quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Prohibido olvidar


No dia 11 de Setembro de 1973 o Victor Jara acordou mais tarde. Tinha estado a trabalhar num novo disco.
A mulher, uma hipie inglesa que se apaixonou pelo Vítor Jara e pelo Chile, andou pela casa em bicos de pés para não acordar o marido. Fez o pequeno-almoço e levou as filha do casal à escola.
O Victor saiu de casa já próximo da hora de almoço. Meteu-se no Dois Cavalos e seguiu para a escola politécnica, naquele dia estava previsto animar uma sessão de esclarecimento aos estudantes universitários. A música era para ele tão importante que não era capaz de ouvir musica e concentrar-se noutra coisa ao mesmo tempo. Por isso nunca ouvia rádio no carro. Só quando chegou à reitoria é que se apercebeu que algo de estranho se passava em Santiago.
Nos últimos meses – desde a campanha eleitoral de Allande – o Victor Jara andava numa roda-viva. Concertos, manifestações de apoio, espectáculos politizados, comícios. Andava com pouco tempo para a família, a mulher queixava-se mas já tinha planificado um fim-de-semana sem concertos para dedicar-se exclusivamente aos seus. No ano anterior tinha estado em Cuba com a mulher e as filhas uns meses antes e estas foram as únicas férias que teve na vida.
Nesse dia 11 de Setembro o general Pinochet entrou na história quando, pela força das armas, tomou o poder do presidente democraticamente eleito Salvador Allande. Os militares bloquearam as entradas da universidade com tanques. Grupos de homens fardados e equipados para a guerra invadiram a universidade. Reuniram toda a gente, estudantes, professores e funcionários num único pátio interior. Obrigaram que todos ficassem sentados no chão com as mãos em cima das cabeças. Começaram a primeira identificação e triagem. Chamavam os nomes dos professores mais conhecidos pelas suas actividades politica e imediatamente os levavam algemados
Para Victor e para os outros camaradas que estavam na universidade não houve duvidas. Desde o primeiro segundo perceberam que o que estava a acontecer era um golpe de estado fascista. O Victor Jara era na altura um símbolo da esquerda chilena. Era “a voz” do regime de Salvador Allande. Todos conheciam o seu nome, as suas músicas e a sua posição politica. Apesar da fama, o rosto do cantor de intervenção não era ainda uma cara publica pois a televisão só tinha começado a emitir em 1968. Em 1973 um televisor era um objecto de luxo, eram poucos os chilenos que tinham um. Alem do mais, o Vítor Jara só tinha aparecido uma única vez na televisão. Por estas razões os professores e os dirigente estudantis insistiram que o cantor os imitasse nas medidas de segurança, assim, tal como os outros revolucionários profissionais o cantor fez desaparecer pela sarjeta que servia o pátio onde estava, todos os documentos pessoais que o identificavam. Apartir daí mudaria de nome.
Na primeira vez que um dos militares lhe perguntou o nome e a profissão, o Victor Jara disse:
-- José, profissão carpinteiro.
O militar mandou-o levantar e seguir com todos os outros em passo de corrida e fila indiana. Sempre com as mãos em cima da cabeça, os cerca de mil homens e mulheres que estavam no pátio da universidade, seguiram os cinco quarteiros que separam o campus universitário do estádio nacional de Santiago do Chile. O recolher era obrigatório. Pela rua circulavam exclusivamente carros militares.
O estádio já estava cheio de prisioneiros.
Ouviam-se tiros e rajadas de metralhadora. O silêncio era imposto entre os presos. Espancamentos.
Ao grupo que chegou da universidade foi-lhes indicado uma parte do relvado onde deviam esperar. Passaram-se algumas horas. Entretanto um capitão da força aérea, um indivíduo ruivo, informado sobre os presos que chegaram da universidade, pegou num megafone e chamou:
-- O cantor Victor Jara.
Silencio. Victor sabe que a sua vida está em jogo. Baixa a cara quando o militar passa com as botas engraxadas e pisar a relva ao lado da sua perna. Uma voz soa na outra ponta do grupo.
-- Sou eu o Víctor Jara.
-- Mentira, eu é que sou o Víctor Jara.
-- Sou eu
Dezenas de homens entre professores e alunos tentaram proteger o cantor. Todos diziam ser o Victor Jara.
O verdadeiro levantou-se e cantou. Cantou uma das suas canções mais conhecidas. O Manifesto
O Ruivo bateu-lhe imediatamente com a coronha da pistola que tirou da cintura.
Insultos.
Dois soldados (dois miúdos camponeses, fardados e de metralhadora ao ombro) ataram com arames os pulsos do cantor atrás das costas.
Arrastaram-no para os camarotes que estavam transformados em câmara de tortura.
Pelo caminho debaixo das bancadas Victor percebeu que provavelmente não saia com vida do estádio. Por todo o lado fuzilamentos.
O ruivo mandou cortar as algemas ao cantor.
Sentado atrás da sua secretaria vazia olhava o outro homem que escorria sangue da testa. Um soldado entrou com a guitarra acústica do Victor.
-- é tua?
(tinha-lhe sido oferecida pelo Sílvio Rodriguez em Havana no ano anterior)
-- Recuso-me a prestar declarações. Estou detido ilegalmente.
O militar sabia que era inútil. Já estava a fazer interrogatórias há horas. Tinha ordens para abater o cantor e mandar o corpo para a morgue sem identificação. A ideia era limpar Santiago dos intelectuais de esquerda fuzilando e enviando para a morgue para serem enterrados em valas comuns. Queriam fazer desaparecimentos.
A postura de resistência e de insubmissão do cantor provocaram-lhe uma crise de ódio. Sim porque o ódio, apesar de ser uma doença crónica provoca intensas e agudas crises.
-- Sargento, traga o martelo que vamos ensinar esta comuna a tocar viola.
Com a ajuda de dois soldados o sargento esmagou cuidadosamente à martelada todas as falanges dos dedos do Vítor Jara.
O capitão acendeu um cigarro e pediu café. Não dormia há mais de 24 horas. Estava frustrado porque a ele calhava sempre o trabalho sujo.
Pegou ele no martelo.
Marteladas nos testículos, nos rins e nos dedos dos pés.
O corpo do cantor era uma coisa amontoada no chão.
O sargento e um dos soldados levantaram o que restava do homem.
O outro soldado foi vomitar.
O capitão Ruivo voltou a falar para o preso:
-- Canta agora comuna, canta para eu ouvir.
Dizem as testemunhas – o soldado que foi vomitar e um outro que ficou à porta de metralhadora em punho– que o homem que estava ferido se endireitou nos braços dos militares e cantou.
-- vencermos!!!
O capitão Ruivo voltou a tirar a pistola do coldre e matou o cantor.
Na manhã seguinte levaram o corpo do cantor sem identificação para a morgue.
Um empregado da morgue, militante da juventude comunista chilena reconheceu o Victor Jara entre as centenas que chegaram nessa manhã.
À tarde o partido arranjou maneira de avisar a mulher do cantor. Era preciso recuperar o corpo para que o mundo viesse a saber o que tinha acontecido ao Victor Jara.
Depois de muita pressão da embaixada inglesa, a junta militar presidida pelo general Pinochet autorizou a família a recuperar o corpo.
Victor Jara foi enterrado no cemitério de Santiago. Tinha trinta e quatro anos. No dia seguinte o diário chileno “La segunda” informava laconicamente que tinha sido enterrado o cantor "Victor", numa cerimónia reservada à família.


Conto esta historia aqui porque hoje, em Janeiro de 2006, em conversa com duas amigas percebi que nenhuma delas sabia quem tinha sido e o que representa o Victor Jara.
As amigas de que falo são mulheres inteligentes e cultas. Uma delas é realizadora e produtora de documentários, a outra é jornalista num dos maiores diários do país. Não são de todo louras burras!!!! São pessoas instruídas e bem formadas. Para elas Victor Jara era a brigada. O grupo que divulga (a boa) musica popular portuguesa. Não conheciam o cantor chileno.
A culpa não é das minhas amigas.
A culpa é de todos nós que sabemos como a coisa aconteceu e apesar de tudo às vezes deixamos que os outros esqueçam.
A mulher do cantor Victor Jara tem uma fundação para que ninguém esqueça.
Flatulências a partir de 28/01/2006