segunda-feira, março 06, 2006

Glória ao Almirante Negro


Brasil 1910. A escravatura tinha sido abolida oficialmente há 22 anos mas a condição das pessoas não se muda por decreto. Em muitos sectores da sociedade continuava-se a viver uma realidade completamente esclavagista.
Uma das instituições na qual o esclavagismo mais se evidenciava era na Marinha de Guerra do Brasil. O uso do açoite como medida disciplinar continuou a ser aplicado aos marinheiros. Os marinheiros, que na sua esmagadora maioria eram negros continuavam a ser açoitados publicamente por determinação dos oficiais que eram exclusivamente brancos. O pelourinho continuava a existir nos navios da marinha do Brasil.
Quando algum marinheiro era condenado a açoites os outros marujos eram obrigados a assistir à punição. Esta infâmia criou condições para um das primeiras revoltas modernas: a “Revolta da Chibata”.
Chamo moderna à “revolta da Chibata” porque ao contrário de outras revoltas abordo de barcos de guerra esta foi das primeiras a ter um cariz claramente ideológico. Não foi um motim, foi uma revolução.
Para o movimento revolucionário internacional, a Revolta da Chibata, também foi uma das primeiras de uma série de revoltas de marinheiros que pelo mundo fora ergueram bandeiras e que fizeram desta classe de militares um dos sectores mais progressistas e revolucionários.
Em 1910, uma viagem de instrução à Inglaterra cria a consciencia de classe necessaria à reacção ideologica.

Durante a viagem inaugural do Minas Gerais,os marinheiros tomam consciência do movimento pela melhoria das condições de trabalho levado a cabo pelos marinheiros britânicos entre 1903 e 1906. E claro da insurreição dos russos embarcados no encouraçado Potemkin, em 1905.

No dia 20 de Novembro de 1910 abordo do Minas Gerais, o marinheiro negro Marcelino recebeu 250 chibatadas em frente a toda a tripulação, formada propositamenta no convés, para assistir à punição. O homem desmaiou, mas os açoites continuaram. Tinha sido condenado injustamente por pretensamente ter participado numa briga.
Os marinheiros revoltaram-se. Chefiados João Cândido organizaram-se contra a situação humilhante de que eram vítimas. Nos outros navios da esquadra a marujada também aderiu à revota.
O cabo Gregório liderava no São Paulo, e no Deodoro havia o cabo André Avelino.

A revolta alastrou na classe esclarecida dos marinheiros, num golpe de mão, João Cândido apoderou-se dos principais navios da marinha de guerra.
Cândido que ficaria conhecido como o Almirante Negro, aproximou-se do Rio de Janeiro e mandou uma mensagem ao presidente da república exigindo a extinção do uso da chibata.
A capital então era no Rio, o governo ficou estarrecido. Ter os marinheiros a controlar os canhões mesmo à entrada do porto assustou a classe politica. O governo e a oposição parlamentar tornaram-se momentaneamente solidários e fizeram correr todo o tipo de boatos injuriosos sobre os revoltosos e o pânico espalhou-se pela população do Rio.

Os navios amotinados, tinha hasteado bandeiras vermelhas e nos bairros periféricos já se falava na “Comuna do Almirante Negro”.

Neste impasse o governo negociou com os marinheiros e proibiu oficialmente o uso da chibata nos navios de guerra. Foi negociado uma rendição com amnistia para todos os amotinados.

Com isto, os marinheiros desceram as bandeiras vermelhas dos mastros dos seus navios. A revolta havia durado cinco dias e terminava vitoriosa. Desaparecia, assim, o uso da chibata como norma de punição disciplinar na Marinha de Guerra do Brasil.
No entanto, a amnistia fora uma farsa para desarmá-los.

Assim que depõem as armas, são acusados de conspiradores e presos imediatamente
A guarnição da ilha das Cobras que também se havia se sublevado é atacada. Os poucos sublevados daquela ilha propõem rendição incondicional, o que não é aceite. Segue-se uma verdadeira chacina. A ilha é bombardeada até ser arrasada. Estava restaurada a honra da Marinha.
O presidente Hermes da Fonseca necessitava de um pretexto para decretar o estado de sítio, a fim de sufocar os movimentos democráticos que se organizavam. As oligarquias regionais tinham interesse num governo forte.

João Cândido, juntamente com alguns camaradas foi encerrado numa masmorra da ilha das Cobras. Dos 18 reclusos da sua cela 16 morreram. Uns fuzilados sem julgamento, outros em consequência das péssimas condições em que viviam enclausurados.
João Cândido enlouqueceu, e acabou por ser internado no Hospital dos Alienados. Tuberculoso e demente, consegue, contudo, restabelecer-se física e psicologicamente.
Em 1943 é-lhe concedida uma amnistia que lhe permite “ir morrer a casa”.
Assim que cruza as portas do presídio passa imediatamente à clandestinidade.

O Almirante vem a morrer em 1969, com 89 anos.
Os últimos anos da sua vida foi peixeiro no Entreposto de Peixes da cidade do Rio de Janeiro, sem patente e sem reforma. Gostava de se sentar com os amigos para admirar os rabos das mulatas, tomar cachaça e fazer samba em caixa de fosforos.

A Elis Regina imortalizou o Almirante Negro num samba enrredo chamado “0 mestre-sala dos mares”. O autor da letra chamado Aldir Blanc contou que quando escreveu o samba em meados dos anos 70 teve de inventar “polacas e franceses” para poder passar a letra que era demasiado politica na visão dos censores.

Fica aqui a letra e fica a homenagem ao Almirante Negro.

Mestre-Sala dos Mares

“Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar apareceu
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como almirante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar, na alegria das regatas
Foi saudado no porto
Pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas

Rubras cascatas
Jorravam das costas dos negros
Entre cantos e chibatas
Inundando o coração
Do pessoal do porão
Que a exemplo do marinheiro gritava, então:

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias,
Glória à farofa, à cachaça, às baleias,
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esqueceram jamais.........

Salve o almirante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais

(Mas, salve...)

Salve o almirante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais”
Flatulências a partir de 28/01/2006