florezitas sendo assim meio escaganifóbéticas fazem-me assim lembrar acho que… mamilos…
Será da florista?
Flatulências a partir de 28/01/2006