sexta-feira, julho 14, 2006

Queda pá coisa



O Zirinho morreu de cirrose.
É por isso eu não compro um capacete para andar de bicicleta.

O Zirinho, que viveu uns sessenta anos aqui no meu bairro. Morreu no ano passado com o fígado feito em nhanha.
Zirinho, é o nome incompleto. O nome completo era Zirinho Queda-facial. Tinha esta alcunha porque nos últimos 15 anos da sua vida fazia o número da queda facial várias vezes por dia. Trocava a Queda-facial por minis.
Na taberna na Glória, desafiava conhecidos e desconhecidos para apostarem uma mini versus a sua Queda-facial.

-- Ó migo, já viu a minha Queda-facial? Mande lá vir uma mine pra cima do balcão que eu faço a queda. Se não ficar satisfeito com o numbaro bebe a mine você, conde não mamo a mine eu!

Se às primeiras propostas era habito haver recusas, com a insistência do artista o espectador acabava por ceder. Um sim tímido feito com a cabeça era motivo para o Zirinho dar pancadas de mão aberta em cima do balcão até a Dª Glória por a mini gelada aberta sobre o mármore.

O Zirinho começava os preparativos:
Abria a camisa até ao umbigo.
Ia ao prego espetado ao lado da porta da casa de banho buscar a toalha turca e cuidadosamente dobrava o pano em forma de um pequeno rectângulo.
Os clientes da taberna abriam uma clareira no chão de azulejos polvilhado de serradura.
O Zirinho dispunha cuidadosamente a almofada feita com a toalha um metro e meio à frente da biqueira dos chinelos.
Tirava a cruz que tinha ao pescoço, embrulhava o fio no cristo e metia na boca debaixo da lingua.
Fazia-se silêncio na tasca.
O Zirinho fechava os olhos e benzia-se.
Braços esticados ao longo do corpo, posição de sentido.
Respirava fundo e fazia o numero dele.

Deixava-se cair.
Direitinho como uma tábua
Cara contra os azulejos e testa a bater na toalha.

Impressionava quem via.

Impressionava ainda mais a velocidade com que o gajo se levantava e emborcava a mini que em cima do balcão esperava por ele.

Quando o Banto estava por perto, não deixava o Zirinho fazer a Queda-facial. Pagava ele a mini e dizia ao pessoal para evitar aquelas quedas. O Banto é um guineense que veio jogar à bola para o Barreiro nos anos 60 e que foi um dos melhores jogadores que há memoria na equipe da Cuf. Aqui na zona toda a gente, novos e velhos, conhece e respeita o Banto. Por isso quando o Banto vinha à taberna pedir para acabar com a queda facial do Zirinho, até a dona Gloria dizia que não queria vender mais cerveja assim.

Apesar dos pedidos do Banto, calculando assim por baixo o Zirinho deve ter dado umas doze mil quedas nos últimos dez anos da sua vida. Faciais e sem ser faciais. Cair estava-lhe no sangue. Foi paraquedista no tempo da guerra colonial e orgulhava-se de nunca ter descido de um comboio com a máquina parada na estação.

Volta não volta atirava-se pró chão – só para enrijar os ossos dizia.

Ora cá no bairro, não há memória de um gajo que tenha caído tantas vezes.

A não ser talvez, o Manel Beicinho nos meses a seguir a ter comprado a famel. Nessa altura, o traje obrigatório do Manel Beicinho, era capacete com um rabo de raposa num braço – o saudável -- e gesso e lenço a prender o gesso ao pescoço no braço que estava partido…Três em três semanas trocava o capacete pelo gesso. Mas esse é outro tema. Alem do mais o Manel Beicinho ia tratar-se ao hospital. O Zarinho não se metia com médicos. Tratava-se a ele próprio.

O Setentaeduasminis que mora no mesmo prédio onde o Zirinho morava, diz que não se lembra nunca de ver o Zirinho descer as escadas. Do terceiro andar até à rua o processo era sempre o mesmo. Andava no patamar depois caía o lance de escadas. Levantava-se endireitava-se e caía outro lance. Assim até à rua.

O Zirinho nunca partiu nada a não ser uma vez o pára-brisas do carro do Gosma. O Gosma é bófia, mora aqui na rua e ninguém gosta dele -- nem a própria mulher que lhe pôs os cornos com um sobrinho.
Dessa vez, já o Zirinho tinha bebido qualquer coisa e quando saiu da taberna caiu por cima do carro do Gosma com uma garrafa de cerveja na mão. Partiu-se o vidro do carro.
Depois o estúpido ainda queria prender o homem… Claro que a malta que estava na taberna não deixou… Pagamos o copo prometido ao Zirinho e mandamos o Gosma por no seguro!!!!

Só por autocarros vi eu o Zirinho ser atropelado mais de uma dúzia de vezes. Isto sem exagero. E só falando em autocarros. Não contando com camionetas, frogonetes carrinhas carro e motas.

O Zirinho, nunca foi ao hospital. Levantava-se das quedas ou dos atropelões e sacudia-se. Se houvesse sangue ia lavar-se à taberna ou à torneira que há atrás da Santinha no jardim. Estaleiro é que nunca.

Morreu cedo coitado e não foi de nenhuma queda.

Pois esta conversa toda do Zirinho vem a propósito dos capacetes para os ciclistas.
Como eu agora ando todos os dias de bicicleta, algumas pessoas bem intencionadas vem falar comigo a dizer que tenho de arranjar um capacete… Por causa das quedas. Avisam.
Cá eu, quando me falam em quedas lembro-me logo do Zirinho Queda-facial e a única coisa que me ocorre responder é que arranjo um capacete quando se fizerem capacetes pró fígado…É com a isca que um gajo tem de se por a pau….
Flatulências a partir de 28/01/2006