sexta-feira, setembro 08, 2006

A riqueza da festa


Em casa de angolano pode não haver nada para comer; pode a pobreza ter levado o kumbo todo; pode nem haver fuba para misturar na agua… Mas havendo electricidade, uma coisa é garantida, dentro do frigorífico há sempre uma cerveja gelada à espera. É a cerveja dos amigos. Esta riqueza permanente e imensa generosidade sempre presente faz do povo angolano o povo mais rico do planeta.

Esta filosofia da Floribela vem a propósito do lançamento do semanário Sol.
Uma amiga recente de quem gosto particularmente decidiu convidar-me a mim e à minha companheira para estarmos presentes. Lá vestimos uns trapitos melhores e fomos.
Tchi pá, tanta cara conhecida e tanto figurão!!!
Gente importante da politica e do jornalismo. Bar aberto e gajas super produzidas.

Havia de tudo na festa, mas faltava alegria na farra. Se a coisa fosse feita por angolanos ainda agora se dançava no museu encostado ao Tejo. Talvez não fosse esse o objectivo do senhor José António Saraiva…. Mas o que é que querem… cada um tem as suas referencias que servem com modelos de comparação

Cá o casalinho do subúrbio bebeu um gin tónico, demos dois dedos de conversa e voltamos para margem certa por volta da meia-noite.
Voltei pensando nas festas a que já fui.

A melhor farra da minha vida aconteceu há alguns verões atrás. No Vale da Amoreira, essa grande cidade angolana.

Num verão remoto, frequentei o Vale diariamente.

Nesse dia fui no tribunal da Moita servir de testemunha abonatória para um tipo que não conhecia mas que era primo de uma amiga.
O réu chamava-se Miro e teve de comparecer num julgamento tardio de um caso de ofensas corporais e estragos num café.

O advogado, um angolano cinquentão e bem disposto especialista em criminalidade suburbana sugeriu uma testemunha idónea e branca.
Posso não ser lá muito idóneo mas como sou branco lá fui. Bem engravatado fui dizer ao juiz que era o melhor amigo do Casimiro, que o conhecia desde que ele nasceu e que era um rapaz cordato e que não faz mal a uma mosca.
A coisa correu bem.

O Miro foi absolvido de todas as acusações e nem sequer teve de pagar os danos.

Depois foi a farra.

Chegamos do tribunal eram cinco da tarde e todo o prédio nos veio receber às escadas.
A festa já estava montada.
Mesmo que o réu fosse condenado, vinha a casa fazer a festa que seria de despedida e depois seguia para a Holanda onde já tinha parentes à espera… Como o Miro foi absolvido a farra ganhou sabor de vitória.

Havia muamba, kalulu e cabidela de cabrito que as mulheres estavam a fazer desde manha.
Três frigoríficos cheiinhos até cima de sagres mini.
Bué da garrafões de três litros whisky JB.
Uma aparelhagenzorra deste tamanho a bombar quetas.
As portas dos apartamentos estavam todas abertas e desde o rés do chão ao terceiro andar toda a gente dançava.

Durou três dias a farra.

Ao nascer do sol na segunda madrugada de festa o advogado teve comigo uma inconfidência. Estávamos os dois a mijar de cima do prédio virados para nascente.
-- Sabes Riki, eu sei que eles não me vão pagar os meus honorários… A mãe do Miro já disse que nesta semana não podemos fazer as contas…. Mas que se lixe pá!!!! Só para vir numa farra destas era capaz de trabalhar o dobro sem cobrar!!!!
Moro com a minha segunda mulher num apartamento confortavel em oeiras. Até me vou safando bem para um preto que chegou aqui em 68 com uma bolsa de estudo...mas se queres que te diga faz-me falta Africa. Faz-me falta Luanda. Quando tou aqui no Vale com os meus clientes às vezes sinto-me assim como em casa, sinto-me assim aconchegado, sabe?
Tou para aqui a mijar de cima do prédio e a ver aquele sol a nascer amarelo e já não tou mais na Europa. Tou de volta no meu Bairro Operário. Ali atrás de nós já não tem o Barreiro, está a Marginal, a Baía e o Mussulo… que dinheiro é paga isto pá???

Decidi vir embora.
Voltei para casa, tomei duche e fui trabalhar.

Parece que o Miro está preso outra vez.

O advogado continua a defender criminalidade de subúrbio e a sofrer de saudades.

Eu dessa farra guardei a memória da festa, amigos para as ocasiões e aquele precioso nascer do sol em Luanda com a Moita ao fundo.
Essa riqueza a mim ninguém me tira.
Flatulências a partir de 28/01/2006