segunda-feira, julho 31, 2006

La Habana e o robalo cabeludo


Seguindo pela 5ª Avenida, um bom par de quilometros depois da Marina de Hemingway, vira-se à esquerda e chega-se ao bairro de Santa Fé. Subúrbio pobre com casas pequenas e hortas minúsculas. A selva começa aí e abraça a Havana pelo lado nascente. Construções humildes de gente humilde. Vegetação eufórica de vida que cresce eternamente verde por todo o lado. Pisos térreos com janelas sem vidros e portas sempre abertas para que a brisa cumpra a sua função de arrefecimento.
Passei por ali em finais de 98. Sentado na cadeira de baloiço, recuperei da escarlatina e aprendi a fumar puros nessa casa. Sentava-me, acendia o charuto e assistia ao crepúsculo rápido olhando os fios eléctricos que passavam por cima da casa em frente.

Desde o primeiro dia que fiquei naquela casa, que reparei nos pássaros. Pela primeira vez vi em liberdade abutres. Neste caso, urubus. Passarões negros, do tamanho de perus, com o pescoço e a cabeça despidas de penas, mostrando a pele vermelho vivo. Quase todos os dias, ao final da tarde faziam a reunião do bando, sobre a casa da frente.

Só mais tarde vim a perceber porquê. A casa que ficava do lado de lá da pequena rua de terra batida, em frente à minha cadeira de baloiço, era uma agência funerária.
Em Cuba os velórios são laicos e feitos nas agências funerárias. No caso de haver corpo, os urubus apareciam para velar o morto. Se não houvesse corpo na casa em frente da minha, os urubus faziam a sua vidinha por outros sítios e não apareciam em Santa Fé.
Quando poisavam nos fios, vinham avisados por um cheiro difuso de carne em putrefacção. Entre o cheiro a estufa, a tabaco e a diesel falsificado só os urubus distinguiam o cheiro a morte.

Mais ainda do que pelo aspecto tétrico da questão, fiquei impressionado pelo instinto de sobrevivência destes pássaros.
Passaram quase oito anos e não voltei a Cuba – tenho saudades do cheiro a estufa, a tabaco e a diesel falsificado.

Num outro continente, um mar de milhas a nordeste de Santa Fé, na praia do Barreiro, uma das barracas foi transformada num bar.
Melhor: uma das barracas foi transformada numa taberna. Passo por lá quase diariamente quando ao final do dia vou andar de bicicleta.

O dono da barraca transformada em taberna é um tipo que vive de esquemas desde que a mãe o pariu. Abriu a taberna ilegalmente, vende cerveja que refresca em bidões de gelo. Meteu um ucraniano grandalhão a fazer o serviço das mesas e passa o dia descalço em calções de banho a coçar a micose.

Foi com um arrepio de calor, entre a febre e a saudade que da praia do Barreiro me vi transportado para Havana e me lembrei dos urubus nos fios eléctricos.
Aqui junto ao Tejo, voltei a ver o bando de abutres. Encostados ao balcão da tasca mantinham a pose de quem espera poder comer.

Desocupados permanentes. Ex-presidiários cinquentões. Chulos profissionais. Reformados por invalidez que se dedicam à pesca. Empreiteiros clandestinos. Toxicodependentes recuperados à força de bagaço. Sucateiros receptadores. Profissionais da baixa permanente. Vendedores de carros usados e material roubado. Velhos gaiteiros e pescadores de estuário.

Em Cuba a lição dos abutres ficou aprendida. Não vi o morto mas percebi que havia ali carne em decomposição.

Continuei a passar pela taberna improvisada com mesas e cadeiras entre o lodo. Todos os dias vou andar de bicla entre os cães vadios e o Tejo que sobe e desce em função da lua.

Na semana passada, um tipo que eu conheço dentro da tasca improvisada gritou o meu nome.
Conheço-o do ginásio e das artes marciais. Foi bófia, mas como bebia em serviço, correram com ele. Agora é chulo a tempo inteiro. Especialista em raparigas do leste.
Em tronco nu, abanado o braço das pulseiras de ouro voltou a chamar-me com a cerveja na mão. Nas costas um leão tatuado anunciava o amor pelo sproting. A garrafa gelada também gritou o meu nome.

Porque andar de bicicleta é uma actividade que faz desidratar, parei, desci, encostei a máquina à parede da barraca e a barriga ao balcão.

-- Riki, já sabes que comigo jogas em casa – foi assim que ele começou a conversa. Pediu uma cerveja para mim e depois levou-me às traseiras da tasca para me mostrar as bonecas.

O quintal por trás da barraca é directamente a praia. Viradas para Lisboa, mais ou menos em frente à Praça do Comércio as mulheres esperavam por melhores dias. Junto às ondas mansas do Tejo, uma dúzia de mulheres louras e envelhecidas. Sentadas e declinadas em cadeiras e espreguiçadeiras de plástico espreguiçavam a apanhar sol nas carnes flácidas.

-- Vê lá se queres ir beber um whisky ao reservado? Só tens de escolher a companhia.
Na barraca ao lado, funcionava “o reservado”.
Uma cortina de fitas impedia a visão do interior e dos necessariamente minúsculos quartos.

Rejeitei a oferta do whisky e da companhia. Desculpei-me com a pressa.

Nesse momento as cortinas do reservado abriram e um estranho par saiu do escuro para a luz do sol.
Debaixo do braço de uma eslava com cerca de dois metros e mais de cento e vinte quilos, vinha o homem que vende o melhor peixe da praça do Barreiro. A mulher vinha em biquini florido e trazia o ar de enfado característico das putas velhas.
O peixeiro sorriu-me com os dentes que lhe restam entre o comprometido e o satisfeito.

Já na sombra da taberna, na outra ponta do balcão enquanto recebia a sagres gelada da mão do empregado, aquele que costuma vender o peixe gritou para mim de modo a que todos o ouvissem:
-- Ó Riki em sessenta anos de vida, dezoito no mar e três na guerra, nunca tinha visto tanto pintelho louro!!!

A assistência riu, e o taberneiro passou o pano por cima do balcão de madeira suja.
Tambem eu ri. Depois, vagamente agoniado do calor, acabei a cerveja, voltei a montar na bicicleta e fui à minha vida a contar os tostões que preciso para voltar para Havana.

Acontece que depois deste episódio na barraca da praia do Barreiro, tenho tido um pesadelo recorrente. Quando este sonho me ensombra as noites, acordo a suar e a cuspir.
Vou beber agua mas tenho dificuldade em voltar a adormecer.

Eu conto o sonho:
Estou sentado na varanda da casa de Santa Fé a comer um lindo robalo. Robalo legitimo pescado no Tejo. Assado por mim no carvão. Fresquíssimo… Vejo-me sentado à mesa. No sonho cheira a trópicos depois da chuva. Começo a arranjar o peixe e a tirar as espinhas. Em cima da mesa, à minha frente está uma Bucanero gelada e um rádio roufenho toca salsa. Depois vem a parte assustadora do sonho: em vez de espinhas, entre a carne branca do robalo, estão crespos pintelhos louros…Quanto mais eu tiro com a ponta da faca mais pintelhos louros aparecem…

Será que para parar com este terrivel pesadelo vou ter de deixar de comer peixe grelhado?
Ou terei mesmo que voltar a Cuba para, com a ajuda de uma Santeira esconjurar a maldição do robalo pintelhudo???
Flatulências a partir de 28/01/2006