terça-feira, janeiro 24, 2006

democracia

Quando se fala em democracia sou sempre o primeiro a apontar o dedo ao sistema. Normalmente dou o exemplo da bimba analfabeta que vota onde o padre na missa manda botar a cruz.
Costumo dizer que não é justo nem legitimo que o voto de um eleitor esclarecido e politizado valha o mesmo que o voto de um eleitor iludido e manipulado. Pelo gosto do politicamente incorrecto, muitas vezes as pessoas mais chegadas me ouviram dizer que não me revia nos valores das democracias parlamentares dos países europeus e que as eleições não queriam dizer nada.

Nasci antes do 25 de Abril mas as minhas memórias são todas vividas em democracia. Claro que crescer no Barreiro dos anos setenta marcou profundamente a minha personalidade. Sou comunista desde a adolescência, militante desde os dezasseis anos. Politicamente activo desde muito novo, o meu voto sempre foi um voto militante. Votar para mim, mais do que o exercer de um direito, mais do que cumprir um dever de cidadania, era cumprir uma tarefa partidária.
Até às últimas eleições presidenciais, votei sempre com total convicção nas coligações ou nas personalidades propostas pelo meu partido. Votei como quem cumpre qualquer outra orientação do partido, não votei por convicção nos ideais democráticos.
Para mim, ir votar no dia das eleições era só mais um contributo para o partido. Votar estava ao mesmo nível do que distribuir propaganda na escola secundária, redigir um texto de protesto contra os aumentos salariais ou descascar batatas na festa do avante. Votar foi sempre para mim um acto de militância, nunca de cidadania. Votar foi sempre um acto de disciplina partidária, nunca um acto simbólico.
È verdade que ao longo destes anos de militância tive fases mais ou menos activas politicamente, mas nunca deixei de me sentir profunda e convictamente comunista. Nunca deixei de cumprir aquilo que para mim era a tarefa de militância que consistia em ir votar.
Até estas presidências foi assim

Agora vai ser diferente

Nas eleições de domingo, o partido atribui-me uma tarefa extra. Alem de ir votar, fui convocado para ser delegado da candidatura do meu camarada Jerónimo de Sousa à Presidência da Republica.
No sábado tive no centro de trabalho a aprender sobre o funcionamento executivo das mesas eleitorais. Composição, deveres e funções dos intervenientes. Aprendi e estudei sobre os Deveres dos Delegados. Li o livrinho e a documentação que me deram e preparei-me para estar presente na mesa de votos.
Fui convicto para representar o melhor possível o Partido Comunista Português. Para mim esta é uma responsabilidade de peso!!! A minha função era estar presente durante o acto eleitoral e durante a contagem dos votos.
Na mesa para a qual fui convocado o PCP já tínha um elemento nomeado. O objectivo estratégico de termos um outro elemento nomeado como delegado passa pela necessidade de estarmos presentes dois comunistas para que fosse possível aos militantes mobilizadas para o escrutínio poderem sair para almoçar ou tomar um café garantindo que nas mesas de voto estaria sempre presente um militante comunista.
Estava nevoeiro na madrugada de domingo. Saí da cama e fui para a rua à procura da mesa de voto onde devia apresentar-me.
A assembleia foi presidida por um homem nos seus cinquentas e tais que representava a candidatura do Manuel Alegre. Estava presente um secretário da Candidatura do Mário Soares também nos cinquenta. Da minha idade era o secretário representante da candidatura do Cavaco Silva. O outro comunista era um sexagenário alentejano com uma militância forjada nas lutas sindicais que exercia as funções de vice-presidente. O ambiente era de uma formalidade calorosa e de um civismo educado e polido. Todos nos conhecíamos de vista.
Quando cheguei cumprimentei os presentes. Reconheci o meu camarada e preparei-me para apanhar uma grande seca. O senhor presidente deu-me uma lista com mil números que eu devia ir riscando à medida que as pessoas fossem votando.

Não apanhei seca.

Mudei a minha opinião sobre as eleições e sobre a democracia.

Durante as quase 12 horas que estive naquela sala vi passar cerca de 700 eleitores.

Setecentas pessoas que me mostraram que a democracia é uma coisa muito especial e muito bonita. Homens e mulheres de todas as idades e de todas as condições sociais apareceram convocados à chamada do seu país. Ontem talvez tenha aprendido o significado da palavra pátria que nunca soube bem o que queira dizer.
À frente da secretária onde estive sentado a riscar números no papel passou a minha gente. Homens e mulheres de todo as cores vieram aquele sala onde as crianças aprendem a ler. Os homens e as mulheres escolheram de livre vontade quem vai ser o chefe máximo do país nos próximos cinco anos.

Depois da missa das 8 começaram a chegar as primeiras beatas. Catequistas e meninos do coro. Algumas pessoas vestiram-se a rigor para vir votar. Muitos casais de idosos e de meia-idade vinham votar juntos porque fizeram o recenseamento eleitoral ao mesmo tempo. Os mais novos vinham sozinhos e informais. Alguns velhos engravatados faziam questão de apertar a mão a todos os elementos da mesa. Mulheres viúvas. Velhos de muletas. Apareceram os desportistas de domingo com o seu de fato de treino. Míopes que levavam o boletim de voto para debaixo da luz. Empregados de mesa nos cafés que aproveitavam a hora de almoço para virem votar. Pais de família traziam os filhos mais pequenos ao colo. Depois de almoço alguns alcoolizados. Solitários. Alguns vinham votar vestidos de vermelho gritante, de laranja provocante ou de rosa panasca. Mulheres espampanantes e produzidas também apareceram. Os tímidos que quase pediam desculpa para votar. Vieram os desorganizados que se esqueciam do cartão de eleitor ou do bilhete de identidade. Apareceram os convictos que desejavam boa sorte. Vieram os indecisos que se enganavam e pediam novo boletim. Votaram homens calados. Mulheres do povo. Todos vieram. Todos tiveram direito a um boletim de voto cuidadosamente contabilizado. Todos formam para atrás do biombo por a cruz. Todos deram o seu voto dobrado em quatro ao presidente da mesa. A urna caixão de ferro na vertical foi sendo cheia com os votos de todos.
Todos em liberdade.
Ao longo do dia foi a peregrinação colectiva dos que levavam os votos. O clímax foi depois.
Dezanove horas. Portas fechadas.
Os homens presentes – neste caso foram só homens, juntaram as mesas e o presidente abriu a urna. Caem os setecentos papéis num montinho. O presidente da mesa chama-me para ajudar a contar.
À volta da mesa fazemos um círculo ritual. Começamos a desdobrar os boletins de votos e magia acontece. O milagre da democracia são os montinhos dos diferentes votos a crescerem e a diferenciarem-se uns dos outros no tamanho.
Alguns candidatos são mais votados. Outros têm menos votos. Estão ali os papelinhos com as cruzes para nos mostrar. Não há que enganar.

Continuo a ser convictamente comunista. Continuo a achar que as eleições por si não chegam para fazer a democracia. Continuo a achar que a eleição do Cavaco Silva para presidenta da república é de lamentar.
Apesar de tudo isto, para mim estas presidenciais de Janeiro foram uma grande aprendizagem.
Aprendi a comparar as eleições assim como uma espécie de um parto. Ao longo das horas que durou o escrutínio a urna foi-se enchendo como o ventre de uma mulher que quando chegou o momento pariu. Os votos não são números nem percentagens são decisões do povo.
Até ontem não acreditava no sistema democrático, continuo a ter sérias dúvidas sobre a sua justiça. Mas que fique claro que umas eleições democráticas e livres são um acto que pode orgulhar todos aqueles que participam nelas, disso não tenho duvidas nenhumas!!!
Viva a liberdade e viva a democracia.
(mesmo que seja pare eleger o cavaco)

15 Comments:

Anonymous Anónimo said...

lolololol
quem diria....
este gajo n para de me surpreender....


era bom e' que a mesa onde tiveste reflectisse os resultados nacionais....

enfim como dizes no outro post:
Oguente-se....


Sf

11:10  
Anonymous Anónimo said...

Pela primeira vez num texto teu eu fiquei completamente petrificada, com um nó na garganta e em total sintonia.
No inicio do texto percebi que alguma coisa estava diferente, em ti, que tinhas evoluido como grande amigo que és e homem de lutas.
Percebi que nao estavas a falar com o teu tom de brincalhão provocatório como fazes comigo enquanto muitas vezes discutimos politica. Estavas em grande desabafo e com um sentimento verdadeiro! Eu amigo, que tantas situações te confronto com as politicas, com as disciplinas, com as democracias, fiquei tao feliz por ti como tivesse eu parido um filho. Parido um voto! De coração.

Finalmente alguem escreveu o que eu sinto o que é as eleiçoes e longe vão os tempos onde não o podiamos fazer...
Tal com tu nao fiquei feliz pelos resultados, mas fiquei feliz com o acto de poder pôr a cruz onde bem eu quiser!

Amigo um abraço fraterno!
Tou mesmo comovida.

11:11  
Blogger CM said...

É engraçado como eu sempre tive a sensação que descreves, sem nunca ter sido delegada a nenhuma mesa. Estive para me voluntariar aqui para um dos consulados (que ao início estavam com dificuldades em encontrar pessoal suficiente para as mesas)mas não pude porque já não cheguei a tempo de me recensear aqui. O facto de estar impedida de votar nestas eleições, por ter estado de serviço este fim-de-semana, entristeceu-me e revoltou-me. Nunca falhei eleições por vontade própria, para mim são dias especiais. O único dia em que posso fazer uma diferença, em que posso dizer da minha justiça, com um resultado prático na governação do meu país.
Quando fiz 18 anos, o primeiro papel de que fui tratar foi o cartão de eleitor. Antes da carta de condução, antes de tudo. Vieram-me as lágrimas aos olhos quando fui levantá-lo à Junta de Freguesia do Alto. Lembro-me de ter pensado que finalmente seria alguém. Alguém que vota, alguém que escolhe e contribui para os destinos de um país.
Por isso me custa tanto compreender os níveis de abstenção que temos, num país onde esse direito nos foi tolhido durante tantas décadas.
Para mim, votar sempre foi a expressão máxima do meu exercício de cidadania. E por mais desgraçada que possa andar a democracia no meu país, orgulho-me de todos os cidadãos que, como nós, dão importância ao facto de ir lá pôr a cruzinha.

11:47  
Anonymous Anónimo said...

Pela primeira vez não aprendi nada num post teu, mas tou em perfeita sintonia contigo. Sempre fui votar sozinho, por isso sempre tenho algum tempo para (em muito menor menor escala) observar o que descreves.

Pela primeira vez tb não pude ir votar. Porque a lei eleitoral já está muito desactualizada, situações como a minha não estão contempladas. Mesmo indo voluntariamente apresentar-me na Junta ou na camara nos 10 dias anteriores e justificar a minha situação, não puderam fazer nada por mim.

Depois queixam-se da abstenção.

Tal como tu fiquei profundamente desiludido com o resultado. Ainda tinha uma certa esperança... Felizmente a vitória não foi 50%+1 senão ia sentir-me muito mal!

Fortes

13:39  
Blogger Horas Vagas said...

Bolas, até me vieram as lágrimas aos olhos!
Texto bonito «pa caralho»! (sei que não me fica bem, mulher e prenha, a dizer estes nomes, mas não me ocorre mais nenhum!!)

14:25  
Blogger CM said...

horasvagas: as mulheres (e prenhas!) têm direito a dizer tudo o que lhes apetece. Quem não gostar que feche o ouvidinho.

17:00  
Anonymous Anónimo said...

No teu texto corre a magia da liberdade. Parabéns, estamos sempre a aprender.

18:08  
Anonymous Anónimo said...

Riky,

Não quero tirar a poesia do teu magnífico texto!
Há vinte e nove anos que vou para as mesas!
Aqui no Norte não há poesia! Há é pouca democracia!
Há mesas em que o idoso pede para votar sozinho, e o filho vota por ele, pois trouxe uma declaração médica!
O “ceguinho”, que tenta votar com uma lupa e a senhora do Lar, com atestado vota em quem quer?
E o marido que vai para perto da esposa e diz que se ela não vota em quem ele mandou, lhe dá no focinho?
Os presidentes de junta que são os únicos elementos da mesa, pois os outros foram dispensados. Colocando a cruzinha, depois de ter perguntado ao eleitor? "Em quem vota"?
Já para não falar daqueles que levam a urna a casa do senhor fulano de tal, por estar doente!
Nós protestamos, gritamos! Já numas eleições fiz 97 protestos! De nada serviu! Até a polícia lá foi!
Depois há o mais triste, nas mesas com oitocentos jovens (são as últimas mesas), votam perto, de trezentos. Alguns fazem desenhos nos votos, outros colocam palavras obscenas!
Calma!
Jamais te quero desmoralizar!
Quero com isto dizer, se aí o acto eleitoral, se faz com todo o respeito e dignidade, é porque um Partido criou hábitos na população. Votar é um dever de cidadania!
Então sim, há democracia!
Por muitos telefonemas, pedidos, reclamações que se façam nesse dia para a CNE ou STAP,só uns meses depois poderão dar a resposta. Sendo raro!
Quem vive durante trinta e um anos, com câmaras PSD ou PS, não sabe o que é a verdadeira Liberdade!A verdadeira Democracia!
Preserva o bem que essa terra tem!
A Democracia!
E muitos Comunistas!

19:21  
Blogger pinhacolada said...

Pela posta anterior se depreende que a democracia também se compõe de não-democratas. Lembro-me que na aldeia dos meus pais os votos eram acordados previamente por palavra: dava-se a palavra de honra em como se ia votar no fulano x do partido y, o gajo pagava uns copos e já estava. Eu perguntava ao meu avô e ele dizia-me logo que tinha dado a palavra ao fulano do PS ou do PSD (eram sempre estes). Quantos às senhoras havia o padre para as orientar.

20:44  
Blogger Eva Luna said...

Estou profundamente comovida. Boa Riki. Até a mim, crente convicta do sistema democrático, me conseguiste convencer da magia do acto eleitoral.
Gosto mesmo de ti, és um gajo inteligente pá!!!!!!

10:26  
Blogger Unknown said...

Excelente texto! Muito boa a descrição da tua experiência na mesa de voto e sobre esse acto mágico que é exercer o DIREITO ao voto. Gostei muito.

12:55  
Anonymous Anónimo said...

AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!! AH!!!!AAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!AHHHHHH!!!!!!!!!!! HEY!!!!!!!!!!!!! OIÇAM!!!!!!!!!!!!!!! AAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!! AAAAAAAAAAAAAAAhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!

HOMBRE !!!AAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!

ESTOU BUÉRÉRÉ ORGULHOSO DE SER TEU ...AAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!! AMIGO!!CRESCESTE!!!!!!!! AAAAAAAHHHHHHHHHHHHHH!!!! PARABÉNS,Ó CIDADÃO!!!AAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!

19:34  
Blogger Cleared For Take Off said...

Gostei muito deste post. Eleições não sao equivalentes a democracia, mas são um belo começo.

10:55  
Blogger AV said...

Não somos camaradas, mas somos chatos e gostamos de discutir.
É só confirmar com os camaradas da Moita e arredores:
alhosvedrosaopoder.blogspot.com.

E que tal se fosse sendo preenchida essa colunita de links ?

AV1

12:40  
Blogger anjodi said...

Mais uma ignorante, que apesar de saber algo sobre o Chile não sabia da história deste mártir que tal como milhares foram tortuardos e abandonados em valas comuns.
Morte ao Pinochet e exilio para o Alasca para a sua familia; nem de propósito soube há poucos dias pelos jornais que a filha estava a ser investigada por fuga ao fisco (a pobrezinha). Como podem estes gajos todos dormir em paz?

20:52  

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