segunda-feira, janeiro 09, 2006

Brandos Costumes


Em 1439, Nuno Tristão e Antão Gonçalves trouxeram os primeiros negros para Portugal. Seis homens da zona do actual Senegal foram oferecidos como “presentes exóticos” pelos navegadores ao Infante Dom Henrique.

Seis anos depois começava o negócio.
O primeiro leilão de escravos em Portugal foi feito em Lagos em 1445 onde se venderam 20 homens trazidos da Guiné. Lagos, que foi o primeiro porto de chegada de escravos, depressa foi substituído por Lisboa onde o volume do negócio justificava a intervenção da coroa. Ainda no século XV foi inventado um cargo próprio para gerir o mercado de escravos: Mestre da Casa de Escravos de Lisboa, este cargo era normalmente atribuído a um nobre e esta “casa” era a loja oficial de venda de escravos da coroa.
A escravatura era o negócio mais lucrativo destes primeiros tempos de descobrimentos. A coroa tinha a Casa de Escravos mas havia muitas outras lojas. No início do século XVII já eram mais de vinte as lojas de escravos só em Lisboa. Principalmente junto à Ribeira das Naus que era o cais por onde chegavam. Em 1502 foi inaugurado o “mercado de escravos de Alfama”.

O comércio de escravos era tão lucrativo que foi preciso estabelecer regras para proteger a qualidade da mercadoria não deixando desvalorizar o produto. Assim, um escravo doente podia ser recolhido por alguém que tratasse do “bem” para depois poder comprar a um preço mais baixo proporcional ao investimento na saúde do escravo. Estas normas estavam escritas…. Havia pessoas que se dedicavam a esta negócio, de recolher os doentes para depois comprar por um valor mais baixo… Outro negocio que surgiu logo no início do século XVII era o de simplesmente possuir escravos e explorar o trabalho destes.

A escravatura e a mão-de-obra escrava, foi uma realidade comum quer no campo quer na cidade. Segundo um comerciante veneziano que chegou a Portugal no início do século XVIII todos os portugueses tinham escravos. Desde as prostitutas ao rei, todos os homens e mulheres livres possuíam pelo menos um escravo. Mesmo o artesão mais miserável tinha pelo menos um escravo que servia para executar algumas tarefas que seria pouco dignas de um homem liberto (tipo ir despejar os penicos ou limpar a oficina). Até o próprio Camões que todos reconhecem ter morrido …” na miséria, sozinho sem ninguém a não ser a companhia de um jovem escravo…”

Optando por uma linguagem mais actual, podemos dizer que apesar de estar bem implementado no mercado residencial, os escravos eram importados sobretudo para servirem de mão-de-obra no mercado empresarial. Falo da agricultura de ceriais, do trabalho nas pedreiras e sobretudo nas minas e construção civil.

Tudo quanto é monumento construído em Lisboa entre 1450 e 1800 foi feito sobretudo com mão-de-obra escrava… Os Jerónimos, a Torre de Belém ou o aqueduto das Aguas Livres tomam uma dimensão humana mais dramática…. Quanta injustiça, quanta infâmia e quanta violência gratuita aquelas pedras antigas não escondem.

Se o negro não trabalhava o suficiente era dever do seu dono impor-lhe disciplina. O “pingo” era o método comum para punir as indisciplinas leves do escravo… o pingo consistia em derreter sebo ou derramar azeite quente nas palmas das mãos dos escravos que se pretendiam castigar. Para faltas mais graves podia-se amputar as orelhas… Faltas realmente imperdoáveis, não se perdoavam… matava-se o escravo e comprava-se outro. Mas esta medida radical era rara uma vez o escravo era visto sobretudo como uma mercadoria, uma mercadoria valiosa. Por isso, os donos descontentes, limitavam-se a vender a mercadoria outra vez ou para um leilão ou para as minas… ideia que só por si aterrorizava o escravo.
Quando um negro morria, atirava-se ao Tejo ou apodrecia na lixeira. Foi assim até D. Manuel, que achando que era pouco higiénico este processo decidiu mandar construir um enorme poço (com mão-de-obra escrava) onde todos os dias um negro propriedade da corte despejava cal por cima dos cadáveres dos seus pares. È pois ao D. Manuel, o Venturoso que temos todos a agradecer a Travessa do Poço dos Negros…

Calcula-se que entre 1439 e as invasões francesas – data quando terminou a importação formal de escravos, terão entrado em Portugal perto de meio milhão de homens, mulheres e crianças com a condição de cativos. Este número torna-se astronómico se tivermos em conta que no final do século XVIII não chegavamos aos cinco milhões.

Para onde foram estes dez por cento de escravos que tivemos?

Para lado nenhum, por cá ficaram.

Segundo a genetica eles estão em nós.

Nas cidades e nos campos do sul fundiram-se com as populações mais pobres. Por cá deixaram os seus genes espalhados mais ou menos por todo o lado. È esse meio milhão de homens e mulheres trazidos das constas do golfo da Guiné que fazem com que apareçam portugueses de cabelo encaracolado, de lábios grossos e de nariz largo.

São os genes destes nossos antepassados roubados à africa que nos convencem que é melhor comer e calar porque assim temos mais possibilidades de sobrevivência. São estes genes da sobrevivência que nos fazem amochar calados e esperar por melhor dias…
Se não fossem estes dez por cento de genes herdados da escravatura como é que se explicaria esta subserviência crónica disfarçada de timidez que nos manda ficar calados e olhar para baixo quando temos que falar com um padre, com um bofia ou com o patrão???

10 Comments:

Blogger MA said...

Bom texto, gostei! No entanto penso que esse nosso traço de personalidade será mais contextual do que genético. Ás vezes essa postura de subserviência acontece quando algo mais importante está em jogo...como a nossa alma (padre), a nossa liberdade (polícia) ou a nossa subsistência (patrão)...é quase instintivo. Por outro lado, tem muito a ver com aquilo que vocês - os sociólogos - gostam de denominar como "incongruências de status"...Todos aqueles que desempenham um papel chave em qualquer situação, por mais simples ou insignificante que possa parecer e, que nos colocam de uma forma ou outra numa situação de alguma dependência, acabam por abusar desse mesmo poder...

Por outro lado, nunca te esqueças que, se herdamos esses 10% de genes dos escravizados, herdamos também 90% de genes dos esclavagistas! Por isso, a probabilidade de haver sempre alguém por perto que nos faça olhar para baixo é muito maior!

00:18  
Blogger Riky Martin said...

Claro que sim, claro que tens razão. Pretendi o sarcasmo. Mas objectivamente tens razão.
O que eu queria dizer é que por baixo da capa dos pretensos brandos costumes se esconde um passado de infamia. O que eu pretendi dizer foi que a pretença historia dos portuguses bonzinhos é uma mentira salazarenta que pretende esconder a humilhação de sermos um país feito de, com e por escravos.
Como dizem os indianos, uma humilhação tanto suja quem humilha como quem é humilhado.

00:53  
Blogger Ze da Penalva said...

Em primeiro lugar parabéns pela boa posta. Também me parece que este, olhar para o chão, como dizes, terá pouco de genético. Tem mais a ver com a educação, com a “cultura”, com o desenvolvimento das sociedades. Apesar de tudo, mesmo que seja insuficiente, assisti nos últimos trinta anos a algum crescimento. Nem sempre no bom sentido é certo, mas crescimento. Nalgumas situações já se pergunta porquê, já se bate o pé, já se diz não. No bom e no mau sentido. Muda muito devagar, mas “eppur si muove.”

09:14  
Blogger CM said...

Muito bom texto.
Todos sabemos que a história é "higienizada" de tempos a tempos e o mito dos brandos costumes, vindo do Salazarismo, foi imposto, não apenas porque servia na metrópole, para que os brancos de cá não se revoltassem, como servia nas colónias para que os pretos e brancos de lá não deitassem o regime abaixo.
A imposição do "estatuto do assimilado" e a regulamentação da condição de "nativo" foram disso um exemplo: vejam bem como os portugueses são bonzinhos que até consideram os pretos como uma espécie de pessoas.
É realmente vergonhosa toda a herança dos últimos 600 anos de colonialismo e escravatura, não apenas relativa a Portugal, mas relativa a todo o mundo Ocidental e mesmo de África.
Como bem sabes, a parte agora menos falada desse comércio, eram os mercadores negros e arábes que vendiam despojos de guerra aos brancos. Tribo que tivesse o azar de perder uma guerra ou se deixar capturar na selva (quando a mercadoria começou a valorizar mais e havia expedições de "caça") ganhava uma viagem de borla à Europa ou até ao Brasil.
Já te falei várias vezes na conversa que assisti entre dois diplomatas, um angolano e um americano(ambos negros). A conversa desenrolava-se num tom altamente cordial, com o americano a dizer o quanto amava a "mãe africa" e outras baboseiras. Como o gajo não percebia português, o angolano vira-se pra mim com a maior das latas e diz: "pois é, mãe áfrica o caraças! o meu trisavó vendeu o trisavó deste gajo e agora eu que me lixe em Angola com o tipo a viver à grande na América". Também é bonito, não é?
Culpas temos todos neste comércio vergonhoso que ainda continua a nível mundial.
Hoje em dia, o tráfico de seres humanos continua a ser uma actividade mais lucrativa do que a venda de armas ou o tráfico de droga. Mas como a escravatura está ilegalizada, quase ninguém se preocupa com isso.
Quanto aos nosso genes. Tens razão e o éme também. O facto de termos os dois misturados é que deve ser responsável pela irritante mania que os portugueses têm de abusar do poder.
Por outro lado, estou com o ZédaPenalva - vai devagarinho, mas vai mudando.

10:34  
Blogger Ze da Penalva said...

Ainda a propósito de genes:

Os genes não são um catálogo, um manual de instruções para decifrar o destino das criaturas. Há mais do que isso, há processos que desconhecemos e que não serão legíveis mesmo quando soubermos todo o abecedário oculto dos nossos cromossomas. Não somos mecanismos somos organismos que se produzem e ao se produzirem, produzem os mecanismos da sua própria reprodução.

16:55  
Blogger MA said...

Aposto que os nossos genes só podem ter vindo daqui:

http://www.nasa.gov/vision/universe/starsgalaxies/spitzer-20051220.html

21:05  
Anonymous Anónimo said...

Isto das percentagens é como aquela cena de haver 10% de gays em Portugal

22:36  
Blogger Jingas said...

Gostei da posta de letrinhas... ;)


10% gays?? Só?? lolol

08:56  
Anonymous Anónimo said...

Resumo histórico à parte, espero que estes argumentos genéticos que apresentam pela vossa cabeça sejam uma maneira de simplificar a discussão porque a serem tomados à letra são asquerosos mais essa ideia racista de terras originais/ espaços vitais para pretos e para brancos. A influência dos escravos parece-me ser, sobretudo, cultural/ psicológica ( o que está por estudar a sério - sobretudo no que diz respeito às caracteristicas positivas e não às negativas, à maneira de nos relacionarmos com o Outro e que passa de geração em geração ao estilo de doutrina secreta) e não me parece, de todo, ser motivo que se lamente, muito pelo contrário - à laia de justificar que para há grandes males que resultam em grandes bens. Dos gajos mais afins à lógica da escravatura que eu conheço conto gente de todas as cores com uma só coisa em comum (nos genes?!) - a estupidez. Eu descendo por parte da minha avó paterna, de negros escravos (comunidade a sul de Alcácer do Sal), o meu pai, moreno esguio mais preto que muitos pretos, sempre me passou uma certa aversão à versão heróica das cavalarias europeias das "expansões", lembrando-me que das maiores chacinas foi feita na tomada de Alcácer do Sal em que foi tudo passado a fio de espada sendo que os que foram assassinados eram "os nossos", tem-se fodido a vida toda por ser insubmisso face a filhas da puta. Coisa que esta minha querida gente nunca me ensinou foi resignação e submissão, muito pelo contrário (cáestão os genes?) quando me chega a mostarda ao nariz fico com a venta de preto destacada, da qual me orgulho bastante. Diplomacia sim, ensibnaram-me (tentaram) e terá vindo da habituação de se viver coagido por prepotentes fáceis de enganar com um "sim sr dr" (ainda assim malignos como só nos livros). De qualquer forma, hoje a escravatura não tem cor. Obrigado pela pachorra e pelo espaço mas isto diz-me respeito.

15:20  
Blogger Riky Martin said...

Caríssimo Rogério:
Completamente de acordo quanto ao papel de determinada “genética” a justificar o mais imbecil dos racismos.
Ao escrever esta posta pretendi falar em primeiro lugar da realidade muitas vezes escamoteada do papel da escravatura naquilo que nos ensinaram a chamar de “expansão”.
Também me pareceu importante alertar para o papel da mão-de-obra escrava no século XVI que é sempre considerado o apogeu do “orgulho Luso”. Para desmistificar esse pretenso passado grandioso falei na realidade dos “monumentos históricos”feitos com mão-de-obra escrava
Por ultimo pareceu-me importante lembrar que aquilo a que se chama de “portugueses” não é, nem nunca foi uma unidade fechada.
Ainda sobre a escravatura continuamos de acordo que não passa pela cor da pele.
Sobre os genes dos portugueses não estamos definitivamente de acordo.
Das centenas de milhares de escravos que fazem parte da nossa herança genética só os genes dos submissos foi possível transmitir. Este facto tem muito mais haver com a realidade e o funcionamento “técnico” do negocio da escravatura do que com os homens e as mulheres que foram escravizados. Os genes dos insubmissos esvaíram-se no sangue derramado na luta contra a captura, nas revoltas abordo dos navios negreiros e no desespero dos suicidas. Os escravos que sobreviveram à barbárie foram aqueles que se adaptaram à sua nova situação de “coisa”. Os que ficaram vivos para transmitir os genes foram três grupos restritos: As escravas que sobrevivendo à violação e não optando por abortar foram capazes criar os seus filhos. Foram as crianças-coisa educadas para serem mineiros – porque no seu tamanho de criança cabiam mais facilmente nas galerias das minas. Em menor numero, foram os homens que por serem “obedientes, saudáveis e se deixaram baptizar” lhes era permitido e incentivado que “procriassem” de modo a valorizar o património do seu dono.
Se são os 10% e escravos que hoje temos em nós que nos faz submissos, essa questão é mais uma metáfora literária do que uma pergunta à genética… Metáfora infeliz, dizer-me-às. Talvez tenhas razão na tua critica.
Ao contrário do que dizes, e devo dizer-te, lamentavelmente, acho que somos de facto um povo de submissos. Vê os 48 nos de ditadura a que um povo de dez milhões disse que sim e baixou a cabeça. Falar-me-às em historias de resistência… mas são poucas e de circunstancia. As nossas lutas colectivas durante a ditadura foram momentos específicos e fruto de um enorme trabalho de revolucionários que abdicando de tudo lutaram. Nem nos momentos conjunturais mais favoráveis, por exemplo o fim da segunda guerra mundial e a queda dos outros fascismos, foi possível um levantamento popular… Vê como acabou a reforma agrária…
Lamentavelmente para mim, terás de concordar comigo que na nossa historia os casos de submissão são muito mais frequentes do que de revolta. Falas-me de diplomacia e forma de controlar a opressão… eu chamo medo e covardia… enfim essa é outra discussão.
Sobre “os negros de Alcácer do Sal” esse é outro tema fascinante. Ando há já algum tempo a recolher informação e documentação há já algum tempo. Fica aqui prometida uma posta e conto contigo para a comentares e criticares. Ainda sobre Alcácer te digo, ao contrário dos exemplos dos Kilombos no Brasil e dos “Freres de la coste” no Haiti a comunidade da Cascalheira, não é produto de uma rebelião de escravos que se juntaram para viverem livres. Na opinião de alguns estudiosos, em Alcácer do Sal o fenómeno da persistência das características racicas africanas passa pela resistência à malária que os africanos traziam geneticamente e que foi endémica nas margens do estuário Sado ate ao início do século XIX.

Não quero acabar sem te dar as boas vindas aqui ao Cocó Ranheta e Facada , e sem te agradecer o comentário e dizer-te que fico à espera da resposta.

Riki

17:07  

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