quarta-feira, julho 19, 2006

2º Piso - Psiquiatria


Eu vou dizer a verdade mas poucos vão acreditar em mim.
Vou contar como tudo aconteceu mas acho que alguns vão pensar que eu estou maluco.
Eu lembro-me de tudo. De tudo tudo. Até ao mais ínfimo pormenor.

De qualquer forma como Riki pediu e eu vou contar-vos.
O Riki acredita em mim. O Riki é meu amigo e por isso eu conto aqui a historia. E nem é pelas cervejas que o gajo me ofereceu…

Cá vai:

Chamo-me Marco Armindo Salvaterra, tenho 42 anos, sou bancário na CGD e estou de baixa.
Juntaram-se todos contra mim: o gerente da agencia, o meu senhorio, a minha ex-mulher e a minha prima Leonilde.
Acusaram-me de desleixo, irresponsabilidade e arrogância.
Por causa deles fui raptado e estive retido num campo de concentração que funciona clandestino no segundo piso do hospital do Barreiro.

Foi lá a casa um gordo cinquentão que cheirava a suor e a Old spice. Lembro-me como foi simpático comigo. A pedir com bons modo para ir com ele na ambulância e aceder a ligar a sirene quando eu lhe pedi.

Assim que cheguei à minha célula adormeceram-me com uma injecção que introduziu dentro de mim seres minúsculos e estranhos. Só mais tarde percebi o funcionamento da coisa.

Depois vieram com as naves pequeninas, circulares e bancas. Ofereciam as naves com água.
Obediente, eu engolia os pequenos discos brancos e sentia o escape da nave a deixar um risco de poluição até ao estômago. Um rasto de azia a lavrar-me o esófago. Quando as naves aterravam entre lagos e pântanos de ácido os pequenos seres que as tripulavam saíam. Depois entre os tripulantes alguns eleitos entravam na corrente sanguínea e subiam até ao meu cérebro. Os outros ficavam no estômago a fazer peso e a desmontarem a nave.

Era quando os infiltrados chegavam à cabeça que a tortura começava.

Os pequenos seres químicos, depois de me entrarem no cerebro começavam por me confundir as ideias. Impediam-me de seguir um raciocínio do princípio ao fim. Martelavam e punham em causa todas e qualquer premissas. De um modo sistemático desmontavam a minha lógica mental. A intenção era esgotar-me para quebrar a minha natural resistência.

Durante tempo interminável, os pequenos seres viajantes dos discos brancos trabalhavam dentro de mim.
Quando, passado algumas horas as pequenas naves se desintegravam, a minha merda saía peganhosa e mal cheirosa.

Regulares como um relógio suíço, vinham os pobres dos escravos vestidos de branco trazer-me mais micro-naves para eu tomar.

Ao por do sol uma escrava vinha dar-me uma injecção azulada que introduzia na minha corrente sanguínea os agentes sabotares. Toda a minha energia ia a baixo depois dos alienígenas introduzidos através da injecção azul terem rebentado com a minha central interna.

Por mais que eu quisesse continuar a pensar não conseguia.

Os olhos fechavam-se e adormecia um sono sem sonhos.

Acordava tarde com a boca amarga.

As naves que me obrigavam a engolir eram nada mais, nada menos do que minúsculos veículos militares onde os agentes da polícia de pensamento viajavam.

Estes seres micros actuavam no sentido de me impedir de pensar com queria. Devia pensar só nas ideias que me sugeriam.
Um dos escravos a quem os outros escravos chamavam doutor, volta não volta vinha falar comigo.
Ao início dizia-lhe a verdade e aquilo que sentia.
Depois percebi que o pobre homem também ele escravizado não tinha capacidade para ouvir a verdade. Percebi a coisa e mudei de actitude. Contei-lhe as mentiras que ele queria ouvir.
À medida que fui ficando fluente no discurso da mentira, o escravo a que os outros chamavam doutor começou a sorrir mais vezes e a ficar confiante no tratamento.
Não sei ao certo quanto tempo tive que me submeter ao campo de concentração para pensadores independentes.
Foram muitos dias.
Demasiados.

À minha volta outros. Não consegui perceber se eram como eu. Também os meus vizinhos de cativeiro estavam a ser vigiados por dentro. Tambem eles sofriam atraves das pequenas naves para tomar e injectáveis.

A partir de uma certa altura comecei a conseguir enganar os polícias do pensamento que me obrigavam a ingerir nas micro naves.

Bastava-me ficar parado sentado na cadeira virado para a janela. Ficava a ver os pardais nas árvores e a pensar só nos pardais. Os polícias ficavam baralhados e atacavam-se a si mesmo. Então tinha liberdade para ser pardal e saltar de ramo em ramo. Como bem me apetecesse.

Passei assim dois dias sentados a ver os pássaros nas árvores. Os escravos deixaram de me dar a injecções com os agentes sabotadores da central de energia interna.
Continuaram com as pequenas naves. Agora só duas antes de cada refeição.

Esta tarde saí da prisão.

Combinei com o medico escravo que o ia continuar a ver.

Voltei para casa.

Desci ao café e encontrei o Riki que me perguntou o que é que eu andava a fazer.
Como o Riki é um gajo fixe contei-lhe a verdade.

Bebemos umas cervejas mesmo contra a prescrição do escravo médico.

Quando cheguei à parte das naves pequeninas, o Riki trouxe-me aqui para o escritório e pediu-me para por tudo por escrito.

Agora vamos beber outra cerveja.

À malta que não é de confiança, e que me pergunta o que é que me aconteceu, digo que tive um esgotamento mas que agora estou melhor.
A história do esgotamento é fixe.
Justifica o internamento em psiquiatria e não tenho que estar com conversas.
Mas voces que são amigos do Riki, merecem a verdade.
Agora que ja sabem, ponham-se a pau.
Não deixem que os escravos de branco venham a saber. Nunca lhes digam que quando estão sozinhos pensam que podiam ser passaros.

Agora vou que bazar porque a Blimunda tá a chegar.

O Riki diz que se a Blimunda o apanha na palheta e a beber cervejas com os malucos do bairro lhe dá cabo do juízo….

10 Comments:

Blogger ZekE said...

Excelente...

10:13  
Blogger jomaolme said...

LOL!!!
História fantástica!!

Beijokas

10:57  
Blogger pinhacolada said...

em encontro do 3º grau, pá!

14:59  
Blogger CM said...

isto lido ao som da música da "twilight zone" então, nem vos conto...

16:47  
Anonymous Anónimo said...

Boa, assim com estas historias ficas mais leve!

parabéns :)

11:38  
Blogger Black Cat said...

Muito bom!
Os posts todos :)

20:37  
Blogger Shaktí said...

Quem conhece os serviços descritos aqui em promenor sabe bem que tudo isto é verdade.
Excelente post!

15:43  
Anonymous Anónimo said...

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22:57  

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