quinta-feira, julho 06, 2006

Fronteiras


Quando era puto imaginava que as fronteiras fossem riscos no chão. Imaginava as fronteiras desenhadas a giz. Ou melhor: feitas com tinta branca grossa e com revelo, como os traços contínuos da estradas.
As primeiras vezes que saí do país (para Badajoz claro) apercebi-me que fronteira queria dizer tensão legal latente e potencial confronto com a bófia. Era puto nos meus cinco ou seis anos mas lembro-me bem.

Na altura eram os guardas-fiscais do lado de cá e os carabineros do lado de lá. Ao chegar à fronteira, o carro parava numa fila. Depois vinham os guardas pedir o passaporte. As declarações assinadas para o miúdo poder viajar. Mais a papelada do carro. Transportam, café bebidas alcoólicas ou armas?
Os adultos faziam um ar sério e mostravam as pastas e pastinhas tiradas do bolso do casaco. O guarda que com ar de caso fazia o seu papel de cão de fila. O bófia, inspeccionava a documentação, depois as pessoas e depois outra vez a documentação. Ás vezes mandava abrir e revistava o carro. Mala, motor e interiores. Lembro-me de um tipo mais zeloso que uma das vezes até quis ver o cesto do farnel. Quando a inspecção acabava, lá nos mandavam seguir e passavam a chatear as pessoas do carro que vinha atrás.

Parecia que era um favor que nos faziam deixar-nos passar aquela cancela.

A seguir vinha a aduana. Caso não saibam, aduana é como os carabineiros chamam à fronteira. Bófias, vestidos de igual modo contudo de uma maneira diferente dos guardas de Portugal. Faziam exactamente a mesma coisa que em Portugal a falarem uma língua que sendo distinta se compreendia perfeitamente. Voltavam a pedir a mesma papelada. Se não fossem a má educação e arrogancia própria dos que usam farda, até podia ser um jogo.

Devo dizer que aquilo que mais me impressionava nos carabineros alem do chapéu à Napoleão eram as espingardas. Do lado português os guardas traziam uma pistola à cintura dentro dum coldre, do lado espanhol traziam uma enorme espingarda à bandoleira.

(Talvez venha daí a minha forte convicção que, ao contrário do que diz o merceeiro aqui do bairro sobre a fruta, em geral em España as coisas são melhores que em Portugal.)

O carabineiro inspeccionava papelada. Licenças e documentos carimbados. Das pessoas e do carro. Demorava eternidades a comparar os passaportes e os seus proprietários.
Era nesta fase que eu inventava a vontade de ir mijar. Na realidade o que eu queria era ir ver como era a fronteira do lado espanhol. Lembro-me de uma vez ter acontecido um detalhe que me impressionou bastante nessa aduana de Badajoz: pela primeira vez vi os cartazes com as caras dos bascos procurados por terrorismo. Fiquei pasmado a olhar para aquelas fotografias. Nos meus seis ou sete anos não compreendia que se tratassem assim pessoas. Os carabineiros passavam com papéis nas mãos. Um dos adultos que vinha comigo esforçava-se para me tirar dali e evitava responder aos meus porquês. Já nessa altura a minha conversa era subversiva. Nos anos 70 nem os portugueses nem os espanhóis estavam habituados à democracia.

Por essas idades entre os seis e os oito anos, comecei a aprender línguas sem aprender gramática. Ainda hoje a minha formação ao nível de línguas estrangeiras passa pela oralidade. Oralidade de fronteiras, da praia e de balcão de taberna.
A primeira frase que aprendi numa lingua que não o portugues, foi-me ensinada pelo meu avô paterno. O meu avô que foi ferroviário dos anos 40 aos anos 70 e com frequência viajava para Espanha. Apesar de não ser assunto discutido em familia, lembro-me que o meu avô, de vez em quando fazia algum pequeno contrabando para a família e para amigos. Importação de tabaco, caramelos, rádios de pilhas e ventoinhas.
Talvez seja esta genetica de semi-clandestino que fez com que primeira coisa que aprendi a dizer em "estrangeiro", fosse conversa raiana:
-- Míralo usted.

Aprendi o Miralóstê quase como uma palavra mágica para esconjurar carabineiros. Um tipo, mesmo que tivesse de seis anos, saltava do colo do avô mostrava o saco do lanche e dizia um sonoro miralóstê. O carabineiro, impressionado com a prontidão e percebendo que nada tinhamos a esconder, nem sequer se dava ao trabalho de espreitar. Debaixo da sandes de chouriço podiam vir os caramelos. Por milagre da palavra dita, era assim possível seguir livre de perigos. Um simples miralóstê permitia continuar passando para sempre fronteiras e aduanas embalado pelo comboio numa viagem sem fim.

À medida que fui crescendo uma dúvida sobre a consistencia das fronteiras foi-se instalando em mim. Onde raio ficava a fronteira para lá da berma da estrada e longe da linha do comboio?
Dum lado e Portugal doutro é Espanha. Na estrada a fronteira é marcada e guardada por bófias dos dois lados, mas fora da estrada como é?
A fronteira, onde anda ela?

Este tipo de filosofar espontâneo, fez-me perceber aí pelos meus oito ou nove anos que as fronteiras eram uma invenção dos adultos. Tipo lobo-mau ou bruxa da branca de neve: só assustam quem acredita nelas. A partir dessa altura sempre que nos aproximávamos de uma fronteira, comecei a sugerir sair da estrada e ir pelos campos. Sugestão que nunca ninguém levou a sério.

Durante a minha adolescência a Europa ficou sem fronteiras. Ainda bem.
Quando comecei a viajar fora da Europa voltei a deparar-me com os mesmos esquemas de fronteira que aprendi enquanto criança. E voltei a espantar-me com o absurdo da situação.

Sou ignorante por conta própria, isso quer dizer que não posso culpar ninguém pelas coisas que não sei. Tenho-me esforçado por aprender. Como sempre gostei de mapas, de atlas e de geografia, tenho andado a estudar o tema das fronteiras tão aprofundadamente quanto os meus próprios limites me permitem.
A conclusão a que vou chegando é aquela que por instinto percebi aos oito anos: As fronteiras não existem.
As fronteiras são traços imaginários. IMAGINÀRIOS. Não há Portugal nem Espanha. Há mundo.
Não há Marrocos, nem Argélia, nem Angola / Namíbia, nem Moçambique /Suazilândia, nem Suiça /França, nem Índia /Nepal. Há mundo. Muito mundo.
As fronteiras foram inventadas para enganar aqueles que são suficientemente ingénuos para acreditar nelas. Serviram para fabricar uma entidade colectiva a que os goverantes chamaram pátria. As pátrias são só pretexto de comparação em relação às pátrias dos outros.
Um tipo que é agricultor na beira baixa, trabalha a mesma terra que um agricultor na Estremadura. Porque é que um há-de ser português e outro espanhol?
Em nome das fronteiras, da sua integridade e da sua ampliação foi feito grande parte do mal que faz sofrer a humanidade.

A única função das fronteiras é delimitar um território de coutada para caça aos impostos de um determinado governo. As fronteiras têm uma função meramente económica. Quando o sistema económico pelo qual nos forçam a orientar for alterado, deixa de ser preciso inventar riscos no chão.

Vai chegar o dia em que as crianças só vão saber o que foram fronteiras nas aulas de história. Nessa altura, os putos de oito anos vão sorrir do absurdo que foi os adultos acreditarem em riscos imaginários no chão. Tal como os putos de hoje sorriem ao saber que os marinheiros de quinhentos acreditavam em sereias.

8 Comments:

Blogger blimunda said...

o que escreves é uma contradição, na minha modesta opinião. não é possível gostar de viajar, de atlas e de mapas se não existirem fronteiras. é uma ingenuidade pensar o contrário. só quer viajar quem tem vontade de conhecer o Outro. e esse só é Outro precisamente porque existem fronteiras. também acho que as fronteiras foram feitas para ser ultrapassadas. senão éramos todos iguais e isso seria uma imensa chetice!

12:18  
Blogger Pedro said...

Concordo com totalmente com o teu post.
Vivemos num mundo so, somos uma so raça, apesar das etnias, mas no entanto a dada altura complicámos tudo...
As fronteiras vao desaparecendo aos poucos, para nós, que bem ou mal ainda temos algum dinheiro para viajar e conhecer esse mundo!
Contudo continuam a ser barreiras fisicas e imaginarias para os menos beneficiados... todos realmente deveriamos ter direito às mesmas possibilidades!
Um mundo sem fronteiras ainda continua a ser uma mera ilusao... Uma Utopia!

12:24  
Blogger Riky Martin said...

Blimunda se seguires numa estrada nacional entre Tavira e Chaves, ves que o mundo muda, as pessoas tambem...
Viajamos juntos na India e não precisamos de atravessar fronteiras para conhecer culturas completamente diferentes.

12:39  
Blogger Riky Martin said...

PM, estamos completamente de acordo. A economia dita a organização politica. Mude-se a economia do mundo e tudo o resto tambem muda!!!

12:42  
Anonymous Anónimo said...

As fronteiras físicas existem, mas na minha cabeça não estão lá...

18:34  
Blogger Unknown said...

A fronteira mais linda qu'eu conheço fica ali ao pé de Avis e até lhe chamam a Sintra do alentejo.
É o que tenho a dizer

14:10  
Anonymous Anónimo said...

Bom post e ja n era sem tempo...

Bom regresso sem duvida :)


Sf

14:28  
Blogger pinhacolada said...

Eu que cresci como raiano, rejubilava de alegria quando passava o rio para o lado espanhol e olhava para todos os lados para ver se aparecia alguém diferente. Era uma sensação de fazer algo de proibido e ficava à espera que acontecesse algo de insólito ao ver as águias que no seu voo não tinham fronteiras. Depois o meu avô largava um berro e eu voltava para o lado de cá.

17:10  

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