terça-feira, janeiro 17, 2006

Tejo que levas as àguas correndo de par em par, lava a cidade de mágoas


(Não, não vou falar de poesia do Manuel da Fonseca porque ainda acabo a falar no candidato à presidência Manuel Alegre)
Venho falar-vos de fezes e de testículos.
Descansem os críticos higienistas que já estão a resmungar: lá vem este gajo outra vez com conversas de merda.
Pois é.
Mas desta vez é diferente.
Desta vez não venho falar de histórias mais ou menos sujas de um passado remoto com cigarros para rir e gente alcoolizada. Nada disso. Venho falar-vos do futuro.
Venho falar-vos do rio. Do nosso rio.
Do Tejo e da ETAR.

Foi anunciado aqui há uns dias na imprensa regional o arranque do projecto para execução de uma Estação de Tratamento das Aguas Residuais dos concelhos da Moita e do Barreiro. Uma ETAR.

Porreiro – e depois?? – dirão os cínicos – o que é que essa merda interessa???
Interessa muito.

Esta coisa simples da ETAR é uma peça fundamental na construção do nosso futuro. As ETAR são hoje o que de mais próximo temos com unidades de reciclagem de agua… São uma fábrica que transforma agua suja em água limpa.
Num futuro tragicamente próximo o mundo vai dividir-se entre os países que têm agua e fazem uma gestão inteligente da água … e aqueles que não têm agua e têm de a comprar….
Se no Iraque hoje os americanos matam em função do petróleo, imaginemos o que não farão amanhã por causa da água. É a história do beirão a matar o vizinho com a inchada por causa “d’eiagua” à escala global.
É preciso estarmos preparados. E uma forma de nos prepararmos é construindo ETARs.
Uma ETAR não só uma piscina de merda.
Uma ETAR é uma família de piscinas de merda. Imaginemos um campo vedado com tanques enormes onde os esgotos domésticos vão desaguar. Tudo aquilo que mandamos pela sanita, pias, ralos, lavatórios e urinóis passará a ir pelo esgoto directamente para estas enormes piscinas… Estas aguinhas sujas são tratadas de modo a separar os resíduos.
Na ETAR a merda é separada dos pensos higiénicos, dos preservativos usados, dos restos de comida, e de todo tipo de objectos que se podem atirar pelo cano.
As fezes são transformadas em adubo. As areias são extraídas e reutilizadas. O lixo é removido da água. O cheiro é transformado em gás metano.
Enfim, é executado todo um complicado processo para que a agua do esgoto possa sair num estado suficientemente limpo para ser usada outra vez. Se para beber outra vez ainda não temos tecnologia para isso, podemos usar perfeitamente as aguas recicladas numa ETAR para regas, por exemplo.

Quando esta ETAR estiver a funcionar, a qualidade de vida das pessoas que vivem os concelhos do Barreiro e da Moita vai melhorar. Em breve (dentro de uns dois ou três anos) a merda que todos nós fazemos, deixa de ser canalizada pela rede de esgotos até ao Tejo e passa a ser "tratada" na ETAR e isto vai premitir às águas do rio correrem mais limpas.
É verdade que o Tejo hoje está menos sujo do que há vinte anos. Sem a poluição industrial das fábricas deixaram de aparecer peixes mortos por causa do amoníaco e deixou de aparecer aquela nata de espuma preta a boiar na maré cheia… De qualquer maneira sempre que se fazem analise às águas os números de bactérias fecais são assustadores…Bacterias fecais é uma maneira educada de dizer merda dissolvida na água. São esses índices que vão baixar drasticamente sem os esgotos domésticos a sujarem o rio.

Sei que decidir construir a ETAR não foi uma opção fácil.

A autonomia das autarquias já era.
As câmaras municipais são responsáveis por mais de dez por cento do investimento público mas só têm direito a dois por cento do orçamento geral do estado.
Os sucessivos governos têm vindo a desrespeitar o funcionamento democrático e fazer das câmaras municipais verdadeiros reféns da crise e do deficit. Para as autarquias cada vez vai menos dinheiro do orçamento geral. Por isso as câmaras não têm dinheiro para grandes infra-estruturas nem investimentos.
A Câmara Municipal do Barreiro, essa então está duplamente paupérrima. Para alem da torneira fechada pelo estado, estão as dividas e os compromissos assumidos e não cumpridos pela anterior gestão.
Contra a construção da ETAR não está só este mal nacional crónico que é a falta de dinheiro…há mais.
Há os interesses.
Contra a construção da ETAR está também o lobie fortíssimo dos especuladores imobiliários. Neste caso o rosto por trás da mascara é o grupo Mello que é proprietário da Quimiparque, zona onde ETAR vai ser construída. Claro que os senhores da família Mello pretendiam urbanizar a área em causa. Claro que o objectivo da Mello Imobiliária é lucrar com a especulação imobiliária que se avizinha com a decisão da construção da nova travessia sobre o Tejo – Barreiro Chelas. Claro que a construção da ETAR é uma pedra no sapato destes senhores…
Contra a construção da ETAR está também lógica da política da demagogia. A lógica da política de fachada, não permite construir ETARs…
A ETAR que vai ser construída para servir os concelhos do Barreiro e Moita, não é uma obra para inaugurar com as televisões em horário nobre. Cheira mal… tresanda um fedor que afasta os senhores jornalistas. Não é um exemplo máximo do topo de gama das engenharias. Não é um jardim enorme com cinemas e centro comercial incluído. Não são luzinhas a acender e a apagar que os totós gostam de ver e que fazem ganhar eleições. Afinal de contas, aquilo que foi decidido foi construir um grande balde de merda em cimento….

Mas fazia falta.

Por todas estas razões, acho que esta foi uma decisão de “tomates”.
Independente da cor politica de quem tomou a medida de construir a ETAR , penso honestamente que é um boa medida…
Felizmente para mim, e estou convicto, para o concelho, a câmara do Barreiro é uma autarquia comunista. Esta autarquia, a minha autarquia, ao decidir pela construção da ETAR deixou-me cheio de orgulho nos meus camaradas pela decisão tomada. É como se aquele balde de merda tamanho gigante que vamos fazer no quintal dos Mellos também fosse um bocadinho meu.

Tenho uma esperança feita de certeza que um destes dias posso ir com os meus filhos e com o meu cão à praia da minha terra. Mas à praia mesmo … com toalha e fato de banho e cesto com farnel. Espero um destes dias poder em família dar um grande mergulho no rio que é nosso e não é dos Mellos. Um mergulho tão grande como aqueles que dei na minha infância… mas num Tejo muito mais limpo
Flatulências a partir de 28/01/2006