quarta-feira, agosto 09, 2006

600 metros barreiras em becos escuros


Quais Obicuwelos quais Carlos Lopes, só quem já alguma vez fugiu da polícia consegue conjugar correctamente o verbo correr.

A mim aconteceu-me sem querer. Quer-se dizer, querer fugir, até queria… O que eu não queria era ser apanhado.
Eu conto.

Quando eu andava aí pelos meus dezoito anos, um dos interesses de todos os putos da minha idade era a Feira da Ladra. A maltesaria do subúrbio fazia de cada ida à feira um momento marcante das nossas semanas. Nas madrugadas de sábado apanhávamos o primeiro barco que cruzava o Tejo e ainda não eram sete e meia já todos estávamos abancados na feira.

Levávamos coisas para vender. Cenas sem importancia. Depois de vender comprávamos. Tambem merdas sem importancia.

Levávamos roupa. Roupa. Sapatos. Óculos escuros, discos e cassetes, walkmans em greve, livros escolares sem uso, medalhas dos avós, despertadores parados, pentes, escovas, máquinas de barbear de parentes mortos, bengalas, óculos graduados, navalhas, porta-chaves, cinzeiros de cafés e repartições públicas e todas as outras coisas possíveis de levar dentro de um saco às costas. (Sei de um gajo que até uma dentadura em segunda boca conseguiu vender.)


De tudo o que se carregava, aquilo que se vendia melhor era sem duvida a roupa.
Falo-vos do tempo em que a Ana Salazar fez a Lisboa beta e benzoca descobrir a roupa em segunda mão.

Nestes finais de oitenta, os casacos das avós saídos do armário e a cheirar a naftalina não aguentavam muito tempo na feira… Paravam por lá duas ou três tiazocas com boutiques na Av. de Roma que compravam praticamente ao preço que lhe pedíssemos. Depois mandavam limpar o casaco da velhinha suburbana, davam-lhe uns retoques de costura e vendiam pelo dobro do preço nas lojas das pessoas finas.

Também as calças de ganga usadas tinham saída. Especialmente se fossem de marca ou tivessem uma etiqueta conhecida.

Casacos de homem que os cavalheiros no subúrbio usaram nas décadas anteriores para irem a casamentos e baptizados eram nesse tempo disputados por intelectuais vagamente maricas que pagavam na hora a preços inflacionados.

O pessoal vendia a roupa e em geral gastava logo na feira o dinheiro conseguido. Muitos compravam discos, outros regateavam livros os mais desesperados investiam logo ali o guito em haxe.

O chato foi quando a roupa começou a faltar.
Ao início a malta do meu bairro levou a roupa que sobrava la por casa.
Depois começou a levar a roupa que a família e os amigos não queriam.

Às tantas já o pessoal levava a roupa que os desconhecidos queriam e que não sabiam que havia quem a levasse.
Fazer estendais. Era este o nome. Fazer estendais, chamava-se à prática de recolher a roupa estendida para secar na sexta-feira à noite e levar para vender na feira da ladra sem que os proprietários notassem.

Nos prédios de subúrbio, no rés-do-chão ninguém deixa a roupa estendida.
Só a partir do primeiro andar é que começam a aparecer penduradas as disputadas peças.
Mas aí em cima o pessoal não conseguia chegar… Também parecia provocação.

O meu amigo Anarco que alem de ser completamente doido sempre foi muito inteligente descobriu um processo de recolha da roupa.

Nas nossas saídas à sexta-feira à noite trazia de casa o Gringo, o gato da irmã. O Gringo era um gatão malhado que pertencia à boazona da Marina e que passava os dias a dormir no sofá da sala e as noites sabe-se lá onde. Falo-vos do gato, do Gringo. Nada de confusões, porque a Marina sempre foi uma meninda recatada que não saía de casa para desespero do pessoal lá da rua. O gato esse sim, era um devasso. Um desregrado que vadiava incognico entre contentores e telhados sujos.

À noite lá em casa do Anarco nunca se sabia do gato.
Excepto nas noites de sexta, nessas noites, nós sabíamos onde estava o Gringo…Vinha connosco para a rua.
Levávamos o gato a beber copos e a passear.
Quando acontecia passarmos por baixo de um primeiro ou segundo andar com roupa estendida, se esta nos parecia passível de ser comercializada, fazíamos o número do Gringo.

Um de nós ficava a vigiar de um lado. Outro vigiava a rua no lado oposto. O Anarco pegava no Gingo pelas patas de trás, dava-lhe balanço, fazia pontaria à roupa e pimba. Super gato a voar, calças ou casaco preso nas unhas, gato a cair bem sempre de pé e a roupa esperada a cair com ele.

Como muito bem disse o Castanho que costumava vir connosco: é mais fácil que ir ao Multibanco, assim ou menos um gajo não tem de estar a gastar a molécula a lembrar-se dos códigos!!!

Realmente correu tudo bem até ao dia em que prenderam o Gringo.
Já tínhamos um saco jeitoso cheio de calças de ganga, algumas camisas e um casaco de malha. Mas o Anarco não estava satisfeito.
Pela terceira sexta-feira consecutiva foi atirar o Gringo para um estendal no primeiro andar por trás do café onde costumávamos iniciar a noite.
Como das outras vezes estava carregado de roupa já seca e com as luzes todas apagadas.

Acho que ainda o gato não ia no ar já tinham ligado a sirene do carro da polícia.
Mesmo atrás de nós.
O carro da bófia de máximos acessos e a arrancar vrruum.

Correu cada um para seu lado.

O saco da roupa ficou abandonado para os bófias dividirem entre si.

Os becos e ruas escuras do bairro não facilitam as perseguições policiais.
Voei sobre carros abandonados, contentores de lixo e vasos de flores.

Os bófias saíram do carro e correram também. Não os vi mas ouvi-lhes os passos.
Não deram tiros para o ar mas gritaram pára pára.

Claro que não parei.
Dez minutos depois já eu estava na segurança da casa paterna sinceramente arrependido de toda aquela história. Coitado do meu pai que não merecia ter um filho assim como eu.
Nessa noite jurei a mim mesmo nunca mais me envolver em merdas que possam dar prisão.

Não digo que tenha cumprido o juramento à risca. Tambem é dificil, afinal de contas fazem-se umas leis tão restritivas...
De qualquer forma: nunca mais fiquei de vigia, nunca roubei nada e se não me chatearem podem ficar descansados que cá o Riki tambem não faz mal a ninguem.

Nessa noite a polícia apreendeu o Gringo. Ficou detido no posto da Quinta da Lomba. Durante mais de dois meses a Marina chorou o gato pelos cantos.

Farto de vê-la sofrer, o Anarco contou tudo à irmã. A Marina foi à bófia dizer que lhe tinha morrido um gato muito parecido com aquele que eles lá tinham. Com as lágrimas nos olhos, pediu para ficar com ele… como a gaja era podre de boa os bófias não disseram que não.

Hoje o Anarco trabalha na segurança social de Setúbal.

O outro tipo que nessa noite estava connosco morreu há três anos com uma tuberculose oportunista do vírus da sida.

A Marina continua boa e é professora de inglês.

O gato também já deve ter morrido.

Passados tantos anos ainda olha à volta quando me lembro da história, não vá estar algum agente da brigada do estendal à espreita.

Dessa noite também lamento não estar ninguém a cronometrar a minha velocidade na corrida. Tenho a certeza que bati o recorde do mundo dos 600 metros barreiras em becos escuros…

Felizmente nenhum dos polícias me conseguiu dar a medalha.
Flatulências a partir de 28/01/2006