quarta-feira, novembro 08, 2006

Barcelona e eu


Quando em 1992 estive em Barcelona fui completamente tomado pela cidade.
No inicio dos anos 90, Lisboa era um buraco (e ainda é!!) onde tudo quanto era modelo neo liberal americano tinha de ser importado, aplicado e adorado com reverencia.
Eram os anos do cavaquistão duro e cinzento. O santana lopes andava pela cultura de estado e aos estudantes que lutavam pelo ensino público os media chamavam geração rasca...
Os modelos capitalistas estavam intocáveis no seu pedestal.
Tudo quando fugisse a uma organização social organizado nas leis do mercado era considerado ridiculamente obsoleto.
Nesse ano de 92 andava eu a meio de uma licenciatura em ciências sociais. Acreditem que às vezes era desesperante lutar contra todo um universo de modelos e estereótipos em relação aos quais eu sabia convictamente que me era imprescindível lutar….
Chegar em finais de 92 a Barcelona e perceber que ali havia gente que ousava viver e fazer coisas de maneira diferente das maneiras impostas pelo costume... foi uma sensação incrível de liberdade.
Mais: ali as coisas aconteciam naturalmente sem grandes celeumas. As organizações juvenis politizadas e interventivas, os protestos consequentes, a cultura como coisa de rua feita para todos, as liberdades de hábitos e consumos, tudo isto foram para mim revelações.
Percebi que não estávamos só.
Percebi e reconheci-me numa esquerda possível, moderna, interventiva e progressista. Percebi que, ao contrário do que diziam certos pseudo esclarecidos, não estávamos todos a empurrar para a frente um carro que acabaria por de cair no precipício que tragou muro de Berlim.
Passaram por mim 14 anos.
Estudo e trabalho. A dependência, a independência. Um filho, um casamento, um divorcio. Uma união de facto. Africa, América e Ásia. Um ajuntamento. A magia branca e negra. O desamor. A morte passou por mim e levou-me família e amigos. A vida trouxe novos amores. Uma filha.
Definitivamente já não sou o mesmo.
Catorze anos depois, Barcelona foi uma desilusão.
A cidade deixou de pertencer à gente. Deixou de pertencer agente. Deixou de nos pertencer.
Encontrei Barcelona plastificada.
Onde antes andavam putas e velhos comunistas, estudantes borbulhentos em excursão de finalistas fazem declarações de amor a professoras solitárias.
Os turistas e os erasmos tomaram conta da cidade.
A propaganda política saiu das paredes.
Tabernas fechadas transformadas em espaços design.
Jovenzitos bem parecidos empenhados em parecer artistas. Artistas empenhados em fazer fortuna. Ricos empenhados até aos cabelos.
Bancos e lojas finas. Quiosques de recuerdos a venderem o touro andaluz a mil km de distância.
Em 92 vi pela primeira vez uma verdadeira fusão de culturas. Desta vez não encontrei a cidade. Está mais moderna, disseram-me. E globalizada. Globalizada com tudo de mau que o conceito arrasta.
Barcelona, é hoje propriedade de uma minoria catalã, onde trabalham os magrebinos e sul-americanos para servir os europeus que a visitam à procura daquilo que é suposto ser uma alma cultural hispânica.
O mediterrâneo que inundava as praças da cidade com o cheiro a mar foi afastado para lá de uma imensa marina construída como uma montra para a cidade. Que interesse tem ver barcos de luxo se um estivador já não consegue arranjar trabalho no porto?!?!
Os velhos republicanos sempre dispostos a contar como aqui se lutou e morreu pela liberdade devem já ter baicado todos.
As casas ocupadas têm subsídios camarários e são centros culturais.
O turismo e a cultura são o negócio.
Barcelona que eu vi em 92 está viva. Eu sei que ainda está viva. Mas está escondida. Na clandestinidade. Espera por melhores dias.
Daqui a uns tempos, quando os erasmos todos voltarem para as suas terras cinzentas e para carreiras de sucesso em gabinetes de classe,
Quando os touritos mais os bibelots e os livros sobre arquitectura comprados pelos turistas ganharem suficiente pó,
Quando no Equador, na Guatemala, nas Honduras ou na Bolívia, já não for preciso fazer as malas para ir procurar comida noutro lado,
Quando os muros que alguns políticos quiseram construir à volta da Europa ruírem por falta de fundações,
Então aí pode ser que Barcelona possa voltar a ser Barcelona.
Então volta tudo a ser possível.
Outra vez à luz difusa do entardecer vou ver o fantasma do Picasso deambulando à procura dos amigos fuzilados em 36.
Vou sentar-me numa mesa quadrada de mármore, pedir lume ao octogenário anarquista e atirar-lhe assim de caras:
--- Foi a vossa indisciplina que fez perder a guerra e abriu a porta ao franco.
Depois vou ficar a embebedar-me com osborn o resto da noite, enquanto aprendo histórias de trincheiras e de solidariedade. Sem regras.

3 Comments:

Blogger jomaolme said...

Assim como a tua vida mudou e consequentemente a tua personalidade, tb o mundo mudou. Nada é eterno. Nada permanece igual. Mesmo que muitas vezes o quisessemos...

17:58  
Anonymous Anónimo said...

olha eu adorava conhecer Barcelona... é uma da minhas falhas!

10:49  
Blogger Cleared For Take Off said...

Os touros vendem-se em todo lado como o galo de barcelos cá :)

13:48  

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