quinta-feira, março 16, 2006

As meias do Platini


Acordei às 10 da manha porque o quarto me cheirava a vinho do porto.
Na noite anterior, estive em cavaqueira com um professor de biologia belga e despejei a garrafa de vinho do porto que carrego sempre que vou de viagem.
A primeira coisa que vi quando abri os olhos foi o enorme martelo da ressaca que me bateu implacavelmente dentro da cabeça provocando-me uma dor lancinante.

Levantei-me e arrastei os pés atá à casa-de-banho. A retrete com lavatório fica ao fundo do corredor. O Hotel chama-se pomposamente “Paradis Berbère” mas não passa de uma espelunca das mais baratas de Midelt, uma vilazinha de montanha perdida em pleno atlas.

Acocorei-me para esvaziar os intestinos e olhei para o calendário atrás da porta. Dez de Novembro de 2002. O calendário mostrava um domingo.

Domingo?!?!? Não pode ser.

Lembrei-me que trazia um relógio no pulso esquerdo. Eu nunca uso relógio, excepto quando estou em viagens “terceiro mundistas”, alem e fazer jeito para saber as horas pode servir sempre de suborno para poder sair de alguma enrascada…Olhei então para o relógio de pulso, um topo-de-gama-da-praça-de-espanha. Carreguei nos botões minúsculos à procura do calendário. Confirmei, Domingo 10 de Novembro.
Isso queria dizer que estava um dia atrasado. Segunda-feira 11 era já amanhã. Era suposto estar em Lisboa engravatado ás 9 horas a entrar no escritório!!!!!
Faltavam-me percorrer 600 km até Ceuta, depois mais a travessia do estreito e depois mais 700 km até casa. Estava há duas semanas no reino de Marrocos e tinha perdido a noção dos dias…
Para ajudar estava de diarreia. Natural reacção à dieta marroquina regada com vinho do Porto!!!

Limpei-me e tomei um duche frio.
Corri para o quarto.
Meti os meus haveres dentro da mochila e desci para tomar o pequeno-almoço. Banana e chá de menta. Mais nada.
Antes das 11 já estava na estrada que serpenteia pela montanha em direcção ao norte.
O ultimo barco saía de Ceuta por volta da meia noite. Se não perdesse muito tempo na fronteira e seguisse directo podia ser que desse tempo.
Sem poder apertar muito com o clio de 91 lá fui fazendo o que podia. A maquina reagiu bem.

Eu só parei para por gasolina, comprar comida e ir à casa de banho.
A diarreia não deu tréguas. Nada de preocupante, nem febre, nem vómitos, nem fezes sanguinolentas… Diarreia simples. Completamente liquida e acompanhada de cólicas.
Apesar das paragens obrigatórias, a viagem seguiu rápida.
À hora de jantar já estava em Tetuan.
Como ainda tínham tempo decidi parar para esticar as pernas e comer qualquer coisa. Para ver se serenava os intestinos, limitei-me ao pão com Coca-Cola.

Cheguei antes das 9 à fronteira de Marrocos para Ceuta. Pouco carros, poucas pessoas a atravessar a pé. Afinal era domingo à noite.
Mesmo antes de chegar a minha vez para ser atendido, mostrar os documentos e seguir viagem, deu-me a cólica. Corri para a casa-de-banho do edifico da alfandega e desfiz-me em merda. Tive uns cinco minutos acocorado a expelir líquidos.
Quando cheguei ao carro já os guardas estavam desconfiados a bater nas rodas à procura de sítios ocos. Um tipo a ir a correr para a latrina mesmo antes de passar no controlo deve ter ido esconder alguma coisa. Pensaram que era aqueles gajos que passam a fronteira com trinta quilos de haxe escondidos em todos os buracos do corpo e do carro. Decidiram levar-me e revistar-me no gabinete da alfândega e caprichar na revista do carro.

Passei tês horas na fronteira. Despi-me, baixei-me, tossi, cuspi, escarrei, abri as bordas do cu, mostrei a garganta e nada. Cá fora fizeram-me a tirar tudo de dentro do carro. Quiseram abrir e verificar tudo. Embrulho por embrulho. Caixa por caixa. Saco por saco. Até o macaco tiraram de dentro da roda suplente que insistiram em desmontar. Levantaram os tapetes todos (deu para juntar mais de duzentos paus em moedas de escudos!). Tiraram os bancos de trás para fora… enfim, procuraram tudotudo.

Perguntaram-me três ou quatro vezes o que é que tinha ido esconder à casa de banho.
A polícia marroquina está interessada a prova ao mundo que os traficantes de haxixe são os estrangeiros – por isso não facilita!!!
Só quando eu expliquei pela enésima vez que estava de diarreia os convidei a acompanharem-me à latrina é que desistiram de querer levar-me ao hospital para me radiografar o intestino!!!!

Com todo esta insistência policial era já passava da meia-noite.
Do lado Espanhol da alfândega perceberam o que se tinha passado e mandaram-me seguir. Rápido, se quiseres apanhar ainda o barco da meia-noite e meia.
Acontece que à entrada da marginal de Ceuta, a caminho do porto, fiquei atrás do carro do lixo que fazia a recolha. Muito contentor tem aquela avenida... Catorze contentores de lixo. Contei-os. Entrei no porto dos ferris à meia-noite e trinta e quatro. O barco levantou ferro nesse preciso momento.

Seis horas de seca!!!

Para piorar as coisas, depois de entrar no porto não podemos sair voltar no dia seguinte. O bilhete é cortado e pronto.
Preparei-me para dormir ali no carro umas horas.
Ajeitei-me como pude no banco da frente.

O meu carro era o primeiro da fila. Só lá para as tês ou quatro da manhã começaram a chegar os camiões de transporte de mercadorias.

A polícia espanhola veste de uniforme de combate e passeia marcial. Patrulham o porto armados de metralhadoras e cães. Pastores alemães enormes e bem tratados… muito melhor alimentados do que todos aqueles que diariamente chegam do sul do continente e querem passar para a Europa.

Cinco da manhã. Farto de carro saí para a rua e fiquei a fumar cigarros e a trocar dois dedos de conversa com o bófia espanhol que estava mais próximo. Era um puto novo e trazia um cão também ele cachorro. Explicou-me que ali se treinam os cães para funções diferentes: há cães que servem para farejar droga – haxixe e heroína, há cães treinados para farejar explosivos e este cachorro em particular pertencia ao grupo dos cães treinados para farejar pessoas… clandestinos. O cachorro que tinha pela trela estava a fazer um ano de idade e chamava-se Platini.
Ali todos os cães policia tinham nomes de jogadores de futebol.

O Platini queria brincar e partilhei com ele o resto de um pacote de bolachas de agua e sal. O bófia disse que era ilegal dar de comida aos cães da coroa espanhola, mas como o rei não estava a ver podia ser…
A conversa estava gira mas a cólica falou mais alto. Perguntei-lhe onde eram as casas de banho. O gajo deu-me a indicação e disse-me que na ronda dele tinha de levar o Platini duas em duas horas às casas de banho para o cão farejar tudo não fosse esconder-se alguém ali para depois entrar clandestino no barco. Já tinha acontecido!!!

A casa de banho era um luxo para os meus critérios de selecção bastante alargados nas últimas semanas em Marrocos e nas últimas horas com diarreia…Até tinha sanitas. O chão estava limpo e nem cheirava muito mal.
Fiz o que tinha a fazer mas quando me fui para limpar percebi que já não tinha lenços de papel. O stock que tinha posto dentro do casaco tinha acabado. Claro que não havia papel higiénico…
Com este problema na mente, olhei para baixo e vi as meias. Turcas, de desporto, compradas na feira com a raquete à altura do meio da canela. Baratas, macias e super absorventes.
Confesso que não me foram desconfortáveis ao tacto… Calçar os ténis sem meias é que me pareceu menos agradável. Depois de as usar, deixei-as embrulhadas umas na outra atrás da sanita. Não queria entupir os canos ao homem, mas não havia baldinho para por os papeis…
Da bolsinha à tiracolo tirei a minha escova de dentes, a pasta e a micro-barra de sabão. Quase tomei banho no lavatório….

Cá fora o dia nascia do lado do mediterrâneo. O céu escuro da noite ia tomando tons mais claros.

Acendi mais um camel e respirei fundo o ar da manhã.

O barco que me iria devolver à Europa já tinha chegado.

Mais cinco minutos e chegou a brigada para inspeccionar o carro. Preparei-me para tirar tudo para fora outra vez. Que não era preciso. Bastava afastar-me do carro e deixar os cães fazerem o seu trabalho.
Assim fiz. Os cães policias eram simpáticos e não me fizeram perder muito tempo. Os tratadores dos cães mandaram-me entrar no carro e seguir.

Foi neste momento em que eu o vi. A correr e a latir de contente. O Platini vinha solto com a trela de rojo a correr na minha direcção. Atrás dele o bófia novinho que era suposto tomar conta do cão corria também. Na boca, o cão o trazia qualquer coisa… um trapo ou assim.
Entrei no carro à pressa quando reconheci as meinhas da raquete!

O barco demorou mais meia hora até encher e atravessou o estreito em quarenta e cinco minutos. Na free-shop comprei mais cigarros e lenços de papel. Aproveitei a pausa na condução para calçar umas meias.
De Sevilha telefonei para o escritório a dizer que estava doente e que metia mais um dia de férias.
Quando passei por Badajoz a diarreia começou a aliviar.
Cheguei ao Barreiro na segunda-feira à hora de almoço.
Comi comidinha caseira e adormeci a rir a pensar no achado do Platini.

11 Comments:

Blogger blimunda said...

uma meinha com raquete fica sempre bem!
não treines o resumo não! está-se mesmo a ver quem é que vai contar histórias para a ginga adormecer...

17:20  
Blogger Cleared For Take Off said...

LOLLLLLLLLLll acho que ninguem mais compra meias dessas!!

21:58  
Blogger Caganita said...

Eheheheheh!
Quem é que já não usou essa meinha??
Mas para esse uso, penso que poucos, eheheh.

17:47  
Blogger pinhacolada said...

Umas meias para todo o serviço!

21:44  
Blogger Unknown said...

Lindo.
Midelt é de facto a mais querida das cidades sem graça de marrocos.
Aquilo não tem nada de jeito, mas é ponto obrigatório de paragem... nem que seja só para cumprimentar o Moahamed mais Abdul de Marrocos.

Quanto à história... devo reparar que tens uma certa tendencia para perderes os barcos da mediterrânea, seja para cá ou para lá... com caganeiras ou rotundas em contra mão, a guardia civil já te parece conhecer...

12:19  
Blogger calamity jane said...

Gosto do teu blog. Ainda não consegui ler tudo (a tua companheira tem razão: não treines o resumo! Gosto de histórias compridas) mas "mexeram" especialmente comigo o texto sobre o Cavaquistão e a história do Victor Jara, que o meu pai me contou quando eu era miúda e que nunca esqueci.
Ah! Vim aqui parar através da bonita Horas Vagas que me conhece como miminanet. E ando em treinos para ter um blog que chegue aos calcanhares dos vossos...

19:43  
Blogger R. said...

ainda hoje o platini deve estar com mau hálito!

13:37  
Blogger pinhacolada said...

As grandes aventuras estão muitas vezes relacionadas com merda...

14:51  
Blogger calamity jane said...

...e quando escreves mais uma de 3 km prá malta se entreter?

20:37  
Blogger ziud0hbs35pe said...

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01:35  
Blogger jomaolme said...

LOL!!
Grande aventura a tua!!

21:51  

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